ODIABO600x200

Formado o novo Governo de direita, António Costa derrubou-o imediatamente para instaurar um “Governo de esquerda”, termo eufemístico para um conceito que já existe há muito: uma Frente Popular. Costa evita o termo, porque nenhuma frente popular chegou a bom porto. As alianças entre partidos socialistas e comunistas acabam invariavelmente em derrota, miséria e desgraça.

O que é uma “frente popular”? Na prática, nada mais do que uma forma de os comunistas alcançarem o poder. O termo e a ideia foram congeminados no Komintern – a Internacional Comunista fundada por Lenine – que, numa tentativa para que os partidos comunistas fora da URSS se aproximassem do poder, decretaram alianças tácticas com os socialistas e os moderados, a quem eles escassos anos antes chamavam desdenhosamente “social-fascistas”.

Os historiadores não ligados ao marxismo académico consideram que as várias “frentes populares” até hoje constituídas não foram mais do que um aproveitamento cínico, pelos comunistas, de símbolos patrióticos (políticas “patrióticas e de esquerda” já lá diz o PCP) para chegarem ao poleiro. Mas, no fundamental, o objectivo de abolir a propriedade privada e instaurar a ditadura do proletariado nunca desapareceu, mesmo quando os partidos comunistas dizem que querem “entendimentos” e “compromissos”. A mistura da procura cega de poder por líderes socialistas ingénuos com as sinistras tácticas dos comunistas conduziu mais do que um país ao desastre.

Fome, guerra e marxismo

“Uma gaivota voava voava” – gostam os esquerdistas de cantar. Mas em 1940 o que voava sobre as cabeças dos soldados franceses eram esquadrões seguidos de esquadrões de bombardeiros Heinkel e Junkers. Enquanto os soldados lutavam desesperadamente na linha da frente, o “Exército do Ar” francês nada conseguia fazer contra a poderosa Luftwaffe e, a centenas de quilómetros da frente, o Partido Comunista Francês, a mando de Moscovo, fazia greve à produção de aviões de guerra, isto quando não sabotava linhas de comboio. O “anti-fascismo” tinha dado lugar ao “pacifismo” desde o acordo entre Estaline e Hitler para dividir a Polónia. O patriotismo dos comunistas estava agora à vista de todos.

Envenenada por inimigos internos e atropelada por inimigos externos, a França foi derrotada em meras semanas. Numa pequena ironia histórica, um dos últimos governos da III República francesa foi, precisamente, uma Frente Popular, ou um “Governo de esquerda” como Costa tanto quer hoje.

Aliados estavam o SFIO, antecessor do actual Partido Socialista, o Partido Republicano Radical Socialista e uma variedade de comunistas, tanto trotskistas como estalinistas.

Eleitos em 1936, quando o mundo caminhava já para a guerra global, os partidos de esquerda fizeram uma “festa socialista”. Os ordenados subiram 49% – e os preços, 50%. A inflação disparou e a produção nacional caiu a pique, com os empresários a fugirem do país. Mas, sem dúvida, o golpe mais duro foi a instabilidade. A França chegou a desenvolver, em 1936, um caça que podia dar luta aos aviões germânicos, mas o “governo de esquerda” não se apressou, e o modelo só começou a ser entregue em 1940, quando os “Panzers” da Alemanha já aqueciam os motores para atravessar as Ardenas. Poucos foram entregues: os comunistas fizeram greves até à derrota final.

Por sua vez, no Chile, o presidente comunista Salvador Allende tentou implementar uma república popular de modelo cubano com base numa fórmula de “frente popular”, tendo ludibriado os socialistas moderados para lhe darem apoio. Após ter-se comprometido a “portar-se bem”, nacionalizou grande parte da economia e gastou como um rei. Quando o parlamento votou, com maioria de dois terços, o fim das nacionalizações, recusou-se a cumprir. Recebeu o Prémio Lenine da Paz pelos seus esforços. No fim, a inflação de 140 por cento e o conflito com o parlamento (onde até os seus “aliados” socialistas se viraram contra ele) conduziu directamente ao fim da democracia no Chile.

Em Espanha, a “frente popular” anarquizou ainda mais um país em instabilidade permanente. Os seus membros eram da mesma natureza do “governo de esquerda” de Costa: elementos moderados da esquerda socialista à mistura com um partido estalinista, o Partido Comunista de Espanha, e um partido trostkista, o Partido Operário de Unificação Marxista. Promessas pré-eleitorais à parte, assim que os comunistas se viram no poder, renegaram logo quaisquer compromissos de moderação e deram início a nacionalizações e ocupações radicais. Para não caírem do poleiro (o tacho é simpático em qualquer época) os socialistas fecharam os olhos à destruição de igrejas e à perseguição de qualquer pobre inocente que tivesse o azar de ser proclamado “fascista”. Nada que não tenha acontecido em Portugal nos anos 70.

Quando Francisco Franco deu início ao seu pronunciamento, que conduziu à guerra civil de Espanha, os comunistas perderam mais tempo a lutar entre si do que contra os nacionalistas. Durante as “Jornadas de Maio de 1937” os comunistas massacraram mais de mil pessoas em apenas uma semana. Mesmo assim, um número pequeno comparado com os milhões de mortos da guerra civil, causada pela instabilidade em que a “frente popular” deixou Espanha.

Depois da loucura

As “frentes populares” deixaram de estar moda quando os moderados se aperceberam do embuste. Mesmo assim, ainda houve momentos de tensão. A Frente Democrática Popular em Itália quase alinhou aquele país com a tirania soviética, em vez de com a liberdade do Ocidente. Nessa altura, tal como agora, a ala moderada do PS italiano opôs-se a esta aliança com os comunistas, e a fragmentação interna do partido determinou que o Partido da Democracia Cristã, uma grande coligação de direita, viria a vencer todas as eleições nos 50 anos seguintes. Em França, os socialistas quase foram na cantiga e, no fim, teve de ser o General De Gaulle a devolver a estabilidade à Nação em 1958 e após o Maio de 68.

António Costa quer ser primeiro-ministro, mesmo que para isso tenha de ignorar toda a história do seu próprio partido. O PCP já indica que quer controlar a agenda legislativa do Estado português, tendo declarado que as medidas consideradas “positivas” serão aprovadas, mas as medidas “negativas” não terão o apoio daquele partido. Ou seja, nacionalizações sim, responsabilidade fiscal não. Outro ponto insolúvel de discórdia é a NATO, de que os dirigentes comunistas continuam, como sempre, a dizer cobras e lagartos. Por sua vez, o Bloco mostra-se mais flexível na aparência, mas à primeira oportunidade votou contra o Tratado Orçamental da União Europeia, enquanto o PS votou a favor. Será possível que três partidos tão dissimilares assegurem uma governação coerente ou estável?

Costa parece estar a ser levado pela mão para aprovar medidas que nem o PCP nem o BE conseguiriam levar por diante sem a ajuda providencial do “saco de gatos” que seria um “governo de esquerda”. Mas nenhuma “frente popular” alguma vez acabou bem. E o dr. Costa deveria ter pensado duas vezes antes de voltar a tirar o marxismo da gaveta.

COMPARTILHAR