Portugal busca no passado novas fontes de rendimento

Portugal busca no passado novas fontes de rendimento

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Cavaco Silva, que outrora privilegiou os serviços e os subsídios em detrimento das pescas e da agricultura, tem insistido em que o caminho é voltar às terras. E é isso mesmo que se tenta fazer numa pequena freguesia da Covilhã: recuperar usos e costumes e procurar riqueza para o meio local.


Na década de 70, a resinagem representava uma das principais actividades económicas nacionais, com Portugal a assumir-se como um dos maiores exportadores do sector a nível mundial.

Nos últimos anos, a ascensão de economias emergentes, como a China e o Brasil, ditaram a perda de competitividade do sector em Portugal, conduzindo ao declínio e ao abandono quase total desta prática.

Recentemente, a volubilidade destas economias face ao mercado europeu e a procura de alternativas aos derivados do petróleo mais ecológicas renovaram o interesse pelo sector da resina.

Acompanhando esta tendência, o Baldio da Freguesia de Cortes do Meio, na Covilhã, iniciou o processo de revitalização desta actividade no seu perímetro florestal. É o Interior nacional a regressar às origens e aos tempos áureos. O objectivo está traçado e é animador.

Para já, foi necessário um grande esforço de recuperação dos processos e técnicas associados a esta prática. “Curiosamente estas práticas baseiam-se, em muito, no saber fazer, conhecimento guardado pelas gerações mais antigas, mentoras desta tradição e responsáveis pela escassa produção e fabrico, ainda artesanal, das ferramentas e utensílios necessários à actividade”, explica David Bizarro, da Junta de Freguesia de Cortes do Meio.

“Ensinamentos que estiveram na base da acção de formação, desenvolvida pelo Baldio em parceria com a Associação Empresarial da Região de Castelo Branco, que antecedeu a campanha deste ano, promovendo o encontro inter-geracional e a transmissão de conhecimentos ancestrais às gerações vindouras”, conta o responsável.

A implementação destas práticas veio reforçar a multifuncionalidade dos espaços florestais e a dinamização da área rural, constituindo um factor de sustentabilidade ambiental, económica e social indo ao encontro da estratégia desenvolvida pelo Baldio de Cortes do Meio, que na última década tem procurado a diversificação das suas actividades e serviços de forma a garantir a independência de subvenções financeiras e a criação de condições de sustentabilidade futura para a sua organização.

A joalharia da agricultura

A produção de receitas próprias para a comunidade local permitiu a criação de postos de trabalho, bem como a inserção e reestruturação profissional de desempregados de longa duração, favorecendo o empreendedorismo social e o desenvolvimento local integrado.

“Na esfera ambiental resultam como principais benefícios a melhoria do sistema de ordenamento florestal, a valorização dos recursos endógenos bem como o reforço da vigilância e prevenção de incêndios, devido à permanência do resineiro na floresta durante os meses mais quentes do ano, principal período para o desenvolvimento dos trabalhos”, assegura David Bizarro.

A importância da recuperação desta actividade tradicional não se esgota na escala local. A fileira do sector resineiro, fortemente vocacionada para as exportações, apresenta um enorme potencial de crescimento, tendo efeitos multiplicadores que passam pelo desenvolvimento de novas técnicas, novas ferramentas e metodologias de apoio à actividade que permitam integrar valor acrescentado ao produto e fomentem a criação de uma cadeia de valor integrando o desenvolvimento industrial e comercial associado ao sector.

São exemplos destes que o Governo quer ver. Aliás, a ministra da Agricultura e do Mar confessou nestes dias a ambição de que Portugal seja conhecido como a “joalharia da agricultura”.

Assunção Cristas esforça-se ainda por convencer os jovens de que a Agricultura é uma actividade “sexy”. Isso mesmo aconteceu numa aula oferecida aos jovens centristas pela ministra, que acabou por revelar que em Portugal a taxa de execução do Proder está acima da média da União Europeia.

A ministra tem insistido em que deseja tornar a Agricultura de novo uma actividade rentável. Assunção diz mesmo que Portugal tem “belíssimos produtos diferenciados”, afirmando que os portugueses têm muito a ganhar com a valorização dos produtos nacionais.

Mas as críticas a quem destruiu a Agricultura não são esquecidas, ainda que Cristas prefira não dizer nomes. Explica a ministra que os portugueses andaram deslumbrados com tudo aquilo que vinha de fora e que era novidade e, talvez, não tivessem valorizado aquilo que era próprio da nossa terra.

O desafio tem sido lançado. A ministra quer que os portugueses inovem e criem novas tradições, alegando que “daqui a muitos anos as tradições que hoje se criam darão cartas seguramente”.

Economia enaltece Agricultura

Demasiado tarde, governos e Presidente alertaram para que era necessário voltar às terras. O mesmo Presidente que, quando era primeiro-ministro, favoreceu o sector dos serviços e se submeteu às políticas europeias de subsídios que precipitou a destruição das pescas e o abandono das terras.

Hoje, os números não mentem. O regresso à Agricultura está a dar frutos. O ministro da Economia, Pires de Lima, referiu na semana passada a importância de responder à nova procura dos consumidores por alimentos mais saudáveis e aos nichos de produção para mercados “sofisticados”.

Numa sessão realizada no âmbito da Agroglobal, Feira das Grandes Culturas, o governante sublinhou o contributo da agricultura portuguesa para o crescimento do emprego e da competitividade da economia. António Pires de Lima justificou a sua presença com a ligação que o sector tem à indústria.

O ministro referiu os dados há pouco divulgados sobre o crescimento do emprego na Europa no segundo trimestre do ano, que dão conta de um crescimento de 0,9% em Portugal (o segundo que mais cresceu em toda a União Europeia), afirmando que a Agricultura tem vindo a dar um contributo positivo para este crescimento.

Pires de Lima apontou ainda o contributo do sector para o aumento da competitividade da economia portuguesa, que subiu 15 lugares no ‘ranking’ da competitividade mundial (de 51.º para 36.º), frisando a importância das exportações.

O sector da agricultura e da alimentação representou quase 10% da balança de exportação de bens, cerca de 3.000 milhões de euros, tendo o crescimento, até Julho, sido 4% superior ao registado no mesmo período de 2013, afirmou.