Números do PIB e do desemprego podem ser ilusórios

Números do PIB e do desemprego podem ser ilusórios

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No ano em que Portugal terminou o programa de assistência financeira, a dúvida mantém-se: vamos mesmo começar a crescer? É que os números optimistas com que tentam animar-nos poderão, afinal, não ser o que parecem…


Quem agora regressa a casa depois das férias e mergulha nos típicos noticiários com que os telejornais nos brindam nesta época estival, poderá ser levado a pensar que o Portugal de Maio é um País que já não existe ou cuja história negra ficou perdida no passado. Mas cautela: lembre-se o leitor que no BES, até duas semanas antes do descalabro completo, meio mundo pintava o banco de cor-de-rosa.

Por isso mesmo, é melhor não gritar de euforia quando nos dizem que o desemprego em Portugal recuou para 14 por cento e registou a maior descida homóloga na União Europeia. É que continuamos a ser o quinto país da UE com maior taxa de desemprego.

Os dados foram recolhidos durante o Verão, época em que aumenta exponencialmente o emprego sazonal. Ou seja, há a possibilidade de o desemprego subir em flecha depois de Setembro, tanto mais que as estatísticas optimistas estão intimamente ligadas ao aumento da emigração e à diminuição da população activa. Mas ninguém parece preocupado.

Todos apontam os aspectos mais positivos, olvidando as causas e as consequências. A taxa de desemprego em Portugal recuou para 14% em Julho, menos uma décima do que em Junho e menos 2,3 pontos do que um ano antes, sendo a maior queda homóloga na União Europeia, segundo o Eurostat.

Em termos de desemprego, estamos ao nível de Novembro de 2011 (ano em que se encontrava precisamente nos 14 por cento, vindo depois a subir até um “pico” de 17,8 por cento em Abril de 2013). Mas a diferença é que em 2011 havia mais um milhão de portugueses em Portugal. Havia menos reformados e aposentados.

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Também a nível de desemprego jovem, Portugal conheceu entre Junho e Julho deste ano um novo recuo de quase um ponto percentual, baixando de 36,4 para 35,5 por cento, sendo a queda ainda mais marcante em termos homólogos, pois em Julho do ano passado o desemprego atingia 37,6 por cento dos portugueses com menos de 25 anos.

Mas os números podem ser enganadores. Como O DIABO sublinhou na sua última edição, uma parte significativa do emprego jovem está hoje dependente de “esquemas” usados pelas empresas para “empregar” jovens com ordenados inferiores ao ordenado mínimo nacional, influenciando directamente os números oficiais do desemprego.

Taxas aeroportuárias sobem pela sétima vez desde 2012

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Segundo o “Diário Económico”, as taxas aeroportuárias no Aeroporto de Lisboa já aumentaram sete vezes desde que a ANA, em finais de 2012, foi privatizada pelo Governo. O aumento, que chegará a 1 de Dezembro e que será da ordem dos 7,56 por cento, pretende corrigir um desvio nos valores estimados para 2014.

Mas não será apenas o aeroporto da capital a sofrer um aumento. Também, no Porto, apesar de mais ligeiramente, as taxas cobradas aos passageiros vão aumentar. Aqui a variação é de apenas 1,5 por cento, sendo que, em Faro, será somente de 0,11 por cento. Escapam as ilhas: a Madeira e os Açores beneficiarão de uma redução das taxas aeroportuárias cobradas, respectivamente, de 0,58 e 0,12 por cento.

Segundo explica a gestora aeroportuária, em média, o aumento traduzir-se-á num custo acrescido de 40 cêntimos para os utentes, esclarecendo-se ainda que “as taxas aeroportuárias no aeroporto de Lisboa ficam mais de 15% abaixo da média dos aeroportos que compõem o grupo de comparação onde se insere”.

Para a Associação de Turismo de Lisboa, este facto é visto como uma tentativa de aproveitamento financeiro do incremento de visitas à capital portuguesa. A entidade presidida por Vítor Costa refere que a ANA “pretende retirar proveitos acrescidos do esforço promocional e dos investimentos na promoção da oferta da região de Lisboa desenvolvidos pelo Turismo de Lisboa, pelas empresas e por outras entidades”. 

Certo, certo, é isto: Portugal continua a registar a quinta taxa de desemprego mais elevada entre os jovens, atrás da Espanha (53,8%), da Grécia (53,1%, dados de Maio), da Itália (42,9%) e da Croácia (41,5%, no segundo trimestre), tendo a média na UE e na zona euro sido em Julho de 21,7% e 23,2%, respectivamente.

PIB aumenta 2,9%

Há, por outro lado, indicadores que poucos poderão garantir com certeza se serão boas (ou más) novidades para Portugal. O Instituto Nacional de Estatística reviu em alta os impactos do novo Sistema Europeu de Contas e dos Censos 2011 na economia portuguesa, estimando que o PIB aumente 2,9 por cento no ano base, 2011.

Com as alterações introduzidas pelo Sistema Europeu de Contas (SEC2010), que terá de entrar em pleno vigor até ao final do mês de Setembro, mas também com a incorporação da informação dos Censos 2011, o INE afirma que “o PIB [Produto Interno Bruto] de 2011 é reavaliado para cerca de 176,2 mil milhões de euros, o que corresponde a um nível superior em 2,9 por cento ao apurado na anterior base 2006”.

A 11 de Junho, os responsáveis pelas contas públicas do INE admitiram que o PIB aumentasse mais de 2,5 por cento com a nova metodologia. No início do ano, as estimativas do INE apontavam para um crescimento do PIB entre um e dois por cento – um valor semelhante ao previsto pelo Eurostat naquela altura.

Esta revisão metodológica acabou por ter também um impacto na taxa de variação do PIB em 2011. Se o anterior Sistema Europeu de Contas (SEC1995) dava conta de uma contracção na economia de 1,3 por cento, o novo sistema de contas agrava a taxa de variação do PIB em 0,5 pontos percentuais, fixando-a em 1,8 por cento, isto porque a nova metodologia também é aplicada em 2010 e anos anteriores, podendo alterar a taxa de variação nos vários anos.

Nos dados divulgados na passada sexta-feira, o INE indica que só as revisões metodológicas têm um impacto de mais 2,3 por cento no PIB, enquanto a integração das novas fontes, os Censos 2011, representam mais 0,6 por cento. Assim, a revisão total representa um PIB 2,9 por cento superior, ou seja, um aumento de 5.040 milhões no ano 2011.

Entre os principais contributos positivos para a reavaliação do PIB em 2011, o INE destaca as rendas imputadas, com uma reavaliação de 3.083 milhões de euros, e a capitalização das despesas de investigação e desenvolvimento, com 2.270 milhões de euros.

De facto, estamos exactamente como estávamos. A matemática é que mudou os resultados.