HUMBERTO NUNO DE OLIVEIRA

Diz o Povo, com a sua sabedoria ancestral, que a ignorância é muito atrevida. É um adágio que várias vezes provou ser certeiro. A prisão de um ex-primeiro ministro prova-o uma vez mais.

Os defensores do ”animal feroz” caceteiros e, como ele, igualmente dados a ataques de fúria, não se deixando ficar nas covas, passaram ao contra-ataque, que tudo isto era uma malandrice, uma ignomínia, um ultraje e que jamais em democracia um ex-primeiro-ministro havia sido preso e sujeito a tal infâmia.

Um dos propagadores destas ideias foi o Dr. Soares, republicano, laico e socialista, mas que deve ter sido acometido de esquecimento ou atacado pela ignorância. Ou então achará que pelo facto de se ter sido primeiro-ministro se passa a um estatuto de intocável, o que seria mais grave, e permitiria a estes toda a sorte de tropelias sem que pudessem ser incomodados.

Creio que o Dr. Soares achará que os pais fundadores da primeira república que idolatra dotaram o País de uma república, laica e socialista como gosta (se nela imperava uma democracia é coisa que para mim não é clara, mas não fui eu que o disse) e suficientemente democrática.

Ora bem, nessa idolatrada primeira república existiu um indivíduo, Liberato Damião Ribeiro Pinto de seu nome (Lisboa, 29 de Setembro de 1880 — 4 de Setembro de 1949), que de 30 de Novembro de 1920 a 2 de Março de 1921, presidiu ao 24.º governo republicano (o 10.º governo do período pós-sidonista, a que alguns chamam a “Nova República Velha”), durante 92 dias (ou seja, cerca de três meses, eu sei que é pouco, mas era mesmo assim nesse “El Dorado” desta gente).

Esse indivíduo que acabaria a carreira militar no posto de coronel, foi um político da esquerda republicana, ligado ao Partido Democrático (a designação comum do Partido Republicano Português de Afonso Costa), e que comandou a Guarda Nacional Republicana entre 1917 e 1922.

Nomeado para esse cargo pelo seu partido (no qual se filiara em 1915, sendo mesmo eleito deputado ao Congresso da República nas listas daquele partido por Aljustrel, em 1919) a ele se deve a sua transformação na verdadeira “guarda pretoriana” dos governos dominados pelo seu partido e num feroz meio de oposição sempre que o poder daqueles se encontrava ameaçado (sim, é assim, a verdadeira história da tão saudada primeira república).

Importa porém repor a História e contrariar a histeria de que nunca um primeiro-ministro havia sido preso, em democracia, em Portugal.

Liberato Pinto (como é vulgarmente conhecido) é considerado um “democrático ortodoxo”, e um dos grandes sustentáculos do poder dos “democráticos”.

Um ídolo pois, seguramente, desta gentalha deste regime…

A sua nomeação para a chefia do governo foi da iniciativa de António José de Almeida, então Presidente da República, para que formasse um “governo de geral concentração republicana”. Esta escolha foi apoiada por toda a esquerda republicana, e permitiria controlar a Guarda Nacional Republicana. Durante o seu mandato como chefe do governo acumulou ainda a pasta de ministro do Interior, exercendo ainda, interinamente, os cargos de ministro da Marinha e Ultramar (a partir de 4 de Fevereiro de 1921) e de ministro das Finanças (a partir de 22 de Fevereiro de 1921).

O seu governo (terminou a 2 de Março de 1921) sendo caracterizado por constantes apelos a uma progressiva militarização, ou seja para que implementasse uma ditadura, face aos gravíssimos problemas sociais (caracterizada pelas greves e violência bombista, sim, era esse o cenário comum nesses idolatrados tempos).

Após abandonar o governo, foi demitido da chefia do Estado-Maior da Guarda Nacional Republicana, devido aos actos de indisciplina e de aberta contestação contra o novo governo (que não era do Partido Democrático, claro está…) levados a cabo por aquela Guarda. A sua demissão causou grande agitação na Guarda e entre os próceres do Partido Democrático, motivando várias intentonas, entre as quais a tristemente famosa “Noite Sangrenta”, de 19 de Outubro de 1921, que levou ao assassinato de António Granjo (então presidente do Ministério).

A conjugação destes factos não só levou a que tenha caído em desgraça política, mas ainda chegado mesmo a ser preso em Janeiro de 1922, sob acusação de desvio de fundos da corporação. Será que se vislumbra, neste padrão, aquilo que eles chamam a “ética republicana”?

De qualquer dos modos entre este chefe do governo, que fora Chefe e subchefe do Estado-Maior das Forças Expedicionárias a Moçambique em 1915–1916 e 1916–1917 (Grande Guerra), e sucessivamente feito Comendador da Ordem Militar de Avis, Comendador da Ordem Militar de Cristo, Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e finalmente Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, e o ora preso vai uma diferença abissal.

Importa porém repor a História e contrariar a histeria de que nunca um primeiro-ministro havia sido preso, em democracia, em Portugal.

Mas como a ignorância é atrevida lá se vai dizendo a coisa.

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