Eurico Paes

Embaixador

Com a recente decisão de passar a maioria do capital social do BPI para as mãos do Caixabank da Catalunha, deu-se um passo decisivo para a entrega da maioria do negócio bancário português aos espanhóis.

Depois da compra do Banif pelo Santander e com a passagem do BPI para controlo espanhol, tornando assim possível a compra do Novo Banco pelo recapitalizado BPI, os nossos vizinhos vão passar a deter a maioria da banca portuguesa.

O que significará isto? Pois muito simplesmente significará que o investimento em Portugal ficará dependente de vontades espanholas. Sem investimento não há progresso e sem progresso as sociedades definham.

Mas será que os espanhóis querem que Portugal definhe? Não. O que os espanhóis querem, e nunca disso fizeram segredo, é que Portugal e as suas politicas erráticas não atrapalhem o normal desenvolvimento do seu país.

Já lá vai o tempo das conquistas territoriais, única forma de submeter os adversários e de lhes sugar o tutano. Num ambiente de união europeia, o que interessa mais hoje são os negócios e menos o controlo territorial.

Portugal já não corre o risco de desaparecer do mapa como ocorreu em 1580 e sobretudo em 1385. Poderemos continuar a festejar o 1º de Dezembro como data sine qua non da nossa independência, que “nuestros hermanos” não se importarão.

O que lhes interessa é aproveitar aquilo que Portugal tem de bom e que não consegue desenvolver. Aí eles darão uma ajuda. Mas como não há almoços grátis, as ajudas também se pagam. O que interessará então aos espanhóis controlar a banca em Portugal?

Sem o apoio dos bancos, o dinheiro necessário para fazer negócios não flui. E os grandes negócios precisam dos bancos para se financiarem. Os bancos concedem crédito, absorvem poupanças e prestam serviços, ou seja, fazem com que os países avancem e se desenvolvam ou, pelo contrário, recuem e estagnem.

Enquanto a crise bancária não estiver ultrapassada, não poderemos pensar em progressos. Mas uma vez ultrapassada a crise, os bancos surgirão de novo como os agentes materiais da almejada recuperação económica. E quem neles mandar será o líder dessa recuperação.

Por isso os comunistas, bloquistas e alguns socialistas querem que os bancos sejam nacionalizados para depois poderem continuar, através deles, a conduzir o país conforme os seus interesses.

Controlado o sector bancário em Portugal, os nossos amigos espanhóis poderão (e fá-lo-ão, não tenho duvidas disso) conduzir a recuperação de Portugal de acordo com o interesse deles.

E qual é o interesse da Espanha na recuperação de Portugal? Será sempre o de aproveitar aquilo que temos de bom em proveito deles. Por exemplo, o Cristiano Ronaldo. Esse só voltará a Portugal quando já não conseguir meter golos pela Espanha.

Mas não só de Cristianos Ronaldos, de Pauletas ou de Mourinhos vive Portugal. Portugal tem bom clima para o turismo, boas praias para os banhistas, castelos, palácios e aldeias históricas para mostrar aos estrangeiros, boa comida para dar a provar a quem aprecie e gente simpática e prestável com quem conviver.

Mas tudo isto e muito mais que Portugal tem, os espanhóis já sabem e também têm. O que eles não têm e querem ter é o Alqueva e Sines. O Alqueva significa regadio, turismo, campos de golf, desportos náuticos, imobiliário, etc. etc. Sines significa refinaria, porto atlântico de águas profundas e abertura para o mar numa altura em que se prepara o alargamento do canal do Panamá.

E para explorar e desenvolver estas infra-estruturas, que são portuguesas pois estão em Portugal, é preciso dinheiro e financiamento. E isso Portugal não tem. Mas a Espanha tem e consegue mais e melhor financiamento do que Portugal tem e consegue. Eis, a meu modesto ver, a razão pela qual os espanhóis quiseram ficar a controlar a nossa banca.

Ultrapassada esta fase depressiva, resultado da crise que ainda não foi completamente dominada, veremos o reaparecimento de consórcios espanhóis dispostos a retomarem as grandes obras lançadas por Sócrates com fundos comunitários destinados a Portugal.

Voltará o TGV para Madrid, a ligação ferroviária Sines- Hendaya, a auto-estrada ibérica ligando os Pirenéus ao Atlântico, o mercado ibérico da electricidade, outros mercados comuns ibéricos, intensificação da cooperação trans-fronteiriça com a eventual criação de entidades mistas luso-espanholas, reforço do financiamento à investigação científica, sobretudo no complexo luso-espanhol de Aveiro, etc..

Sempre com os bancos espanhóis por detrás, fiscalizando, decidindo, atrasando, adiantando, enfim, controlando os acontecimentos.

Tal como a Europa se germaniza, Portugal vai-se espanholizando.

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