Dividida em grupos, grupinhos e grupelhos, a esquerda caviar tenta disfarçar o seu extremismo para negociar um lugar num hipotético governo do PS de António Costa. Para isso une-se em “plataformas” e “assembleias cidadãs”, onde rivalizam divas e ‘pasionária’. Em jogo está a luta renhida por um emprego político… ou a simples atenção das televisões e dos jornais.

Já gostaram de ser chamados “esquerda radical”, mas hoje em dia, apesar de a palavra fazer parte, expressamente, do nome do seu grande mentor Syriza (em grego “Coligação da Esquerda Radical”), torcem o nariz a tudo quanto desmascare o seu extremismo aos olhos do eleitorado.

De facto, a designação mais objectiva é “extrema esquerda” – porém, apesar da justeza do epíteto, os comentadores políticos tendem a guardar o adjectivo para o pólo oposto do espectro político.

Ficamos assim reduzidos, por exclusão de partes, a utilizar um critério sociológico – e chamar-lhes qualquer coisa relacionada com o seu estilo de vida: esquerda caviar. Vieram quase todos do Bloco de Esquerda, por sua vez constituído por partidos e activistas maoístas, marxistas-leninistas, trotsquistas e comunistas ortodoxos.

Mas a saída de Francisco Louçã e sucessivos desaires eleitorais nos últimos anos levaram a dissidências e cisões que deixaram aquele partido e toda uma tendência política fragilizada.

E sobretudo vulnerável ao canto da sereia socialista, que António Costa tão bem sabe entoar, vejam-se as alianças e os apoios que conseguiu na Câmara de Lisboa.

No fim-de-semana passado, uma facção desse sector reuniu-se em Lisboa e decidiu apresentar-se às próximas eleições com uma “plataforma”, um programa e uma organização reunindo o partido Livre, o Forum Manifesto, a Coligação Democrática das Alternativas, o Manifesto 3D, o Movimento Intervenção e Cidadania, do Porto e a Refundação Comunista.

Chamam-se Tempo de Avançar e o seu objectivo é “combater a precaridade, desendividar as famílias, criar abertura na Europa para renegociar a dívida, e reconhecer a independência da Palestina logo no primeiro ano da legislatura”.

Fraccionar para unir

Workshop "Youth in crisis"Livre é o nome do partido do ex-eurodeputado Rui Tavares, eleito para o Parlamento Europeu na lista do Bloco de Esquerda. Em Estrasburgo, o colunista do matutino “Público” (propriedade do capitalista Belmiro de Azevedo) trocou rapidamente os camaradas do Bloco pela bancada dos Verdes, deslumbrado Dividida em grupos, grupinhos e grupelhos, a esquerda caviar tenta disfarçar o seu extremismo para negociar um lugar num hipotético governo do PS de António Costa.

Para isso une-se em “plataformas” e “assembleias cidadãs”, onde rivalizam divas e ‘pasionária’. Em jogo está a luta renhida por um emprego político… ou a simples atenção das televisões e dos jornais. pela proximidade da figura lendária de Daniel Cohn-Bendit, chefe do Maio de 68 parisiense.

Ora, apesar de a “contratação” de Tavares pelo PS estar escrita nas estrelas, o nosso ‘soixante-huitard’ serôdio decidiu fazer cara a sua adesão às hostes de António Costa – e fez um partido para “unir a esquerda”.

Curiosamente, o mesmo desiderato de “unir a esquerda” (sem dúvida estimável, no meio a que diz respeito) esteve na base criação de muitos outros movimentos e coligações – geralmente com os mesmos protagonistas -, como a Coligação Democrática das Alternativas, o Movimento Intervenção e Cidadania, o Manifesto 3D, onde pontifica a médica Isabel do Carmo, em tempos mais conhecida como líder do Partido Revolucionário do Proletariado-Brigadas Revolucionárias (PRP-BR), especializado em atentados bombistas e “acções de recuperação de fundos”, ou a Refundação Comunista (dissidentes do PCP).

É ainda o caso do Forum Manifesto, representativo de um vasto eleitorado que se reconhece no colunista do semanário “Expresso” Daniel Oliveira, mais conhecido como animador do programa “O Eixo do Mal”, na SIC Notícias (do mesmo patrão do “Expresso”), e na ex-deputada Ana Drago, que saiu do Bloco de Esquerda… para “unir a esquerda”.

Na companhia do filósofo, antigo dirigente ecologista e colunista do ‘Diário de Notícias’ Viriato Soromenho Marques estão agora na “plataforma” Tempo de Avançar.

Todos juntos, até ver…

Divas

Joana_Amaral_Dias_na_VI_Convenção_Nacional_do_Bloco_de_EsquerdaPois foi também precisamente para “unir a esquerda” que se reuniu, na semana anterior, outra facção dessa sensibilidade política, cujo rosto mais visível era, até poucos dias antes, a também antiga deputada bloquista – apoiante de Mário Soares na sua última aventura eleitoral, nas presidenciais em que ficou atrás de Manuel Alegre – Joana Amaral Dias.

A também comentadora televisiva e colunista na imprensa disputa a Ana Drago o título de diva da esquerda caviar, mas o seu esforço na luta pela tal unidade gorou-se ainda antes da realização da “Assembleia Nacional Cidadã” destinada a formalizar a organização “Juntos Podemos” (qualquer semelhança com a agremiação radical esquerdista espanhola não é mera coincidência).

É que Joana Amaral Dias e outro activista, o jornalista do ‘i’ Nuno Ramos de Almeida, abandonaram o grupo, apontando um dedo acusador ao MAS (Movimento Altenativa Socialista), de Gil Garcia, a quem acusam de tentar impor a sua hegemonia na organização.

Como já todos perceberam, o que faz correr os aspirantes a líderes da esquerda caviar é, em alguns casos, a tentativa de conseguirem ser “encaixados” num emprego político.

A outros, menos ambiciosos ou mais realistas, basta-lhes aparecerem nos jornais ou nas televisões, de modo a ultrapassarem a visibilidade limitada das redes sociais e continuarem a ser os mais conhecidos da rua onde moram ou do café que frequentam. Para tanto é, de facto, tempo de avançar a ver se juntos podem…

Concorrência feroz

Com efeito, a concorrência começa a ser grande, numa altura em que o partido que detém o alvará da esquerda caviar, o Bloco, pois claro, embandeira em arco numa euforia nunca vista, com a dirigente (actriz de profissão) Catarina Martins a pedir meças a Alexis Tsipras na festa da vitória eleitoral do Syriza, em Atenas, e a rivalizar com Pablo Iglesias na manifestação do Podemos, em Madrid.

Em Portugal, a dupla campanha eleitoral (para as legislativas e para as presidenciais) vai dar palco e tempo de antena a esta esquerda caviar. Logo a começar na definição do candidato “a sério” das esquerdas.

É que Guterres já está a pensar duas vezes, agora que tem uma búlgara a morder-lhe as canelas na corrida à ONU; António Vitorino parece que já quer mas a esquerda do PS não o quer; Ana Gomes lança Maria de Belém; Nóvoa some-se cada vez mais como um D. Sebastião no meio da névoa…

Perante este cenário, o ‘Público’ revela-nos o grande medo da nova ‘pasionaria’ do PS de António Costa, Graça Fonseca: a extrema-direita…

  • Durruti

    Os dirigentes desses partidos são uns oportunistas mas a conclusão de que a extrema-direita é inofensiva e vitima de perseguição é ridícula, só faltava dizer que os partidos de extrema-esquerda são financiados por judeus para revelar a ideologia da pessoa que escreveu isto.