As mentiras do ‘Avante!’

As mentiras do ‘Avante!’

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Os comunistas continuam a propalar “verdades” ideológicas que nada têm a ver com a verdade dos factos

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O artigo do jornal do PCP sobre a queda do muro de Berlim fez rir muita gente. Mas não é caso para isso. Os comunistas continuam a defender com unhas e dentes uma ditadura desumana que mandava atirar a matar sobre os seus próprios cidadãos. O mesmo PCP com quem António Costa não exclui vir a formar Governo…

Um caso de humor involuntário? Não, muito mais grave do que isso. O artigo com o título “A chamada ‘queda do muro de Berlim’”, publicado no semanário ‘Avante!’, jornal oficial do PCP, não é para ser lido com ligeireza.

O “órgão central” serve para delimitar a ortodoxia doutrinal dos comunistas portugueses que, em pleno século XXI, 25 anos depois da derrocada do Muro da Vergonha, continua a propalar “verdades” ideológicas que nada têm a ver com a verdade dos factos.

Damos de barato a propaganda, a fazer lembrar a velha cassete dos tempos do dr. Barreirinhas Cunhal – mas em versão simplista, porventura mais ao gosto do incansável animador dos serões culturais de Pirescoxe -, de que o melhor exemplo é a conclusão lapidar: “Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da Humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo.”

O que nos interessa apontar são as inverdades factuais, vulgo mentiras, do “órgão central”: “A construção do muro de Berlim em 1961, com carácter defensivo (…)”.

Muro de protecção… contra os alemães de leste

tumblr_m8xb80xMPj1qa1iiqo1_1280O primeiro-secretário do Partido Socialista Unificado (resultado da fusão forçada do Partido Comunista com o Partido Social-Democrata, na zona de ocupação soviética) e presidente do Conselho de Estado da RDA (isto é, o ditador comunista da Alemanha Oriental), Walter Ullbricht, chamou-lhe “muro de protecção antifascista” – mas só depois de iniciada a construção, em Agosto de 1961.

Apenas semanas antes, a 15 de Junho, jurava a pés juntos, numa conferência de imprensa, em resposta a uma pergunta directa da correspondente do diário ‘Frankfurter Rundschau’: “Ninguém tem a intenção de construir um muro.”

Na verdade, a única coisa que o muro pretendia proteger era o regime de Pankow (o bairro de Berlim Oriental onde estava instalado o governo do partido único) contra a sua própria população. Inconformados com a ditadura comunista, os alemães de leste tinham optado por “votar com os pés”: até 1961, mais de 2,5 milhões tinham trocado o “paraíso dos trabalhadores” pelo Ocidente capitalista, a maior parte através do sector de ocupação soviética de Berlim.

Continua o ‘Avante!’: “É a resposta a constantes provocações na linha de demarcação entre a parte Leste e Ocidental da cidade e reiteradas violações de soberania da RDA, no coração de cujo território se encontrava Berlim, num incontestável acto de segurança e de soberania.”

“Faixa da morte”

É natural que o PCP considere “constantes provocações” as milhares de tentativas de fuga de alemães para Berlim Ocidental depois da construção do muro e da instalação de um complexo sistema de vigilância e repressão.

Este incluía uma primeira barreira de cimento e arame farpado (o “muro interior”), uma cerca electrificada; ‘snipers’ colocados no alto de torres com ordem para matar; cães de guarda colocados ao longo do perímetro; uma larga faixa de terra e areia para facilitar a detecção de pegadas, separada por um corredor central de cimento para permitir a deslocação de veículos policiais; constantes patrulhas armadas ao longo do muro com ordem para disparar a matar; e, no limite da “faixa da morte”, armadilhas anti-carro e espigões para rasgar pneus e impedir a aproximação ao último e mais poderoso obstáculo: o muro propriamente dito, uma estrutura de cimento com 3,6 metros de altura, arredondado no topo para dificultar tentativas de escalada, ao longo de 106 quilómetros, cercando completamente Berlim Ocidental.

Voltando um pouco atrás no artigo do “órgão central”: “Hostilizada e caluniada pela reacção internacional, a RDA, pelas suas notáveis realizações nos planos económico, social e cultural e pela sua política antifascista e de paz, impôs-se e fez-se respeitar no concerto das nações (…)”

Túneis, carros, balões e ultra-leves

O que o ‘Avante!’ omite é a epopeia heróica de milhares de alemães comuns que arriscaram a vida para fugir ao regime dessas “notáveis realizações nos planos económico, social e cultural”.

Cerca de 5000 conseguiram: famílias inteiras escaparam por túneis escavados sob a “faixa da morte”, outros voaram para a liberdade em balões e ultra-leves, muitos atiraram-se contra o arame farpado e saltaram o muro durante a construção (foi o caso do jovem polícia Conrad Schumann, logo em Agosto de 1961).

A maior parte conseguiu “rasgar a cortina de ferro” passando para o Ocidente em carros modificados das maneiras mais imaginativas: debaixo dos bancos, junto às rodas ou, como fez uma rapariga de 17 anos, em 1987, ensanduichada entre duas pranchas de surf.

136 mortos

Mauerfall_1989_Berlin_Getty_112122114_pt_8Mas muitos não sobreviveram. As estatísticas oficiais identificaram 136 pessoas mortas na sequência da tentativa de escapar à ditadura comunista. A primeira vítima mortal do muro foi a viúva Ida Siekmann, de 58 anos, que no dia 22 de Agosto de 1961 saltou da janela de sua casa, no terceiro andar do nº 48 da Bernauer Strasse – o prédio pertencia à zona de ocupação soviética, mas o passeio já estava dentro da zona francesa.

Dois dias depois, Günter Litfin, de 24 anos, foi a primeira pessoa abatida a tiro pelos guardas do Muro da Vergonha. As mortes sucederam-se: junto ao muro, nos rios Spree e Havel e no canal Teltow. O último morto da lista foi Winfried Freudenberg, a 8 de Março de 1989.

Nem as igrejas escapavam: para facilitar a vigilância na “faixa da morte” confinante com a zona francesa, o regime comunista mandou arrasar a Igreja da Reconciliação, na Bernauer Strasse, em 1985.

Anedotas

East_German_Guard_-_Flickr_-_The_Central_Intelligence_Agency_(1)_CMYKO beijo na boca entre o chefe da RDA, Erich Honnecker, e o todo-poderoso secretário-geral soviético, Leonid Brejnev, tornou-se um ícone do “socialismo real”.

Descontando a componente homoerótica na relação entre líderes de “partidos irmãos”, o comunismo foi um manancial inesgotável de anedotas. Apesar de ser apanhado a contá-las poder custar pesadas de penas de prisão por “difusão de propaganda anti-socialista”…

Aqui fica uma: Erich Honnecker levanta-se de manhã, abre a janela do quarto e saúda: “Bom dia, sol”. Responde o sol: “Bom dia, camarada secretário-geral!”

Ao meio-dia, no seu gabinete, Honnecker vai à varanda e diz: “Boa tarde, sol!” E o sol: “Boa tarde, camarada secretário-geral!”

Ao pôr-do-sol, Honnecker despede-se: “Até amanhã, sol!” Silêncio. Honnecker volta à carga: “Então, sol, não me respondes?” E o sol, por fim: “Eu quero que tu te *****! Agora estou no Ocidente!”