EVA CABRAL

O novo PR domina o panorama político e ofusca tudo e todos na cena mediática. O presidencialismo que, por feitio ou opção, os seus antecessores não puderam adoptar é agora naturalmente assumido por Marcelo Rebelo de Sousa.

Um mês após a posse como Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa já demonstrou que tenciona ser “o Marcelo” de sempre, aquele que semanalmente falava sobre todos os temas. Presença diária no espaço dos Media, o novo PR é “um eucalipto político que seca tudo à sua volta”, segundo referia a O DIABO uma fonte ligada ao PS.

Governo e partidos da oposição estão agora a reajustar-se a este activismo de Marcelo, que o coloca quase sempre em primeiro lugar nos alinhamentos das televisões. Mas o fenómeno não é apenas televisivo. Ainda na passada semana o PR estava nas capas das chamadas revistas cor-de-rosa, com a poderosa ‘Nova Gente’ (de grande tiragem nacional) a titular que Marcelo perde anualmente 300 mil euros por ser Presidente da República: seria o risco deste “rombo” no orçamento familiar que o levaria a falar com os dois filhos sempre que ia candidatar-se a um cargo político.

20160309-PRMRS-0259-2304

E a ‘Nova Gente’ espraia-se em pormenores e curiosidades sobre Marcelo Rebelo de Sousa: os anos em que ele liderou o PSD terão sido também um desastre para as suas finanças pessoais, e quando deixou a sede social-democrata fez questão de perguntar qual era o passivo do partido nesse dia, liquidando-o com um cheque pessoal.

Mas o que interessam as finanças do PR? A resposta é que interessam muito, pois num país onde a corrupção mina todos os sectores económicos e políticos esta atitude de Marcelo é uma das razões do seu crescente aumento de popularidade nas sondagens.

Esta faceta de desprendimento em relação ao dinheiro quando se trata de servir o Pai – e um facto que será comprovado pela comparação entre os rendimentos de 2015 com 2016 quando o Tribunal Constitucional os disponibilizar esses dados – bem como a sua proximidade e presença junto dos portugueses que sofrem, estão a centrar o foco da atenção dos Media na sua actividade, deixando Governo e partidos da oposição com uma crescente dificuldade em fazerem passar as suas mensagens.

Exemplos desta nova forma de encarar a Presidência foram muitos, desde que tomou posse. Exemplos: a ida ao funeral de Castro Brito, o impulsionador da Ovibeja, a visita a um hospital e a permanente disponibilidade para que os portugueses vejam que o PR está fora do Palácio de Belém com eles, e sem ligar às tradicionais mordomias do cargo.

Com o regime saído do 25 de Abril a falar numa opção pelo semi-presidencialismo, o certo é que a “metade” tem sido a mais parlamentar como regra. Primeiro com Ramalho Eanes, que, vindo do sector militar, quis afastar qualquer conotação com o presidencialismo. Depois com Soares e Sampaio, oriundos do PS e cultores da tradição republicana, que, apesar da sua maior ou menor propensão para ocuparem o espaço mediático, sempre respeitaram o Governo e o Parlamento.

Já o antecessor de Marcelo, Cavaco Silva, acabou por ser o mais discreto PR e terminou o seu segundo mandato com a popularidade em queda e a níveis baixíssimos. No caso de Cavaco Silva, foi também uma questão de “dinheiro” que o pôs em rota descendente. Os portugueses não lhe perdoaram as declarações sobre a pequena reforma de Maria Cavaco Silva. E ainda menos perdoaram a sua opção pela reforma do Banco de Portugal e como docente em vez do vencimento de Presidente da República.

20160311-PRMRS-0006-4232

Este fim-de-semana, enquanto decorria em Espinho o 36º Congresso do PSD, o Presidente da República evocou no Sábado a ampla convergência verificada há 40 anos com a aprovação da Constituição, transcendendo as diferentes alternativas políticas, mas advertiu que a Constituição só se cumpre se os portugueses viverem melhor.

O cenário das declarações era o almoço comemorativo dos 40 anos da aprovação da Constituição da República, no Palácio de Belém – uma iniciativa conjunta da Assembleia da República e da Presidência da República. Marcelo sustentou que este almoço, juntando deputados constituintes de todos os partidos então representados na Assembleia Constituinte, teve as dimensões de evocação e de desafio. E explicou: “Evocação por lembrar o mérito (muitas vezes esquecido) de se elaborar uma Constituição em plena revolução, o que foi fundamental para o nascimento da democracia; e desafio, porque os portugueses só perceberão a importância da Constituição se isso significar alguma coisa nas suas vidas, se viverem melhor em termos económicos, sociais e culturais”.

Marcelo deixou recados para os protagonistas do actual sistema político, salientando o carácter salutar da existência de várias alternativas em relação ao Governo do País. Marcelo tenciona falar com todos os partidos, mas acima de tudo com todos os portugueses.

Voltando às suas declarações sobre a Constituição, adiantou: “Mas, para além disso, é bom que haja uma convergência, um diálogo, uma capacidade de encontro entre todos os sectores, de todas as áreas e de todos os quadrantes da vida nacional, umas vezes proporcionando consensos de regime – como é o caso de uma Constituição ou de uma revisão constitucional –, outras circunstâncias não permitindo essa convergência. Em qualquer caso, o que interessa é o espírito da Constituição, um espírito de unidade nacional”.

20160317-PRMRS-1005-ML005

Esta é a visão da Constituição de Marcelo Rebelo de Sousa e este é o seu programa para o seu primeiro mandato. Hoje, Costa é primeiro-ministro, mas a sua equipa aparece sempre atrás do PR, subalternizada na atenção da opinião pública, como ficou demonstrado com Capoulas Santos, o ministro da Agricultura que representava o governo no funeral de Castro e Brito. A presença de Capoulas Santos acabou mais por realçar a ausência de António Costa e demonstrar que Marcelo Rebelo de Sousa é um português, pensa como um português, e representa o País nas coisas boas e nas coisas más.

Sim, este é “o Marcelo” de sempre. Só que, agora, é Presidente da República e vai exercer todas as competências à luz de uma Constituição que contou com o seu contributo nos agitados tempos de 1976. E vai exercer o poder para além dos partidos e das tricas partidárias. Sabe que é Presidente da República mas, se os ventos lhe correrem de feição, poderá comportar-se como um príncipe.

COMPARTILHAR