Doutores a mais

Doutores a mais

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Aumento do número de emigrantes com curso superior segue em proporção com o número de novos licenciados. Europa insiste que quase metade dos portugueses têm de ter um curso superior. Seremos doutores em terra de agricultores.

Estará o leitor a par da celeuma da última semana sobre declarações alemãs sobre o número de licenciados em Portugal. Mas antes de irmos às palavras da chanceler Merkel, teremos de ser claros: sim, há licenciados a mais no nosso País. E pior: há licenciados mal formados.

No início de 2004 existiam cerca de 81 mil licenciados desempregados há mais de um ano, segundo dados do INE divulgados pelo Ministério da Economia.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística referiam-se ao terceiro trimestre do ano passado e apontavam para um aumento de 11 mil pessoas face ao mesmo período de 2012 e mais cinco mil pessoas face ao segundo trimestre.

Os números do boletim do emprego do Ministério da Economia mostravam “uma realidade bastante adversa para os diplomados no terceiro de trimestre de 2013”.

Neste período, o desemprego de longa duração total parecia “estar a dar a volta”. No entanto, o grupo dos licenciados não acompanhou a tendência geral, juntamente com os desempregados com o 3.º ciclo do ensino básico concluído.

Verificou-se uma melhoria no segundo trimestre, mas depois a situação começou a piorar, tendo-se atingido a segunda marca mais elevada de que há registo.

Já o estudo “Employment and Social Developments in Europe 2013”, elaborado por peritos da Direcção-Geral do Emprego da Comissão Europeia, que refere que “Portugal é dos países europeus com maior índice de sobre-qualificação no emprego”.

Mais qualificação no papel, mas menos conhecimento. Esta é a realidade que chega às empresas portuguesas. Os recém-licenciados, na sua maioria, não estão preparados nem têm as ferramentas adequadas para o mercado de trabalho. O Processo de Bolonha veio agravar essa realidade. “Licenciaturas-expresso” adquiridas em três anos e aumento de vagas para que as universidades possam beneficiar do dinheiro das propinas.

Nos cursos “mais a sério”, a exigência é que licenciatura e mestrado fiquem juntos; e os estudantes, nesses casos, têm de frequentar o ensino durante, pelo menos, cinco anos.

Mercado não procura licenciados

As políticas de ensino que quiseram acompanhar a realidade europeia deram asneira. Portugal tem especificidades diferentes. Somos um povo da agriculta e do mar, do turismo e das fábricas. E andamos a destruir tudo isso para sermos como os restantes países europeus. Somos diferentes.

Andámos a formar estudantes e a dar licenciaturas com um sonho de um país de doutores. Agora, esses doutores a quem foi dado um sonho partem em busca do mesmo, mas lá para fora.

Quase metade dos actuais estudantes universitários pondera emigrar e um em cada 13 portugueses com curso superior emigrou no longínquo ano de 2000, para um total de 90 mil emigrantes nesse ano.

Nada se fez nestes 14 anos para mudar a realidade. Aliás, insistiu-se no erro. Só a Eslováquia (14%) e a Irlanda (23%) nos ultrapassam em termos de fuga de cérebros para o estrangeiro, na União Europeia.

Mais. O número de licenciados desempregados a emigrar aumentou 49,5% entre 2009 e 2011. Um dado que tem relação directa com o número de licenciados em Portugal. É que Portugal contava em 2011 com mais de 1,2 milhões de (pelo menos) licenciados, um aumento de 588 mil no espaço de dez anos.

Ou seja, aumentámos o número de licenciados e na mesma proporção o número de emigrantes. Não vê quem não quer. E na Europa insistem para que tenhamos ainda mais licenciados.

Europa exige

De acordo com o gabinete oficial de estatísticas da União Europeia (UE) – Eurostat, 29,2% dos portugueses entre os 30 e os 34 anos eram licenciados em 2013, registando um aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior. O valor continua longe da média na Europa dos 28 (36,8%) e mais longe ainda da meta de 40% que Portugal teria de alcançar em 2020.

O objectivo de, em 2020, ter um Portugal um total de 40% da população entre os 30 e os 34 anos com formação superior traz à discussão outras questões. Desde logo, a empregabilidade e a adaptação da oferta por parte das instituições de ensino superior. A capacidade de escoamento do mercado de trabalho não é proporcional à quantidade de diplomados que todos os anos são lançados pelas instituições.

Nesse sentido, as universidades viram-se obrigadas a adaptar a sua oferta, diminuindo, em alguns casos drasticamente, o número de vagas disponíveis e contrariando a desejável tendência de aumento do número de pessoas com formação superior.

Mas quem olha só para números não quer saber disso. Fique a saber o leitor que a segunda fase de acesso ao Ensino Superior registou a admissão de 8.602 novos estudantes nas universidades e politécnicos, mas esta segunda fase de candidaturas deixou 70 cursos sem estudantes – a maior parte dos quais no ramo da Engenharia, que deixou 45 cursos vazios em todo o País. São cursos sem e para ninguém.

Merkel com razão

Com políticas educativas completamente alheadas da realidade, razão tem Angela Merkel – ainda que as palavras tenham sido inventadas pela comunicação social portuguesa.

Na semana passada, os portugueses foram bombardeados pelas alegadas afirmações da chanceler alemã. Houve mesmo um ministro – Nuno Crato – que respondeu às alegadas afirmações de Merkel. Todas as notícias citavam a agência Lusa e a Bloomberg. A Lusa referia a Bloomberg. Na Bloomberg, nem uma palavra sobre o assunto.

Uma procura mais intensa e lá se encontra o discurso da responsável alemã, que disse algo como: “Eu peço a todos vocês para tornarem claro nos vossos discursos em escolas e perante jovens: a formação profissional é um excelente pré-requisito para levar uma vida de prosperidade. Faremos tudo o que estiver no nosso poder.

Também a OCDE nos fornece muitos números úteis que afirmam que não é uma ‘descida’ social, que o filho ou a filha de um trabalhador qualificado complete uma formação como trabalhador qualificado novamente e, de seguida, se torne um bom técnico. Temos que abandonar a ideia de que o ensino superior é o Nonplusultra para uma carreira bem sucedida. De outra forma não poderemos provar a países como Espanha e Portugal, que têm demasiados licenciados e procuram hoje vias de formação profissional, que isso é bom”.

Ora, isto é muito diferente de “Merkel diz que Portugal tem demasiados licenciados”. Mas se o tivesse dito, desta vez, teria razão em relação ao nosso País.