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Para António costa, manter-se na liderança do PS justifica todas as promessas, todas as denegações, todas as jogadas de bastidor, todas as tropelias. não admira que, como se costumava dizer de Sócrates, seja difícil encontrar alguém disposto a comprar-lhe um carro em segunda mão…

Portugal assiste ao espectáculo escabroso de um político que, para se manter na ribalta, não olha a meios. Não apenas àqueles meios a que, dando o desconto, os eleitores estão dispostos a fechar os olhos como truques do ofício – mas também a meios e a truques que surpreendem e chocam os próprios oficiais do ramo.

Entre boquiabertos e incrédulos, os portugueses vêem revelar-se perante os seus olhos, sem peias nem vergonha, sem eufemismo ou sequer disfarce, um político que tenta enganar, ao mesmo tempo e em directo, todos os parceiros de um jogo que devia ter um mínimo de limpeza. Politicamente criado no mundo amoral das “Jotas” partidárias, ele talvez pense que não há limites para aquilo que um homem público pode fazer. Mas engana-se. E se os portugueses pudessem ter adivinhado o espectáculo triste que ele hoje oferece, a derrota “poucochinha” que lhe deram no dia 4 de Outubro teria sido bem mais expressiva.

E, no entanto, o verdadeiro retrato de António Costa estava há muito à nossa frente. Poucos se lembram, ou querem lembrar, que o actual líder do PS jurou em público levar até ao fim o seu mandato na Câmara Municipal de Lisboa, desistindo de candidatar-se à chefia partidária na condição de o seu rival, António José Seguro, respeitar o “património político” do derrotado José Sócrates.

Poucos se lembram, ou querem lembrar, que Costa rasgou na praça pública esse acordo, enganando “seguristas” e “socráticos” em simultâneo: sob pretexto de Seguro ter obtido uma vitória “poucochinha” nas eleições europeias, atirou-o pela borda fora com o apoio dos apoiantes do antigo primeiro-ministro; e logo depois, perante a prisão de Sócrates, lavou as mãos de um passado cúmplice e procedeu calmamente ao assassinato político do seu antigo chefe.

A última campanha eleitoral voltou a confirmá-lo como troca-tintas. Nos cartazes do PS, em que a sua imagem surgia repentinamente embranquecida com a palavra “confiança”, prometeu virar a página no livro da austeridade – quando, de facto, mudou de guião todos os dias, disparando ora à direita ora à esquerda. Os seus camaradas ainda atribuíam, candidamente, o zigue-zague à necessidade de captar eleitorados; mas depressa se viu que a indiferença de rumo lhe está nos cromossomas políticos: o que contava era ganhar, não importava à custa de quem nem em nome de quê. Primeiro, quis maioria absoluta; a meio, já se contentava com uma vitória “poucochinha”; no fim, sofreu uma derrota histórica.

Na noite eleitoral, não soube ter a hombridade de tirar consequências e ceder o lugar a outro – ou, pelo menos, pô-lo à disposição do seu partido. Perante as televisões e o País, que não esperavam menos do que uma demissão, dispôs-se alegremente a continuar, como se nada tivesse acontecido. Quis nesse 4 de Outubro vestir uma “pose de Estado”, reconhecendo (ainda que a custo) a vitória da coligação de centro-direita e rejeitando a “coligação negativa” para que o PCP e o Bloco de Esquerda queriam atraí-lo.

Mas escassos dias depois estava sentado à mesa dos comunistas, piscando o olho a uma extrema-esquerda que confia tanto nele como todos os outros. Falando de alto, o líder do PCP pôde então ralhar-lhe por não ser suficientemente radi- cal para o seu gosto – e nas horas seguintes o País ouviu, em pasmo, a hipótese de Costa apresentar ao Presidente Cavaco Silva um governo PS-PCP-BE que, por uma espúria engenharia parlamentar, juntaria quem quer democracia e Europa e quem não quer sequer ouvir falar delas. Aproveitando a inesperada boleia, o PCP logo elevou o seu discurso em alguns decibéis e passou a dizer que também tem direito a representante no Conselho de Estado!

Por esta altura, já ninguém sabia se António Costa pretendia “deixar passar” (ao que a loucura chegou!) um Governo da coligação, integrar um Governo com essa mesma coligação ou propor uma “alternativa” com os partidos à sua esquerda, de que dissera cobras e lagartos (e que lhe haviam retribuído na mesma moeda). A insanidade atingiu tal ponto que teve de ser um “soarista”, Vítor Ramalho, a lembrar que qualquer plano que Costa pudesse ter de integrar um governo depois de perder as eleições teria de ser referendado pelo PS. Não fosse ele sonhar outra vez que já é primeiro-ministro…

A meio do namoro com a extrema-esquerda, António Costa foi à mesa da coligação de centro-direita fingir que negociava. Entrou com ar de sonso e saiu com cara de enjoado – apenas para declarar, em tom blasé, que “esperava” propostas “concretas”, omitindo tudo o que, de boa-fé, a coligação se prontificou a conceder em troca de estabilidade. Esfumara-se de novo o “homem de Estado” que, na noite da derrota eleitoral, dera a entender que viabilizaria um governo em nome do interesse nacional.

Ainda mal tinha passado meia semana desde que Costa perdera as eleições, mas o País percebera já que a sua promessa de “devolver a confiança aos portugueses” se resumia a ameaçá-los com um novo PREC – ameaça que, de resto, também podia não passar de mais um ‘bluff’ para enganar, agora, a extrema-esquerda.

Que ninguém, à sua volta, confie na palavra política de António Costa, talvez fosse expectável. O que é mais significativo é que, portas adentro, entre os próprios socialistas, a trajectória errática do actual líder inspira igual (se não maior…) desconfiança. Os seguidores dos antigos secretários-gerais José Sócrates e António José Seguro têm razões de sobra para estarem de pé atrás, ainda que os primeiros venham até agora condescendendo, talvez na esperança de uma futura distribuição de prebendas.

O homem que se propunha “unir o partido” e, com o partido atrás, apresentar ao País uma alternativa credível de governação está hoje reduzido à figura patética de um jogador de ‘poker’ que, sem jogo na mão, faz ‘bluff ’ à esquerda e à direita. No PS poucos acreditam que este desgaste de imagem não venha a comprometer o próprio futuro dos socialistas em Portugal.

Alguns – Francisco Assis, Álvaro Beleza, António Galamba, Seixas da Costa, João Proença, Vera Jardim, até Vital Moreira! – já se afastaram de uma liderança com que não querem ser salpicados. Helena Freitas, cabeça de lista do PS por Coimbra, falou por todos ao considerar que “Passos Coelho ganhou as eleições e tem todo o direito a governar” e que a famigerada maioria de esquerda “não se apresentou aos eleitores” e, como tal, “não é legítima” como proposta governativa.

Um peso-pesado, Sérgio Sousa Pinto, demitiu-se no final da semana do Secretariado Nacional do PS, agastado com “esta barafunda suicidária” (palavras suas). E José Manuel Fernandes, um dos mais influentes analistas da política nacional, já foi tão claro quanto se pode ser: “António Costa não é mesmo um homem de confiança, de palavra dada, de relação segura”. Mais: “é impossível confiar num político que não hesita em tentar mudar as regras do jogo apenas para salvar a sua pele”.

  • Natália Matos Silva

    Este jornal dá-me vómitos.
    Ainda dizem que é isento. Isto é uma pouca vergonha como é possível serem tão cegos contra a esquerda e fazerem uma campanha negra e sistemática contra o PS e António Costa.
    São juizos de valor continuos, capas de jornais lamentáveis.
    Enfim.
    Mas isso aí no Diabo tem Jornalistas? Códigos de Ética? Ou é uma cambada com tiques nazis?

    • Sérgio Silva

      Este não um tentáculo do Paulo Portas!

  • Sakana

    Isto não é um jornal, é uma fossa a céu aberto

    • Sérgio Silva

      Sem duvida!

  • Pedro Dias

    Esta “notícia”, e os comentários que se ouvem por todo o lado à direita do PS e mesmo dentro do PS, vem finalmente expor a nu, para quem até aqui se negou a ver o óbvio.
    Na democracia portuguesa os deputados, não valem mesmo nada.
    Valem os Partidos que os nomearam e meteram nas listas!
    Se a MAIORIA dos deputados quiserem um Governo, presidido pelo José dos Anzóis, à luz da teoria dos comentadores de direita, amplamente divulgada nos últimos dias, não podem!
    Mas esta MAIORIA foi eleita pelos Portugueses!
    Teoricamente esta MAIORIA representa a MAIORIA dos Portugueses!
    Que raio de democracia é esta em que se defende que um Governo não pode ser escolhido pela MAIORIA dos deputados eleita pelos Portugueses!
    Até está na Constituição que é assim que tem de ser!
    Devo ter lido mal a Constituição!

    • plclmt

      Não leste, nem percebeste o essencial, quando se lê um documento desses. É necessário ir ao espírito da lei. Os deputados representam eleitores e naquilo que eles votaram e todos sabemos, que 20% dos eleitores votaram em partidos (BE e CDU), anti-europeístas, anti-euro, anti-ue, anti-PEC, anti-tratado orçamental, anti-nato, a favor das nacionalizações, etc… Portanto estes deputados não podem formar uma frente única, com deputados de outros partidos em que os seus eleitores são europeístas, a favor da Nato, da UE, etc…Se trair assim os eleitores é legítimo, então os deputados não representam quem votou neles, mas representam-se apenas a eles próprios. Até Costa, não era assim

  • Lusitan

    Obviamente.