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Faz 437 anos desde que Portugal sofreu a maior derrota militar da história. A batalha de Alcácer Quibir deixou no deserto marroquino, entre mortos e cativos, o escol da nobreza lusitana. O desaparecimento de D. Sebastião, que partira para a guerra em África sem deixar descendência, abriu caminho à perda da independência, consumada um par de anos depois daquele 4 de Agosto de 1578.

Filho póstumo do príncipe D. João, que morreu 20 dias antes do nascimento de D. Sebastião, em Janeiro de 1554, o herdeiro da coroa portuguesa foi separado da mãe, D. Joana de Áustria, com apenas quatro meses. Quando tinha três anos, o “Desejado” sucedeu ao avô, D. João III, sendo a regência do reino assegurada primeiro pela avó, D. Catarina, e depois pelo tio-avô, cardeal D. Henrique, que também fora inquisidor-geral.

Com 14 anos, D. Sebastião assumiu a maioridade e começou a governar. Fê-lo com a ajuda de validos como os irmãos Gonçalves da Câmara e Pêro d’Alcáçova Carneiro. O rei preferia a caça, na companhia de nobres da sua geração, como Cristóvão de Távora e Álvaro de Castro. Exercitava-se para a guerra porque acreditava ser o “capitão de Cristo”, com a missão de estabelecer um império católico em Marrocos, no coração do território mouro do Norte de África.

O Desejado

Em 1573, D. Sebastião fez uma longa viagem ao Alentejo e ao Algarve. O povo recebeu-o com manifestações entusiásticas: esperava que o “Desejado” o livrasse da fome e da guerra. No ano seguinte, sem quaisquer preparativos, o rei desembarcou na então possessão portuguesa de Tânger e anunciou a intenção de reconquistar Larache ou Arzila, praças africanas evacuadas durante o reinado de D. João III. Acabaria, no entanto, por desistir e regressou a Portugal.

Ainda assim a sua vida chegou a estar em perigo: uma tempestade desviou para a ilha da Madeira o navio em que seguia. Em 1575, um golpe palaciano em Marrocos proporcionou o pretexto de que D. Sebastião precisava. O novo rei de Fez, Mulei Muhammad Al-Mutawakkil (Mulei Mafamede nas nossas crónicas da época), foi destronado pelo seu tio, Mulei Abd al-Malik (Mulei Maluco), apoiado pelos turcos que dominavam Argel. D. Sebastião considerou o golpe o início de uma nova ofensiva turca no Mediterrâneo Ocidental e prometeu ajuda a Mulei Mafamede.

Preparativos da “jornada de África” Contra esta “jornada de África” manifestou-se a maioria dos conselheiros reais, bem como os vereadores da Câmara de Lisboa. O tio de D. Sebastião, Filipe II de Espanha, terá tentado dissuadi-lo quando ambos se encontraram em Guadalupe. Mas como o rei português insistiu no pedido de ajuda militar em homens e material, Filipe acabou por prometer-lhe auxílio. Em Junho de 1578 largou de Lisboa uma armada de mais de 900 navios, transportando um exército de 24 mil soldados, incluindo dois mil mercenários estrangeiros (espanhóis, alemães e italianos).

Os nobres embarcaram como se fossem para uma festa. Oliveira Martins contou que foram encontradas 10 mil guitarras no campo de batalha. O que sobrou no ‘panache’ faltou na organização de toda a operação militar. Falhou a logística para garantir uma linha de abastecimentos da costa para o interior do território; e falhou a coordenação entre a cavalaria, a infantaria e a artilharia.

Os portugueses chegaram a Tânger a 7 de Julho, e seguiram dali para Arzila, onde Mulei Mafamede tentou dissuadir D. Sebastião de continuar a empresa e onde chegaram informações de que Mulei Maluco estaria disponível para evitar o confronto. O rei de Portugal não se deixou convencer. O seu desejo era mesmo combater. A expedição iniciou a marcha pelo deserto, de Arzila para Larache, ao longo da costa, mas a certa altura mudou de direcção para Alcácer Quibir, no interior.

A Batalha dos Três Reis

Os portugueses estavam esgotados pela marcha, pelo calor e pela sede. A seis quilómetros a noroeste de Alcácer Quibir, no dia 4 de Agosto de 1578, encontraram as forças de Mulei Maluco: 40 mil homens, incluindo um poderoso contingente de cavalaria. A incapacidade de D. Sebastião para o comando revelou-se desastrosa. A falta de coordenação e de um plano de batalha permitiu ao inimigo desbaratar os portugueses que, apesar da inferioridade numérica, se bateram com grande bravura. Num momento em que os cristãos pareciam estar a levar de vencida os mouros, o sargento-mor Pedro Lopes lançou o grito “Ter! Ter!”, que quebrou o ímpeto do ataque.

Os aliados espanhóis foram massacrados depois da morte do seu comandante, capitão Aldana. No campo de batalha sucediam-se as ordens e contra-ordens. D. Sebastião combateu com grande valentia. Perdida a esperança de vitória, decidiu “morrer sim, mas devagar”. Mudou de cavalo três vezes, sempre a lutar. Viu cair a seu lado o duque de Aveiro, os condes da Vidigueira, do Redondo e de Vimioso, o barão de Alvito e os bispos de Coimbra e do Porto.

Segundo a lenda, o rei desapareceu quando abria caminho à espadeirada entre os inimigos. Mas a lenda é desmentida pela crónica: a Jornada del-Rei D. Sebastião às Partes de África descreve a sua morte a golpes na cabeça e na garganta, depois de um mouro velho chamado Lauby lhe ter dado um cutilada que lhe deitou abaixo a sobrancelha direita. O cadáver de D. Sebastião nunca foi encontrado.

D. Sebastião não foi o único monarca morto na “Batalha dos Três Reis”, como passou à História, em Marrocos, o desastre de Alcácer Quibir. Mulei Mafamede, o aliado dos portugueses, afogou-se no rio Mocazim quando fugia do combate. O chefe inimigo, Mulei Maluco, também morreu durante a batalha, provavelmente envenenado.

Mas dos três reis apenas D. Sebastião, desaparecido aos 24 anos, se tornou um mito. Sucedeu-lhe o tio-avô, cardeal D. Henrique. Em 1580, Portugal passou a ter um rei espanhol. Só reconquistou a independência 60 anos mais tarde.