Sondagens desastrosas, estratégia errática, ausência de ideias e de propostas válidas – o rol de queixas não pára de aumentar no PS. António Costa, que chegou à liderança com rugidos de leão, é cada vez mais contestado no partido.

As sondagens, como se costuma dizer, valem o que valem. Mas neste momento, para o líder socialista António Costa, valem pelo menos uma fortíssima dor de cabeça. As previsões mais recentes são demolidoras: segundo a Eurosondagem, a vantagem do PS (que há escassos dois meses aspirava a uma maioria absoluta nas eleições legislativas de Outubro próximo) é de apenas 3,1% sobre a coligação PSD/CDS; segundo a Aximage, o resultado é ainda pior, com um insignificante avanço de 1,3% em relação ao bloco de centro-direita.

Vários dirigentes socialistas mais chegados a António Costa tentam desvalorizar a queda nos abismos de um empate (ou mesmo de uma derrota, no pior cenário para o PS), interpretando os resultados das sondagens de forma pelo menos original: o que é surpreendente é que os socialistas não tenham sido ainda mais penalizados pela prisão de José Sócrates, dizem uns; ainda falta muito tempo para as eleições, dizem outros. Mas os argumentos não convencem.

E, apesar de garantir que até a “ala segurista” está “de boa fé” a tentar ajudar Costa a ganhar o sufrágio, Álvaro Beleza já reconhece: “é uma constatação que o PS tem tido dificuldade em descolar”.

Os maus resultados nas sondagens colocaram António Costa ao pior nível de António José Seguro, o anterior líder que o actual acusava de… não obter resultados.

Em termos práticos, o PS regressou aos índices de (escassa) popularidade de Janeiro do ano passado.

Mais grave ainda para António Costa: não só o PS desceu, como o PSD subiu ligeiramente e o CDS se manteve firme na sua habitual percentagem de sete por cento.

Não é preciso ser matemático para fazer contas e admitir que, por este caminho, o eleitorado português se prepara para renovar a sua confiança (ainda que reticente ou crítica) na actual coligação de governo, face à “alternativa” pouco ou nada consistente de António Costa.

Pior a emenda que o soneto

A evolução das intenções de voto dos portugueses é significativa. Logo a seguir à eleição de Costa como secretário-geral, o PS registou uma subida acentuada, ao mesmo tempo que o PCP e o Bloco de Esquerda desciam.

Esta tendência manteve-se quando o líder do PS passou a “namorar” franjas de “independentes” bem-pensantes e a referir-se a temas “fracturantes”. Mas as suas “propostas” não passaram de intenções pueris, debitadas sem convicção num estilo populista que já passou de moda: aumentar o salário mínimo, repor as pensões ao nível de 2011, apostar na cultura…

Ainda assim, apesar de toda a retórica populista, o estado de graça pouco durou. A prisão do antigo líder José Sócrates, em Novembro passado, fez a opinião pública repor os pés no chão e juntar dois mais dois.

O discurso de Costa, ao mesmo tempo, tornou-se mais labiríntico e menos focado nos temas da actualidade político-económica – aqueles que verdadeiramente interessam à massa dos eleitores.

As últimas sondagens, feitas já durante o mês de Janeiro, são o reflexo lógico de meses de deslizes e palavras ocas: a perspectiva de uma maioria absoluta desapareceu do horizonte, a possibilidade de uma maioria relativa baixou consideravelmente – e a coligação PSD/CDS recupera a passos pequenos mas seguros.

Na última semana, António Costa tentou emendar a mão, mas a emenda foi pior do que o soneto. Para surpresa geral, voltou a insistir numa “regionalização” que deixa o País indiferente ou incrédulo; defendeu a “suavização” do Tratado Orçamental europeu (isto é, o aumento do défice) precisamente quando o BCE anunciava a compra de dívida; e sugeriu um corte na taxa moderadora dos centros de saúde, um contra-senso que um simples contabilista seria capaz de lhe explicar.

Como cereja em cima do bolo, Costa voltou a baralhar o “dossier” das presidenciais, deixando ainda mais inquieto o povo socialista. Depois de um período em que parecia apoiar decisivamente uma candidatura de António Guterres, o actual líder referiu-se em tom elogioso ao antigo comissário europeu António Vitorino, exactamente o mesmo tom em que já se pronunciara sobre o académico Sampaio da Nóvoa.

Sono profundo

A conjuntura, de resto, é cada vez menos favorável a António Costa. O desemprego está em queda, o crescimento económico voltou a números positivos, o défice aponta para os 4 por cento, o défice das administrações públicas baixou quase dois mil milhões de euros, o BCE acabou de aprovar um pacote de apoios que é capaz de relançar em força a economia e a ministra das Finanças anunciou que Portugal estará em condições de pagar a dívida mais cedo do que estava previsto.

Por fim, a estratégia de Costa face ao “caso Sócrates” tem vindo a ser sistematicamente “furada” pelos deslizes de Mário Soares e de outros dirigentes socialistas que participam no “circo mediático” de Évora, criando em torno do antigo secretário-geral um insuportável ruído de fundo.

O PS parece manter-se, assim, como que petrificado pela prisão do ex-primeiro-ministro, pelos maus resultados nas sondagens e pelos bons resultados apresentados pelo Governo PSD/CDS. Nas últimas semanas, a perplexidade parece ter tomado conta de António Costa, que se vem “fazendo de morto”, nada dizendo de relevante.

Alguns dirigentes socialistas preferem usar a palavra “sono”. O PS tem dias em que “parece adormecido”, criticou o ex-ministro de Sócrates, Augusto Santos Silva, em declarações ao semanário ‘Sol’. Também o ex-ministro Correia de Campos escreveu na imprensa que “o PS tem de acordar”.

Desconforto

Estas manifestações exteriores reflectem um crescente mal-estar nas fileiras socialistas. Numa reunião da bancada parlamentar do PS, há dias, vários deputados criticaram a apatia do partido e o risco de perder o sentido das realidades em ‘dossiers’ bizantinos como a adopção por “casais gay” e em temas consensuais como a violência doméstica, não apresentando ao eleitorado uma alternativa válida à actual coligação PSD/CDS.

É expectável que todo este desconforto venha à superfície na reunião da Comissão Política do partido marcada para a próxima quinta-feira, dia 29. Um dos temas de agenda será a regionalização, que António Costa transformou nos últimos dias num “ponto de honra” que poucos socialistas entendem.

O deputado transmontano Ascenso Simões já afirmou publicamente que “colocar na agenda a regionalização, sem reinventar o municipalismo e sem reponderar a divisão administrativa, é um buraco do tamanho da dívida pública”.

E o embaixador Francisco Seixas da Costa, cuja opinião é ouvida com respeito no PS, perguntava há dias na blogosfera: “Será minha impressão ou o PS mete-se numa imensa alhada ao seleccionar, em ano eleitoral, um tema ‘fracturante’ como a regionalização?”.

Dois dias depois, no Sábado, reúne-se a Comissão Nacional do partido. Aí, o nome de António José Seguro será necessariamente mencionado, pois estará em discussão a realização de eleições directas para a escolha de candidatos a deputados. Seguro defendia abertamente este modelo, mas Costa prefere que as comissões distritais do “aparelho” tenham uma palavra na escolha.

O tema será, ao que O DIABO apurou, aproveitado pela oposição “segurista” para estragar a unanimidade de que Costa tanto parece gostar.

Uma única vitória averbou António Costa desde que está à frente do PS.

Mas essa foi conseguida na Grécia, pelo Syriza…