“Intelectuais” de Costa pagos a peso de ouro pela Câmara de Lisboa

“Intelectuais” de Costa pagos a peso de ouro pela Câmara de Lisboa

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Inicialmente publicado a 15 de Julho de 2014

O DIABO foi ver quem são os signatários da “Cultura” que apoiam o adversário de Seguro nas primárias do PS. E encontrou desde amigos a funcionários da Autarquia, passando por “artistas” que levaram milhares da Câmara em concursos ou ajustes directos…

Dirão uns que é coincidência, outros que o gosto pelo trabalho de António Costa é tanto que merece apoio e reconhecimento público. Mas ninguém pode negar que muitos dos “intelectuais” que agora surgem a apoiar o ainda edil da capital da Nação já ganharam muito dinheiro à conta da autarquia lisboeta.

É, no mínimo, estranho. Quiçá caricato. Mas, da lista de signatários de uma petição de apoio “da Cultura” a António Costa, quase todos têm ou tiveram ligação à Câmara Municipal de Lisboa. O que não invalida ainda o ridículo de uma “classe” que sai a terreiro para apoiar um dos contendores numa guerra de facções num partido político.

Da música às artes plásticas, da literatura ao cinema, são muitos os nomes que assinam um manifesto de apoio a António Costa, que foi apresentado na semana passada, em Lisboa, numa sessão em que o próprio candidato à liderança do PS esteve presente.

“A Cultura apoia António Costa” é o título do manifesto, que conta com mais de 600 assinaturas, entre os quais figuram por exemplo o fadista Carlos do Carmo, a escritora Lídia Jorge e o musicólogo e ex-secretário de Estado Rui Vieira Nery.

Apesar de ter sido lançado há duas semanas, o manifesto que vê em António Costa a solução para o País só na semana passada começou a ganhar visibilidade, depois de estarem reunidas já cerca de 600 assinaturas. Mais do que apoiar a candidatura do actual presidente da Câmara de Lisboa ao lugar de secretário-geral do PS, este manifesto defende que António Costa deve ser o próximo primeiro-ministro.

“É nosso dever encontrar uma alternativa política”, fez saber, em declarações ao jornal “Público”, o musicólogo Rui Vieira Nery. Que explicou: “Este manifesto surge da constatação da política de terra queimada que tem sido levada a cabo por este Governo no âmbito da Cultura”. “Os agentes culturais estão muito preocupados com a situação actual e querem chamar a atenção para a necessidade de um projecto de política alternativa que de facto ponha Cultura no centro”, continua Vieira Nery, para quem António Costa é a resposta.

Fado ajuda Costa

A pergunta que o leitor estará a fazer será: “Mas como é que Vieira Nery sabe que Costa é a solução?”. Pergunta válida com uma resposta que não pode ignorar uma viagem de sete dias a Bali, no âmbito da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Foram 11.429,94 euros gastos pela EGEAC – Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultura. Uma empresa, obviamente, municipal. Nesta viagem seguiram ainda Sara Pereira, que é somente a presidente do Museu do Fado (também ela signatária do dito manifesto) e Miguel Honrado, director da EGEAC, a empresa municipal que gere os equipamentos culturais de Lisboa – e também ele, por coincidência, signatário da referida petição.

Vieira Nery e Sara Pereira fizeram ambos parte Comissão Científica da candidatura do Fado à Lista do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO. E disso não há dúvidas. Até porque Rui Fernando Vieira Nery recebeu da empresa municipal cerca de 25 mil euros para a “realização de estudos científicos e textos para um conjunto de nove livros/publicações no quadro do programa de Edições do Plano de Salvaguarda da candidatura do Fado”. Dados que podem ser consultados na internet, no ‘site’ dos ajustes directos.

Se falamos de Fado, falemos de Camané, outro dos assinantes do manifesto. No ‘site’ de contratos públicos pode ver-se que a autarquia lisboeta gastou mais de 54 mil euros em eventos relacionados – directa ou indirectamente – com o artista. Desde uma “apresentação ao público”, no CCB, de um espectáculo de Camané no âmbito da programação ‘Há Fado no Cais’, passando por uma “actuação de Camané / Candidatura do Fado / Museu do Fado / Paris” ou a uma “participação do artista Camané no espectáculo de encerramento das Festas de Lisboa 2011”, terminando – por mero exemplo – com uma “execução do projecto museográfico da exposição Camané no Museu do Fado”.

Tudo bons motivos para considerar António Costa o bom exemplo de governante e para apoiar uma candidatura a primeiro-ministro em defesa da Cultura.

Arquitectos e funcionários

Mas no lote de “intelectuais” que apoiam António Costa encontram-se profissionais que nada tem que ver com o Fado ou com a música em geral. O arquitecto Carrilho da Graça também é um dos que assina o manifesto.

Curiosamente, e por mera casualidade, a Câmara Municipal de Lisboa escolheu em 2010 o terminal de Santa Apolónia projectado precisamente por Carrilho da Graça. No final de 2013, o arquitecto apresentou na Fundação Saramago, na Casa dos Bicos, o plano de requalificação do Campo das Cebolas, em Lisboa. Simplesmente porque foi o grande vencedor do concurso para a requalificação do envolvente à Casa dos Bicos e a praça adjacente, satisfazendo ainda o pedido do caderno de encargos de apresentar soluções de estacionamento e um parque infantil.

Já este ano, foi inaugurada na Galeria Municipal da Boavista uma exposição do fotógrafo Hisao Suzuki sobre a obra do arquitecto João Luís Carrilho da Graça. A mostra abriu a 2.ª Temporada de Arquitectura, organizada pela Note com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e da Ordem dos Arquitectos.

Mas há mais quem assine o manifesto. Olhemos para Aida Tavares. Chegou à EGEAC em 2002 para trabalhar no São Luiz (Teatro Municipal). Há quatro anos chegou à direcção geral do Teatro (Administração e Direcção Artística) e no ano seguinte, em 2011, passou a ser Gestora e Adjunta da Direcção Artística. Também ela é signatária. Mas da EGEAC há mais quem apoie o agora candidato às primárias do Partido Socialista, como é o caso e exemplo da vogal Lucinda Lopes.

Se falamos de Teatro São Luiz, abordemos outro dos assinantes de apoio ao autarca de Lisboa para líder do PS: Nuno Artur Silva, o director das “Produções Fictícias” que recebeu 8.000 euros pela “co-produção e apresentação ao público do projecto intitulado O Fim da Crise – Desconferências do São Luiz”.

Amigos e conhecidos

Na lista de apoiantes não estão só funcionários das empresas municipais. Delfim Sardo também assina por baixo na hora de considerar António Costa o homem certo para o Partido Socialista e até para o País. Este “intelectual” foi em 2013 privilegiado com o papel de curador da Rota da Arte do Lisbon Week, uma co-produção da Câmara Municipal de Lisboa.

Mas há outros homens da Cultura. António Pedro Vasconcelos é um apoiante de António Costa e não o esconde. Em dia de eleições autárquicas, o realizador esteve no Hotel Altis a dar apoio ao amigo, e também ele assinou a petição.

Isabel Côrte-Real é outro dos “intelectuais” que fazem coro em prol do adversário de António José Seguro. Côrte-Real é um dos nomes próximos da autarquia lisboeta e até fez parte da comissão de análise do 2.º concurso de Ateliês Municipais, no ano passado.

Mega Ferreira também é um dos nomes fortes que aparece associado a esta petição “da Cultura”. O jornalista e escritor, cuja contratação por 19 mil euros gerou polémica em 2012, concluiu no final do ano a sua proposta para os museus. Mas a versão final do documento tardou, e muito, em sair do gabinete da vereadora Catarina Vaz Pinto – sim, também ela assinou o manifesto.

São mais de 600 signatários, estes são só alguns dos exemplos que encabeçam a lista. A ligação à Câmara Municipal de Lisboa é mais que evidente. Esquecem estes “intelectuais” que Costa não poderá governar Portugal com o programa eleitoral de Lisboa. Esquecem-se porque, para muitos, Portugal resume-se à capital e aos subsídios que ela jorra. O resto é paisagem…

Ideia pouco original

Que se desengane quem pensa que é original esta ideia de juntar umas quantas pessoas que fazem da Cultura profissão para assinar um manifesto. A escritora Lídia Jorge, que já em 2009 tinha assinado um manifesto semelhante de apoio à candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa, acredita que a forma como este “tem gerido os espaços culturais em Lisboa dá a ideia de que tem tido sensibilidade e tem compreendido que é necessário dinamizar determinadas áreas”.

“Convém que, à frente do País, esteja alguém que tenha dado provas também no sector cultural, é preciso ter essa sensibilidade”, diz a escritora, explicando que Costa “tem dado provas que é capaz de apoiar segmentos da cultura clássica mas ao mesmo também da cultura popular”. “É um trabalhador para causa pública, tem dado tantas provas disso, que no meio de tantas incógnitas eu aposto nele”, continua Lídia Jorge, para quem Costa “é capaz de dar um murro na mesa sem histeria, é suficientemente racional e equilibrado para inverter o rumo das coisas”.

Entre as personalidades que assinam o manifesto estão também:

  • Alexandre Melo (ex-assessor de José Sócrates)
  • Alice Vieira (escritora)
  • Ana Zanatti (actriz)
  • António Vitorino de Almeida (maestro)
  • Beatriz Batarda (actriz)
  • Catarina Portas (empresária)
  • Diogo Infante (actor)
  • Eduardo Gageiro (fotógrafo)
  • Fernando Tordo (músico)
  • Gisela João (fadista)
  • Henrique Cayatte (designer)
  • João Botelho (realizador)
  • João Canijo (realizador)
  • João Cutileiro (escultor).
  • João Melo (escritor)
  • Jorge Molder (artista plástico)
  • José Manuel dos Santos (escritor, ex-assessor de Mário Soares e de Jorge Sampaio)
  • Julião Sarmento (artista plástico)
  • Júlio Pomar (pintor)
  • Luís Represas (músico)
  • Manuel João Vieira (música)
  • Manuel Graça Dias (arquitecto)
  • Mísia (cantora)
  • Pedro Tamen (escritor)
  • Paco Bandeira (músico)
  • Rui Zink (escritor)
  • Tomás Taveira (arquitecto)
  • Vitorino (músico)
  • Xana Nunes (antiga modelo).

Carlos Mendes: “Está tudo louco”

Há entre os artistas quem se mostre preocupado com a politização da Cultura. É o caso do cantor, compositor e actor Carlos Mendes.

“Está tudo louco. Uma petição pública para o António Costa ser líder do PS e primeiro-ministro. Ao que isto chegou…”, desabafou o artista na própria página da petição, através da sua conta do Facebook.

“Tenho admiração e respeito por António Costa, mas nada tenho a ver com o PS e os seus problemas. Por absurdo, qualquer dia estamos a fazer uma petição para que o Marques Mendes ou outro qualquer seja líder do PSD e primeiro-ministro.

Ou porque não uma petição para que o Louçã volte a ser líder do BE e primeiro-ministro ou ainda uma petição para que Bernardino Soares seja líder do PC e primeiro-ministro deste País? E, já agora, porque é que a Cultura apoia António Costa?”, interroga-se Carlos Mendes que deixa ainda a pertinente pergunta: “o que é isso da cultura?”.

A crítica é feroz e ataca directamente os homens e mulheres que deram o nome e cara por António Costa.

“E já agora a título de curiosidade, o que é que o Costa disse que seja assim tão diferente do que diz e sempre disse o PS? Que estranha comunhão de apoio ao António Costa com gente tão diversificada, desde a Direita à Esquerda… Pessoalmente duvido destes consensos… O que levou estes homens e mulheres ‘da Cultura’ a comprometerem-se assim com António Costa? Ou será que não pensaram que estão a dar o seu apoio em definitivo a alguém que ainda nada disse sobre o que irá fazer se for primeiro-ministro? Cheques em branco? Não obrigado”, dispara.

Carlos Mendes deixa ainda o desafio ao socialista: “António Costa define-te melhor, expõe as tuas ideias quanto ao futuro do meu País e aí, se concordar com elas, dar-te-ei o meu apoio”.

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