Mais mentiras do comunismo

Mais mentiras do comunismo

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“Os 'Protocolos' não são proféticos (...) vão sendo actualizadas à medida do tempo que passa”, diz o 'Avante!'

A semana passada, O DIABO expôs aos leitores a reescrita da História por parte do órgão central do PCP, que apresentou a tenebrosa ditadura da ex-Alemanha Oriental como um conjunto de “notáveis realizações de 40 anos de poder dos trabalhadores”. Mas não é de agora que o ‘Avante!’ troca os factos por mistificações ideológicas. Ainda não há muito, o semanário comunista citava, como se de uma fonte legítima se tratasse, a célebre falsificação anti-semita ‘Protocolos dos Sábios de Sião’.

O texto ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’ foi forjado segundo instruções rigorosas de Piotr Rachkovsky, chefe da Okhrana, a polícia secreta da Rússia czarista, em Paris, nos últimos anos do século XIX. Rachkovsky era responsável pela vigilância dos emigrados políticos russos na capital francesa e andava preocupado com o que lhe parecia ser a influência de alguns nobres liberais na corte do imperador Nicolau II. O chefe da polícia achava que essa influência se devia a manobras dos judeus e, por isso, encarregou os seus espiões infiltrados nos meios anti-semitas franceses de escreverem um texto destinado a revelar a existência de uma conspiração judaica para conquistar o poder em todo o mundo. O facto de, precisamente na mesma altura, Theodor Herzl, defensor da criação de um Estado judaico, estar a organizar o I Congresso Sionista, em Basileia, na Suíça, era tudo menos coincidência.

Os autores

O panfleto que viria a ser conhecido como ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’ foi escrito em Paris, entre 1897 e 1903, por um agente da Okhrana, ao que tudo indica Matvei Golovinski, com a participação do próprio Rachkovsky. Em Agosto e Setembro de 1903, o texto foi publicado, anonimamente, no jornal ‘A Bandeira’, uma obscura folha ultra-nacionalista de S. Petersburgo.

Trazia no cabeçalho: “Programa para a conquista do mundo pelos judeus” e, como título, “Protocolos das Sessões da Aliança Mundial dos Maçons e dos Sábios de Sião”. Na altura, praticamente ninguém deu por ele.

Dois anos mais tarde voltou a ser editado, desta vez em apêndice a um livro com um título estranho, ‘O Grandioso no Ínfimo: A Vinda do Anticristo e o Domínio de Satanás’, do russo Sergei Nilus. Foi apresentado como a transcrição de reuniões secretas de dirigentes judeus e maçónicos reunidos em Basileia, na Suíça – a mesma cidade que foi palco dos congressos sionistas entre 1897 e 1903.

Estão ali todos os estereótipos do judeu: rico, avarento, traiçoeiro. O ‘road map’ para a conquista do poder apontava para o domínio da economia mundial através dos banqueiros judeus, a influência sobre a opinião pública por meio da imprensa (nas mãos de patrões de jornais, também judeus), a conquista de força política através de vitórias eleitorais mais ou menos fraudulentas graças ao financiamento dos partidos por capitalistas judeus ou por meio de revoluções encomendadas pelos mesmos e a dissolução da moral, resultado da dissolução dos costumes incentivada pela literatura e pelas artes – tudo nas mãos de judeus.

Difusão mundial

O título foi mudando até se fixar no definitivo ‘Os Protocolos dos Sábios de Sião’, já como publicação autónoma. Sucederam-se as edições na Rússia, então palco de ‘pogroms’ tolerados (quando não incentivados) pelas autoridades czaristas. A revolução comunista de 1917 ampliou a audiência da obra. A tomada do poder pelos bolchevistas, seguidores do judeu Karl Marx, parecia confirmar que a estratégia dos ‘Protocolos’ estava a ser seguida à risca: Trotsky, chefe do Exército Vermelho, era judeu, tal como Zinoviev, o líder da Internacional Comunista.

Pouco depois, em 1919, estalava outra revolução vermelha, desta vez em Berlim, tendo à frente a judia Rosa Luxemburgo. No mesmo ano, o judeu Bela Kuhn punha a Hungria a ferro e fogo, chegando a ocupar o poder durante alguns meses em Budapeste.

Sucederam-se as traduções em alemão, francês, inglês, espanhol, português e árabe. Um grande entusiasta dos ‘Protocolos’ na América foi Henry Ford, que financiou a edição de meio milhão de exemplares.

Fraude desmascarada

Em 1921, o repórter inglês Lucien Wolf, do ‘Times’ de Londres, descobriu que muitas passagens dos ‘Protocolos’ copiavam, quase palavra por palavra, um capítulo do romance ‘Biarritz’, publicado em 1868 pelo alemão Hermann Goetsche, antigo informador da polícia prussiana. Nesse capítulo, intitulado “O Cemitério Judeu de Praga e o Conselho dos Representantes das Doze Tribos de Israel”, conta-se um encontro nocturno, naquele famoso cemitério checo, entre vários rabinos e o próprio diabo. A ideia já não era nova: o livro de Goetsche baseava-se no conhecido romance ‘O Colar da Rainha’, de Alexandre Dumas.

Na mesma altura, o correspondente do ‘Times’ em Constantinopla (hoje Istambul), Philip Graves, estabeleceu contacto com um antigo agitador anti-semita russo que se apresentou como “uma das fontes” dos ‘Protocolos’. Este revelou o plágio, por parte dos autores do texto, de extensos trechos da obra de um opositor do imperador francês Napoleão III, Maurice Joly: ‘Diálogo nos Infernos entre Maquiavel e Montesquieu’, publicada muito antes, em 1864. Mas nem o livro de Joly era original: plagiava Os Mistérios de Paris, de Eugène Sue.

Mesmo depois de desmascarada a fraude, gerações de anti-semitas continuaram a fazer fé em Os Protocolos dos Sábios de Sião. O livro teve um papel preponderante na preparação da opinião pública alemã para a aceitação das perseguições e do Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial.

Na actualidade, os ‘Protocolos’ são utilizados como argumento por vários países árabes, no conflito que os opõe a Israel. O antigo presidente egípcio Nasser citava-os e, hoje em dia, continuam a ser referidos nos estatutos do movimento radical palestiniano Hamas e em manuais escolares da Arábia Saudita. No Irão, as reedições têm-se sucedido desde a instauração do regime dos ayatollahs, que fez questão de ter exemplares à venda no pavilhão persa da Feira do Livro de Frankfurt de 2005.

Uma mentira muito pouco verdadeira

Apesar de o escritor Umberto Eco ter lançado em 2010 ‘O Cemitério de Praga’, uma sátira à elaboração dos ‘Protocolos’ que se transformou num ‘best-seller’ internacional, incluindo em Portugal, foi precisamente no nosso país que, 90 anos depois de comprovada a fraude, o jornal do Partido Comunista voltou a ressuscitá-la, tentando vendê-la como uma obra genuína.

Na sua edição de 27 de Outubro de 2011, o ‘Avante!’ publicava um artigo que, além de citar os ‘Protocolos’, os justificava: “Tudo poderia ser pura imaginação não fosse o caso do enunciado teórico dos ‘Protocolos’ ser acompanhado por uma listagem de objectivos a curto e médio prazos: um governo mundial oculto que promova uma Nova Ordem mundial; um único sistema económico, financeiro e monetário, de obediência universal”.

Mais palavras para quê? Está tudo no órgão central… da teoria da conspiração.

O que diz o 'Avante!'

capacomunasO artigo intitulado “A máquina da morte e a utopia” foi publicado no ‘Avante!’ de 27 de Outubro de 2011, assinado por Jorge Messias (http://www.avante.pt/pt/1978/argumentos/116792/).

Depois de alinhar, em epígrafe, citações de Engels, dos próprios ‘Protocolos’ e do Papa Bento XVI, o órgão central dos comunistas afunda-se numa prosa que faz lembrar algumas das teorias da conspiração mais primárias.

Com uma diferença, porém. Apresenta uma fraude policiesco-literária – de consequências sangrentas, como os ‘pogroms’ russos e o Holocausto mostraram – como se de uma obra legítima se tratasse. E não hesita em dar a sua achega explicativa. A citação é longa, mas reveladora. “Uma nota informativa complementar: os ‘Protocolos’ não são proféticos.

Não foram redigidos de uma só vez, para sempre. São fichas que incluem tópicos de matérias já conhecidas no seu tempo. Depois, vão sendo actualizadas à medida do tempo que passa.

E os seus mentores e condutores do processo são os ‘illuminati’ que repartem ligações entre a Santa Sé, a Maçonaria, o Pentágono e a Wall Street. Voltaremos a este tema. Quem lê os jornais portugueses cada vez mais se enreda na confusão.”

Olha quem fala…