Há meses que o porto da capital portuguesa, uma infra-estrutura vital para a nossa economia, está submetido aos caprichos dos estivadores – ou, melhor dizendo, de uma direcção sindical que ostensivamente despreza o interesse nacional. A greve foi suspensa na passada sexta-feira, mas o Governo de esquerda obrigou os operadores portuários a aceitarem um acordo que deixa os estivadores novamente em posição de controlo. Terá a economia de todo um País de continuar refém de uma única classe profissional?

Desde 20 de Abril que o poderoso Sindicato dos Estivadores, Trabalhadores de Tráfego e Conferentes Marítimos do Centro e Sul de Portugal, afecto ao PCP, mantinha o porto de Lisboa inutilizado por uma greve. Uma entre muitas, mas certamente não a derradeira: nos últimos dez anos, o terminal marítimo da capital teve a sua actividade bloqueada por 100 pré-avisos de greve apresentados por aquele sindicato.

O objectivo final dos grevistas é controlar o porto de Lisboa à maneira dos sovietes, protegendo-se por via artificial das forças económicas e até mesmo da modernidade (ver caixa). O Sindicato dos Estivadores não esconde os seus objectivos políticos: o seu presidente, António Mariano, pediu mesmo a nacionalização de todo o sector portuário, afirmando que tal acabaria com “interesses económicos que já não são portugueses e que querem aumentar em dezenas e centenas de milhares os seus lucros à conta do esmagamento das condições salariais dos trabalhadores”.

Este grevismo crónico e altamente politizado não é exclusivo de Portugal: tem vindo a corroer toda uma Europa onde, durante décadas, o comunismo, sem forma de alcançar o poder por vias democráticas, se infiltrou silenciosamente nas estruturas económicas.

Em Portugal, a questão tem adquirido contornos particularmente graves pelo facto de paralisar uma infra-estrutura crucial para uma Nação que precisa de exportar para recuperar a prosperidade perdida após a bancarrota de 2011. Mas enquanto os estivadores, alguns com ordenados que ultrapassam os 4 mil euros, lutam pelo controlo do porto de Lisboa, outros portugueses perdem o seu emprego devido às sucessivas greves.

Custos elevados

Em 2012, mais uma das célebres greves dos estivadores lisboetas causou um prejuízo de 2,1 mil milhões à economia nacional, um brutal rombo para um País que se encontrava numa das suas mais graves recessões de sempre. Os prejuízos, desta vez, ainda não estão contabilizados, mas em alguns sectores já se sentiram. Os custos da matéria-prima do sector agro-alimentar, por exemplo, começaram a subir pouco depois do início da greve. O preço da soja, largamente usado na alimentação animal, aumentou 15 por cento, o que não ajuda em nada os produtores nacionais de carne, que enfrentam profundas dificuldades.

As ilhas, por sua vez, são os territórios que mais sofrem, visto estarem dependentes em 95% do trânsito marítimo. A Força Aérea teve de entrar em acção para providenciar medicamentos de urgência à ilha da Madeira. A construção civil em ambos os arquipélagos teve de suspender as suas actividades.

Mas o principal prejudicado em todo este episódio é mesmo o porto de Lisboa. 350 estivadores conseguiram criar um prejuízo de 300 mil euros diários aos operadores, espantando muitos armadores e clientes que são essenciais para garantir a sustentabilidade da infra-estrutura. Os operadores garantem que nos últimos dez anos o Porto de Lisboa perdeu um terço da actividade que desenvolvia, tendo perdido o tráfego de 10 mil contentores para o porto de Leixões só durante esta greve. Segundo o INE, em 2015 atracaram em Lisboa 2.606 navios, mas em 2009 tinham atracado 3.218, o que mostra bem a dimensão da crise. “Em dois meses, o porto de Lisboa já perdeu 62 navios, o que corresponde a uma média de 31 navios que em cada mês deixaram de operar nos terminais do estuário do Tejo” – afirmou António Belmar da Costa, responsável da Associação dos Agentes de Navegação de Portugal (AGEPOR).

Pressão sobre as empresas

Se a economia nacional está refém de um pequeno grupo de estivadores, o Governo da Nação está refém de um pequeno grupo de esquerdistas radicais. Para Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, os culpados desta crise “são os operadores, que querem baixar os custos do trabalho”. Jerónimo de Sousa, por sua vez, não deixou de recordar ao primeiro-ministro António Costa que o PCP continua a considerar que a Constituição de Abril é propriedade da esquerda, notando que a mesma determina liminarmente quem deve ser protegido neste tipo de conflitos.

Costa ainda tentou fazer um discurso moderado, relembrando aos líderes da extrema-esquerda os custos da greve. Mas ao mesmo tempo deixou a pairar a ameaça de que rasgaria os contratos de concessão se tal fosse necessário, colocando quase toda a pressão sobre os operadores.

No fim, os grevistas venceram em praticamente toda a linha. O acesso à profissão de estivador vai continuar a ser controlado pelos próprios estivadores. A Porlis, a única empresa que serviria como alternativa às contratações de estivadores, não pode angariar mais mão-de-obra, e tende a ser extinta. A Empresa de Trabalho Portuário de Lisboa manterá o seu monopólio por decreto estatal. Metade das progressões na carreira, e consequentes aumentos de ordenado, vão continuar a ser automáticas em vez de apenas por mérito, como os operadores queriam.

No final das “negociações”, a ministra do Mar afirmou que o acordo assinado na passada sexta-feira era “uma boa notícia para o País”. Referimo-nos à mesma ministra que declarou em Janeiro deste ano que “acabaram as greves no Porto de Lisboa” – uma ingenuidade repetida que o “soviete dos estivadores” se tem sistematicamente encarregado de desmentir.

E quando chegarem os estivadores-robot?

A “luta” dos estivadores certamente irá intensificar-se quando se começar a discutir o processo de automação nos portos nacionais. Este não é um cenário de ficção científica: estima-se que já na próxima década metade dos estivadores a nível mundial serão dispensados, substituídos por profissionais qualificados da área das tecnologias informáticas e mecânicas.

Em terminais como o de Roterdão, um dos maiores da Europa, ou nos portos de Sydney e de Los Angeles, uma grande parte das funções dos estivadores são desempenhadas por robots. Completamente automatizados, estes terminais operarão com escassa necessidade de intervenção humana, e a uma velocidade muito superior à dos terminais “clássicos”. As máquinas que ainda precisarem de intervenção humana serão controladas por trabalhadores qualificados, remotamente e a partir da segurança do seu escritório.

Os elementos de discórdia dos estivadores portugueses — a questão de quem faria o “ship planning” e o “yard planning” (funções de planeamento da disposição de carga tanto nos navios como no terminal) — não serão um problema, pois passarão a ser elaborados por computadores. Em Singapura, por exemplo, um sistema informático organiza já todo o processo portuário horas antes de o barco sequer atracar. Na Holanda, os estivadores já ameaçam com greve para tentar travar as novas máquinas. Em Portugal será certamente o próximo capítulo desta história.