PEDRO A. SANTOS

O preço dos alimentos em Portugal é excessivamente elevado quando se tem em consideração o anémico salário médio nacional. Mas o que se podia esperar de um País que apenas é auto-suficiente em vinho, e importa quase tudo o resto? 

A mais recente recolha de dados da União Europeia sobre consumo acaba de confirmar aquilo que milhões de donas-de-casa portuguesas estão cansadas de saber: a comida está cara demais para as nossas posses.

Na realidade, segundo o estudo da Eurostat, Portugal até se encontra na média europeia de preços na maioria dos segmentos alimentares; o problema reside no facto de os nossos salários não seguirem o mesmo padrão. O índice de preços da comida em Portugal encontra-se quase ao mesmo nível da Holanda, da Alemanha, e supera a Espanha, apesar de nestes países se auferirem ordenados superiores.

Embora em Portugal se fale bastante em ordenados médios, a elevada desigualdade de rendimentos que se desenvolveu nos últimos anos oculta a miserável realidade dos rendimentos portugueses. Como desenvolvidamente referimos nas páginas seguintes, o salário médio bruto (antes dos descontos) no nosso País é de 986 euros – o que equivale a dizer que, descontados os impostos e taxas, o salário médio líquido é de cerca de 700 euros mensais – muito menos do que um trabalhador espanhol leva, limpo, para casa: quase 1.300 euros.

Estes números revelam mais uma das irregularidades económicas dentro da União Europeia. Nos países onde a comida é mais cara, esse valor alcança o dobro dos países onde a comida é mais barata. A disparidade de rendimentos, no entanto, é muito mais elevada do que este valor, o que significa que, mesmo tendo um custo de vida mais elevado, o esforço financeiro para comprar comida nos países mais ricos não deixa de ser menor.

Na Suécia, por exemplo, o preço da comida é 32 por cento mais elevado do que em Portugal, mas os ordenados são 221 por cento mais altos. Ou seja, cada sueco recebe três vezes mais do que um português, mas tem apenas um acréscimo de 32 por cento no preço da sua comida.

Comparados com os países do Leste, os portugueses ficam ainda pior na fotografia. Como noticiado anteriormente nas páginas deste jornal, os ordenados dos trabalhadores do Leste estão a aproximar-se velozmente dos ordenados portugueses. O rendimento mediano de um cidadão checo não difere muito do de um português, mas o custo de vida em termos alimentares é 16 por cento inferior, enquanto na Polónia é 32 por cento mais baixo. Em Espanha, a comida está quase ao mesmo preço de Portugal (sendo até, em certos casos, um pouco mais barata) mas os ordenados são 58 por cento mais generosos do que no nosso País.

Défice alimentar

O facto de Portugal ter de importar uma fatia considerável da sua comida não ajuda a situação nacional. Mais de metade de todo o consumo de peixe congelado, seco e salgado em Portugal tem de ser comprado ao estrangeiro, enquanto produção nacional apenas garante 83 por cento das nossas necessidades agrícolas, 82 por cento do peixe fresco que consumimos – mesmo tendo Portugal uma das maiores zonas marítimas exclusivas do mundo – e 79 por cento da indústria alimentar.

O desinvestimento forçado nesta área, por via de subsídios da União Europeia para impedir a produção, apenas é uma face do problema; a agricultura nacional também é extremamente ineficiente segundo os padrões da agricultura modernizada e mecanizada dos países mais ricos da UE. Em 2014, a agricultura ainda representava 8,4 por cento de todo o emprego em Portugal, mas metade dos agricultores tinha mais de 65 anos, e apenas 5,5 por cento tinham um curso superior ou profissional na área. Em média, cada exploração agrícola em Portugal é, em termos monetários, 50 por cento inferior à média europeia. A fragmentação e falta de modernização do sector significam que, não raras vezes, o produto agrícola português não chega sequer aos mercados nacionais.

Problemas estruturais

Não se pense que os elevados preços da comida no mercado resultam em “agricultores ricos”: há que diferenciar o preço que é cobrado ao consumidor do preço que é pago ao produtor. Aliás, um relatório do INE afirma que um dos grandes problemas da agricultura portuguesa é a “dificuldade de escoamento” associado aos “baixos preços pagos à produção”.

Nos últimos meses repetiram-se os protestos públicos, como os dos suinicultores e dos produtores de leite, que exigem que o produto português esteja fielmente apresentado como tal. No entanto, graças ao aumento dos preços das “matérias-primas” da agricultura/pecuária, como ração, sementes ou mesmo gasóleo para as máquinas, muitos agricultores queixam-se de que têm de vender o seu produto abaixo do preço de produção.

As constantes greves dos estivadores, mais os aumentos constantes dos impostos sobre os combustíveis, não facilitam a vida aos produtores agrícolas portugueses. Como O DIABO noticiou, só durante a última greve no porto de Lisboa, o preço da soja, recurso muito usado na alimentação animal, aumentou 15 por cento.

Exportar e importar

Portugal tem claras e históricas vantagens competitivas na produção de vinho e até mesmo de azeite, dois produtos que exporta em quantidades significativas. Estas exportações, no entanto, não cobrem as importações. Em termos monetários, segundo dados do INE, Portugal importou em 2014 mais de 7 mil milhões de euros em produtos agrícolas, e cerca de 1,7 mil milhões em produtos da pesca. Em resposta, apenas exportámos cerca de 4,5 mil milhões de euros em produtos agrícolas, e pouco mais de mil milhões em produtos piscatórios. O maior fornecedor a Portugal? Espanha, de onde nos vem cerca de metade de todas as importações agro-alimentares, e onde o preço da venda de comida ao consumidor é inferior ao nosso.

Os problemas estruturais da economia agrícola portuguesa são enormes; e enquanto Portugal não os resolver, os preços da comida certamente não vão baixar.

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