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António Costa com falinhas mansas e a extrema-esquerda aos gritos preparam-se para, juntos ou à vez, fazerem a vida negra ao novo Governo PSD/CDS.

À hora de fecho desta edição, inúmeros dirigentes socialistas procuravam ainda, desesperadamente, nas farmácias das imediações do Largo do Rato, em Lisboa, pastilhas Rennie e saquetas de Eno que os ajudassem a digerir os resultados eleitorais de Domingo. Mas, por mais bicarbonato de sódio que ingerissem, a azia não passava. Uma derrota em toda a linha pôs fim ao “passeio triunfal” de António Costa pela alameda da glória política, deixando o PS nas ruas da amargura.

Na noite da contagem dos votos, trancado no 13º andar de um hotel, rodeado do seu estado-maior, o líder socialista demorou longas horas a aparecer para reconhecer a amarga evidência. Quando o fez, suando em bica, ligeiramente engasgado, desfez as esperanças dos seus camaradas mais extremistas que ainda esperavam o anúncio de uma impossível aliança parlamentar com comunistas e bloquistas; mas avisou claramente a coligação vitoriosa de que venderá cara a pele no hemiciclo de São Bento.

Enquanto falou, um magote de militantes socialistas transformou a conferência de imprensa da derrota num comício esfuziante de ‘slogans’ e bandeiras. Mas logo que se apagaram os holofotes das televisões, os rostos duros e fechados, os olhares macambúzios e os braços caídos em desânimo voltaram a ser a imagem de um PS inconsolável.

O quadro ficou claro: António Costa, comprometido com o fraco resultado obtido nas urnas, não se atreve a bloquear frontalmente a coligação vencedora; mas prepara-se para fazer-lhe a vida negra, contando para isso com a ajuda do ruidoso coro da esquerda radical no Parlamento. E, tentando fazer esquecer a ameaça, que fizera durante a campanha, de inviabilizar o próximo Orçamento do Estado, embrenhou-se em “poréns” e “todavias” que fazem prever uma táctica de guerrilha em São Bento para os próximos anos – ou meses, se a extrema-esquerda acabar por levar o PS a uma crise política que implique eleições antecipadas.

Oposição interna

O que António Costa não quis ainda fazer foi a leitura comparada dos resultados eleitorais dos socialistas nos últimos sufrágios. António Costa com falinhas mansas e a extrema-esquerda aos gritos preparam-se para, juntos ou à vez, fazerem a vida negra ao novo Governo PSD/CDS. Depois de ter atirado António José Seguro pela borda fora, a pretexto de uma liderança que sabia a “poucochinho”, não se ouviu ainda a sua explicação para o facto de ter agora obtido resultados praticamente iguais. Mas não perderá pela demora.

Na própria noite da contagem dos votos a oposição interna reclamava a cabeça de António Costa numa bandeja. “Manifestamente, não me vou demitir”, declarou o líder do PS. Mas a verdade é que esse capítulo não se encontra ainda encerrado, nem depende unicamente da sua vontade.

Hoje mesmo, terça-feira, a Comissão Política do PS reúne-se pela primeira vez desde o acto eleitoral – e não deixará de analisar a questão. E a Comissão Nacional, onde os adeptos de Seguro garantiram alguma presença, terá também uma palavra a dizer. A possibilidade de realização de um Congresso extraordinário, referida por alguns dirigentes socialistas, não se encontra totalmente afastada.

Em torno de Costa, de todo o modo, o discurso radical e extremista mantém o tom. Depois de ter esperado com arrogância obter uma maioria absoluta, depois de ter-se contentado com uma maioria simples, o PS acabou derrotado. Mas as “interpretações” correntes na direcção socialista preferem sublinhar que a coligação de centro-direita “perdeu”. Que esta “derrota” se tenha traduzido numa vitória por alguns pontos percentuais, após quatro anos de austeridade impopular – é algo que lhes escapa.

Gritos e bloqueio

A “grande derrota da direita” enche ainda a boca dos dirigentes da extrema-esquerda. Quem não conhecesse os resultados eleitorais e os ouvisse falar, pensaria que o PCP e o Bloco de Esquerda tinham obtido, por junto, 90 por cento dos votos expressos – e não os cerca de 36 com que tiveram de contentar-se: 19 para o Bloco e 17 para os comunistas, tendo beneficiado da insatisfação do eleitorado radical perante um PS ziguezagueante. Este resultado, insólito numa Europa moderada, reflecte ainda preconceitos esquerdistas comuns a alguns países do Sul, que teve no PREC português o seu expoente máximo e continua a contar com fortes apoios numa imprensa seguidista.

Igual a si mesmo, o Partido Comunista ignorou olimpicamente o péssimo resultado nas urnas: não só perdeu votos como ficou atrás do Bloco de Esquerda. Mas Jerónimo de Sousa, impassível, congratulou-se com a “expressiva vitória da esquerda” e anunciou que inviabilizará no Parlamento qualquer programa da coligação realmente vitoriosa.

A mesma jura foi feita por Catarina Martins, porta-voz do Bloco de Esquerda: continuarão os gritos no hemiciclo, a agitação nas ruas e o bloqueio sistemático de qualquer tentativa de reforma estrutural.

Parecendo afastada a hipótese de uma aliança parlamentar formal com o PS, a extrema-esquerda aceitará de bom grado o seu papel agitador, fazendo aquilo que António Costa não poderia fazer sem perder a compostura de “homem de Estado”.

Pequenos

Grandes derrotados nestas eleições são também os minúsculos partidos radicais de esquerda que, num momento de insânia, chegaram a sonhar com resultados “à grega”. Rui Tavares, o ex-eurodeputado do Bloco de Esquerda que anda há anos a tentar encontrar o seu lugar ao sol, falhou mais uma vez e terá de manter-se no futuro próximo como “comentador” da glória alheia.

Por seu turno, as insignificantes formações populistas, que tudo apostaram no discurso nihilista, viram também desfeita a ambição de se sentarem em São Bento. O advogado António e Sousa e Marinho e Pinto, líder do Partido e Democrático e Republicano, saiu desta eleição com um resultado irrisório e zero mandatos – mas não terá de bater à porta do Centro de Emprego, pois, como previamente anunciara, continuará agarrado ao seu lugar de eurodeputado em Estrasburgo. Ainda assim, falando à hora de votar como se não andasse ao mesmo, zurziu “os políticos e os agentes políticos” que “não têm actuado em benefício do povo, não têm actuado de modo a motivar o povo”. E como o povo lhe deu razão nas urnas!

Dos pequenos partidos, o único que conseguiu fazer eleger um deputado foi o PAN (Pessoas-Animais-Natureza).

Por fim, o grande derrotado-por-procuração deste acto eleitoral, o antigo líder socialista José Sócrates, teve direito aos seus dois minutos de holofotes quando foi votar. Mas foi obrigado logo depois a voltar à prisão domiciliária a que a Justiça o confinou, prometendo aos jornalistas que “mais tarde terei tempo para falar convosco”.

O certo é que, nas urnas, o povo já lhe disse o que tinha para lhe dizer…

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