O paraíso e o inferno no discurso dos políticos

O paraíso e o inferno no discurso dos políticos

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As Finanças antecipam notícias maravilhosas para os portugueses, a Oposição insiste no relato de um País sem trabalho e sem dinheiro. Os portugueses seguem o seu dia-a-dia e já nem os discursos fatalistas ou as previsões douradas de melhores dias têm impacto na sociedade.

Portugal aprendeu que os discursos políticos não têm qualquer valor real. Fartos de parangonas fatalistas ou de promessas vãs, os portugueses lutam diariamente alheando-se cada vez mais da política nacional.

Vale de pouco que a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, tenha dito no sábado à noite em Oliveira de Azeméis que poderá haver “surpresas positivas” em 2015, afirmando que mantém confiança nas previsões do Governo no Orçamento do Estado do próximo ano. São previsões atrás de previsões, feitas num qualquer gabinete longe da realidade popular.

“Acreditamos mesmo que elas [previsões] não são optimistas demais e que teremos margem para conseguir resultados melhores, até, do que aqueles que estão agora no Orçamento e que podemos ter surpresas positivas ao longo do ano de 2015, porque aquilo que estamos a ver como sinais é francamente encorajador”, declarou a governante.

Não esteja o leitor mais desatento a pensar que isto de anunciar o fim da crise é coisa nova. Em Setembro de 2012, O DIABO avisava que se vivia o “1X2 do fim da crise”.

E não falhou uma vírgula: “É a corrida a ver quem acerta na data do fim da crise, qual aposta no totobola. Da Esquerda à Direita, os governantes lusos vão atirando para o ar datas e anos.

Até hoje, para infelicidade de milhões de portugueses, ainda não há totalistas.E os jackpotes – em forma de impostos – vão-se acumulando”.

Em 2009, o então primeiro-ministro afirmava, sem dúvidas: “É o princípio do fim da crise”. Eram as certezas de José Sócrates, em Agosto, no final do primeiro conselho de ministros depois das férias.

Sócrates reforçava assim o que o seu ministro das Finanças já tinha dito, dois meses antes, quando os indicadores sobre o clima económico subiram pela primeira vez desde 2008: “Quero crer que estamos mais próximos do fim da crise do que do seu início e creio que estaremos, porventura, a passar o pior momento da crise nos últimos meses e que, como os indicadores têm vindo a acentuar, a crise está a atenuar-se”.

Em 2011, o ministro Álvaro Santos Pereira também quis ficar na história das apostas, frisando “que 2012, assim como os indicadores mostram, será o princípio do fim da crise”.

Também o actual primeiro-ministro já tinha apontado 2012 como “o ano do princípio do fim da emergência nacional”. Vivia-se o dia 4 de Setembro de 2011, era o último dia da Universidade de Verão do PSD em Castelo de Vide. O mesmo discurso – com a devida correcção temporal – foi feito com pompa e circunstância em 2012, em 2013 e agora em 2014.

Um dia irão acertar.

Perspectiva de futuro

Maria Luís Albuquerque referiu ainda que o Orçamento do próximo ano “dá aos portugueses uma perspectiva de um futuro que começa a ser melhor, em que temos crescimento”.

“Saímos da recessão, tivemos um ano de 2014 de crescimento e teremos um ano de 2105 de maior crescimento, que significa recuperação para todos”, disse a governante, admitindo que o Orçamento do Estado para 2016 poderá ser melhor se continuarmos no caminho do rigor, da responsabilidade, do trabalho e da recuperação.

Imediatamente antes da intervenção da ministra das Finanças, o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, também se referiu às previsões do Orçamento do Estado, afirmando que o Governo “tem falhado muitas vezes, mas a favor do País e do desempenho do País”.

“A troika perspectiva para o próximo ano um quadro mais negativo do que aquilo que nós estimamos no Orçamento e, pasme-se, a nossa oposição e o PS, em particular, vieram dizer para ouvir a troika”, assinalou Luís Montenegro. Parece que o PS “já está com saudades da troika”, acrescentou.

O líder da bancada parlamentar do PSD criticou ainda a actual liderança socialista, afirmando que “revela arrogância e fraqueza”, por se recusar a fazer compromissos.

“Não perdem as eleições por fazer acordos ou compromissos com as questões essenciais”, referiu Luís Montengro, considerando que este comportamento político prejudica o País.

Costa já responde pelo PS

As acusações são mútuas. E do lado dos socialistas é o (ainda) autarca António Costa quem vem a terreiro. “Porque é que o Governo fracassou e hoje não tem soluções? Porque iniciou funções sem ter uma estratégia.

Tinha simplesmente um programa de ajustamento e acreditou que, cumprindo à risca esse programa e indo mais além do que a própria troika, produziria o milagre de resolver os problemas estruturais do País”, afirmou António Costa, em Castelo Branco, numa sessão partidária em que apresentou a sua “agenda para a década.

O candidato socialista – que quer ser primeiro-ministro – realçou “o fracasso” do actual Governo, que não diminuiu a dívida, “não acertou ainda numa única meta do seu orçamento e ainda não conseguiu produzir um único orçamento que não fosse contra a Constituição”.

O Governo, acrescentou, “conduziu [o País] à estagnação económica, aumentou brutalmente o desemprego, os níveis de empobrecimento, retomou um ciclo de emigração como não tínhamos desde o 25 de Abril, e a verdade é que está neste momento perdido, sem encontrar soluções para a falta de estratégia e ausência de programa”.

António Costa sublinhou que não é possível ser-se Governo sem ter uma visão estratégica e adiantou que o Governo liderado por Pedro Passos Coelho, “se tivesse uma visão estratégica, não estava hoje perdido, sem saber o que fazer perante o fracasso do programa de ajustamento”.

“É isso que o País tem que resolver. Construir a alternativa não é só substituir a direita pelo PS. É garantir que o próximo Governo do PS fará diferente do que a direita fez”, disse.

E, segundo António Costa, a primeira diferença está no facto de que o PS “tem uma estratégia para o País e a direita não tem”.

Quem os ouve não os leva presos…