Screen Shot 2015-06-29 at 17.22.11PEDRO SOARES MARTÍNEZ

Os Gregos estão inocentes. E os Portugueses também. Uns e outros foram induzidos em erro, na voragem messiânica de alguns mitos e no pressuposto de que, juntando-se aos outros europeus tidos por ricos, e mostrando-se obedientes às respectivas directrizes, ricos ficariam também, a breve trecho, e logo prontamente se sacudiriam de todas as misérias passadas.

Se os povos tivessem o hábito de ler as fábulas tradicionais, e de recordá-las, talvez se tivessem lembrado da forma pela qual a astuciosa raposa se apoderou do queijo que o corvo conservava no bico.

Também saberiam que as nações podem esperar umas das outras excelentes e equitativos acordos, mas não ofertas sem contrapartida, que seriam injustas, pelos malefícios causados a outras comunidades. Em vez disso, ganharam os povos o hábito de soletrar maus escritos económicos, traduzidos em calão, sem poderem conhecer as razões pelas quais os grandes centros de investigação económica, pletóricos de saber acumulado, falham sistematicamente nas previsões das grandes crises económicas, cuja etiologia situam na vala comum dos fenómenos telúricos, pelos quais ninguém pode razoavelmente ser responsabilizado.

Por vezes, quando o saber se circunscreve às técnicas, as quebras culturais são supridas pelo apuramento do bom senso popular; mas até esse bom senso é obnubilado, através do alarido de uma difusão muito ampla e muito rápida de notícias, passadas ao crivo de discretas mas muito eficientes censuras, destinadas a implantar nos espíritos o que é julgado politicamente correcto. E quando até o bom senso popular se perde, ou se confunde, são fatais os desastres colectivos.

2. O paralelo estabelecido entre Gregos e Portugueses respeitará apenas à inocência dos dois povos, em relação às actuais dificuldades e aos enredos que os envolveram e se acham na origem dessas dificuldades. Mas são muitas as diferenças, a reconhecer e a estabelecer, entre Gregos e Portugueses. As de maior relevo, embora possivelmente ignoradas, tanto na ONU como em Bruxelas, respeitam à etnia e à História.

A Grécia actual, apenas pela geografia e pela beleza da paisagem se ligando às cidades gregas da Antiguidade, seguiu, desde a segunda metade do século XV, a sorte das regiões balcânicas, submetidas aos otomanos, alcançou a independência formal sob protecções ocidentais, no século XIX, constituiu-se como reino sob a coroa de um príncipe alemão, da casa de Siegmaringen, teve uma corte estrangeira, sofreu ocupações diversas no decurso das duas grandes guerras e, nas incertezas das repartições do após Segunda Guerra, foi disputada por russos e norte-americanos, donde resultou uma sangrenta guerra civil. Parece duvidoso que, entretanto, sujeita aos vai vens da política partidária e das pressões alheias, a comunidade grega tenha alcançado o necessário equilíbrio.

Assim, não obstante o paralelo esboçado e mais alguns, que poderiam traçar-se, não serão duvidosas as diferenças entre Portugal e a Grécia, ao menos para quem se recorde ainda do passado português, na base de uma indiscutível individualidade própria, remota, continuada, cuja afirmação aos Portugueses exclusivamente se poderá atribuir. Daí resultarão também particulares responsabilidades que a comunidade portuguesa terá de assumir, face a todas as dificuldades, com legítimo orgulho dessa individualidade própria, que a nós mesmos devemos.

3. Abstraindo agora aqui de qualquer projecto de unificação política, uma unidade económica da Europa havia de pressupor uma completa conversão das economias, de tal modo que cada ramo de produção coubesse apenas aos países para essa produção melhor habilitados, cada um dos quais havia de renunciar, a um ritmo mais ou menos acentuado, às produções para as quais fosse menos habilitado. E de tal esquema geral havia a esperar, realmente, um melhor equilíbrio económico e um maior rendimento global. Sem quebra dos princípios acumulados por todas as teorias da divisão do trabalho, da produção, do comércio e do comércio internacional, já reflectidas no tratado de comércio celebrado, em 1703, entre Portugal e a Inglaterra.

Aconteceu, porém, no esboço de economia unitária europeia do século XX, que, compreensivelmente, as potências mais industrializadas, melhor preparadas, tanto a nível da produção como ao da comercialização, sem esquecer a publicidade, actual e acumulada, procuraram manter as actividades em todos, ou quase todos, os sectores por elas antes desenvolvidos. E já isso levava a imprensa grega a extremos de indignação quando apurou, designadamente, que a carne de porco proveniente da Alemanha se vendia em Atenas a preços inferiores aos da grega. Acresce que os subsídios de Bruxelas têm sido concedidos e repartidos em termos tão lamentáveis, do ponto de vista da produção como do ponto de vista da reconversão das economias, que se torna difícil admitir que as falhas detectadas possam atribuir-se apenas a erros de Bruxelas e das capitais que recebem e repartem os referidos subsídios.

Também as directrizes comunitárias, dominadas por critérios próprios de outras latitudes, nem sempre se ajustam às características da economia da Grécia e de outras economias da orla mediterrânica. Em suma, a integração económica europeia, que parece ter visado, sobretudo, fins políticos, e interesses norte-americanos, suscita, nos mais diversos países, múltiplas dúvidas, não se excluindo que causas semelhantes às da extinção, anos atrás, da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) venham a provocar o colapso da economia europeia, cuja gravidade de efeitos se não deveria também deixar de ponderar, tendo exclusivamente em vista o bem comum dos povos envolvidos, e não outros quaisquer interesses.

4. Os Gregos, conforme outros integrados na Europa, embora tendo já acumulado muitas desilusões quanto aos benefícios económicos da integração, foram arrastados para elevações de consumo não integralmente cobertas pelos acréscimos de rendimentos. E daí só poderia advir, em alternativa ou cumulativamente, uma acentuada descapitalização e um brutal endividamento, que, em certo sentido, também corresponde a uma descapitalização. E os credores, não divergindo dos exemplos clássicos e permanentes da agiotagem, nem regatearam os quantitativos dos capitais oferecidos, enquanto os juros pareceram compensatórios e as garantias de reembolso seguras.

O crédito grego parecia ilimitado e, em consequência, a dívida foi crescendo, até ultrapassar os limites de percentagens convencionadas, em termos, aliás, de alguma arbitrariedade. É de crer que muitos tenham sido, na Grécia, os beneficiados pela aparente generosidade dos prestamistas. E, em termos globais, sem excluir múltiplos maus empregos, desvios do interesse comum, utilizações exibicionistas, investimentos despropositados, injustiças de repartições, facilmente se admitirá que toda a comunidade grega, que os Gregos, em geral, alguns benefícios colheram das dívidas contraídas.

Não obstante, continua a parecer-me que os Gregos estão inocentes. E os Portugueses também. Estaremos em face de mais alguns trágicos fenómenos telúricos, alheios às condutas humanas? Suponho que não. Alguns deverão ser responsabilizados pela actual situação grega; e por outras semelhantes.

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