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EVA CABRAL

O novo Presidente foi claro com os portugueses: com ele em Belém, a Política pura e dura volta a ser o centro das relações entre o Chefe do Estado e o Executivo de turno. A partir de agora, não basta ao primeiro-ministro papaguear intenções: o novo PR vai pedir contas de tudo.

O novo Presidente da República foi um brilhante aluno de Direito, vem de uma casta de políticos e chega a Belém por direito próprio, depois de vencer as Presidenciais de forma expressiva e à primeira volta.

Algumas décadas depois, na mesma Escola – a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa – António Costa foi um medíocre aluno. Desde cedo queria dedicar-se à Política. Não conseguiu. Andou embrulhado na sórdida pequena política a que alguns chamam politiquice. E chegou ao XXI Governo do País depois de ter perdido as eleições e mediante um Pacto com o Diabo (em sentido figurado, claro) ao negociar apoios com PCP, BE, PEV e até com o estreante PAN que alinha com esta esfarrapada e incoerente maioria.

O novo Presidente da República, uma vez eleito, passou a reunir numa base semanal com António Costa. À saída destas reuniões, o alegado PM manifestava o seu incómodo de forma bem visível.

É que se o Presidente Cavaco Silva foi sempre um institucionalista e era um extraordinário professor de Economia, com Marcelo a conversa é bem diferente. Marcelo Rebelo de Sousa foi deputado constituinte e o sistema foi desenhado como semi-presidencialista.

Costa que se desengane: o novo PR vai estar nas decisões do Governo.

Centeno, o atrasado

Já a pensar nos tempos duros que se avizinham, António Costa enquanto mestre da politiquice ensaiou no Forte de S. Julião da Barra uma reunião do Conselho de Ministros presidida por Cavaco Silva. O país assistiu aliás, em directo, a um Costa servil, esperando embaraçantes minutos por Cavaco Silva.

Foi Cavaco que se atrasou? Não, foi o ilustre e volúvel Centeno que se atrasou e chegou muito depois da hora que o rígido protocolo de Estado lhe marcou. E, como Portugal não é uma república das bananas, o protocolo exige que entre a entrada de um ministro e a chegada do PR à passadeira de honra exista um intervalo de tempo determinado.

A espera caricata a que foi sujeito Costa deve-a a Mário Centeno, que cada vez aparece menos sorridente em público. Um Centeno que, no caso da reunião de S. Julião da Barra, deve ter recebido a respectiva e pública reprimenda.

Recorde-se que Cavaco Silva, nos seus dez anos de primeiro-ministro, era célebre pela exigência de que os ministros cumprissem os horários. E muito poucos tinham arcaboiço para pecar e ouvir o arraso dado pelo PM de então em público.

Política vs. politiquice

Desta vez foi Costa que convidou o PR a presidir a um Conselho de Ministros a propósito das questões do Mar, um tema que gera consensos na sociedade portuguesa a par de outros como os do Ambiente ou da Natalidade, sobre os quais todos falam e pouco ou nada se faz.

Mas esse velho vício da parlapatice vai encontrar, muito em breve, um obstáculo em Belém.

Com Marcelo Rebelo de Sousa, as balizas de um regime desenhado como semi-presidencial – depois desvirtuado pela prática política – vão regressar à sua pureza inicial.

O novo Presidente da República já afirmou que irá falar aos portugueses sobre o Orçamento do Estado para 2016. E quanto à presidência dos Conselhos de Ministros por Marcelo, o tempo dirá se não serão efectivamente muito mais frequentes.

Na manga, para resposta futura, Costa irá balbuciar que também teve Cavaco Silva a presidir a um Conselho de Ministros. Mas por muito que uns apostem na politiquice, outros tem na massa do sangue a Política. Em último caso, Marcelo explicará ao Povo a diferença de modelos entre a sua permanência em Belém quando comparada com os seus antecessores. Costa verá o seu ‘spin’ barato evaporar-se.

Na praça pública

O novo Presidente da República é neste momento o único político que quase não precisa da intermediação dos Media para chegar ao povo. Claro que é neste momento o único porque Paulo Portas decidiu tirar uma pausa sabática, muito provavelmente para começar a percorrer o tradicional período de nojo para em momento oportuno se candidatar ele próprio à Presidência da República.

O contacto em directo com o povo é tão grande que Marcelo Rebelo de Sousa se limitou a passear pelo país. Apareceu sozinho em Celorico de Basto a anunciar a sua candidatura. Depois ouviu pacientemente os debates das legislativas e o golpe da geringonça dado por Costa.

Enfim, viu tudo o que ele despreza na politiquice e irá tratar o alegado PM em conformidade com a avaliação que faz do seu percurso académico, do seu carácter e da sua (i)legitimidade política.

A enorme diferença em relação ao estilo de Cavaco Silva é mesmo a maneira como vai comunicar aos portugueses a sua visão sobre pequenos e grandes temas da actualidade.

Costa que esqueça o recato da sala do Palácio de Belém para o PR exercer o seu mandato. Com Marcelo Rebelo de Sousa, vai ser na Praça Pública, sobre tudo o que lhe apetecer e quando o entender.

A razão é muito simples: existe um mar de diferença entre quem, em sufrágio directo, se apresentou a votos e venceu à primeira volta, e um jovem turco do aparelho a quem não repugna qualquer golpe de secretaria para poder dizer que é PM depois de ter sido derrotado nas legislativas.

[td_text_with_title custom_title=”Nascido para mandar”]Acompanhei para o ‘Diário de Notícias’ a célebre campanha de Marcelo Rebelo de Sousa à Câmara Municipal de Lisboa. Foram seis meses de pura diversão e de contacto directo com um dos mais brilhantes políticos que Portugal teve.

Marcelo nasceu para mandar. É filho de Baltazar Rebelo de Sousa, médico, que foi ministro e Governador de Moçambique na recta final do salazarismo. Ainda antes de Marcello Caetano desenhar a sua primavera marcelista, o jovem Rebelo de Sousa recebeu o nome Marcelo, em homenagem ao governante amigo dos pais (cujo casamento apadrinhou).

Filho de ministro, protegido de primeiro-ministro, Marcelo foi sempre um predestinado para o poder. Passou por um dos governos da AD mas, em casa, não podia correr a dizer ao pai que era ministro sem encontrar do outro lado um mais ou menos verbalizado “e daí?”.

Mas regressemos a Lisboa, onde a campanha eleitoral era diariamente uma aventura. Como se sabe, correu mal. Marcelo apercebeu na recta final que ia perder para Jorge Sampaio. No comício de encerramento da campanha, que convocou para o largo do Município, quem era da Imprensa escrita como eu já nada podia escrever por imposição legal. Mas pessoalmente nunca iria perder o seu último comício antes de eleições.

Debaixo do palco estiveram várias pessoas, como pude testemunhar. Estavam os dois pais de Marcelo, a Rita Cabral, o seu director de campanha Jorge Quintas, Virginia Estorninho, e não muitos mais. O comício teve a tristeza de um cumprir de calendário quando se sabe que os resultados não serão os que se queriam. Estiveram poucas pessoas. Mais uma vez se percebe que a Política é uma arte solitária. Só nas vitórias se atropelam os tais apoiantes de primeira hora que, normalmente, apenas aparecem nas últimas acções de campanha.

Na derrota Marcelo teve os pais, a namorada e amigos. Os outros que andam à babugem dos vencedores, retiraram-se. São os tais da politiquice.

Marcelo está em Belém porque venceu. E tem uma memória de elefante: nunca esquece os pequenos lambe-botas que só aparecem nas vitórias a pedir o seu prato de lentilhas.[/td_text_with_title]

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