DUARTE BRANQUINHO

Há quem diga que as próximas eleições presidenciais serão as mais concorridas de sempre e quem se divirta em parodiar o assunto, mas até agora enquanto a esquerda se perde em guerras internas, a direita espera pacientemente. Talvez o próximo inquilino de Belém não seja difícil de prever…

Os socialistas mostram as suas divisões a propósito das candidaturas de Henrique Neto e Sampaio da Nóvoa e o PS continua à espera de um candidato unificador, em especial depois de Guterres anunciar que não o seria. À esquerda, ainda teremos seguramente um candidato comunista e provavelmente um bloquista. Com a fragmentação da extrema-esquerda, quantos mais surgirão? À direita, espera-se. Mas é Marcelo Rebelo de Sousa que está claramente à frente da corrida que, oficialmente, ainda não começou.

Mortos à nascença

Primeiro, foi o empresário e ex-deputado do PS Henrique Neto a apresentar publicamente a sua candidatura à Presidência da República, mas logo ficou debaixo de fogo. Henrique Neto tem sido um dos mais fortes críticos de José Sócrates ao longo dos últimos anos, chegando a comparar o ex- -primeiro-ministro com “um vendedor de automóveis” e mostrando-se também pouco surpreendido com a prisão do antigo líder socialista, dizendo que “os indícios eram mais que muitos”. Tais posições levaram ao início do “fogo amigo”, vindo do Largo do Rato.

José Lello, deputado socialista e antigo ministro do Desporto, iniciou as hostilidades, comparando o candidato ao antigo comediante e político italiano Beppe Grillo e dizendo que “destratava publicamente José Sócrates e, ao mesmo tempo, pedia ao presidente da sua federação para que o integrasse nas listas de deputados”. deputado socialista André Figueiredo mostrou-se de acordo: “Concordo. Há que defender Portugal de gente hipócrita, cínica e falsa”.

Teve o apoio imediato do deputado socialista André Figueiredo que afirmou: “Concordo. Há que defender Portugal de gente hipócrita, cínica e falsa”. Vários socialistas menorizaram a importância da candidatura de Henrique Neto e Manuel Pizarro chegou mesmo a dizer que ele “não conta do ponto de vista político dos cidadãos” e que é “irrelevante para o PS”.

Sampaio da Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa, foi o presidenciável à esquerda que se seguiu e com o apoio de Mário Soares. Mas também ele foi rapidamente atacado. O secretário nacional do PS, Sérgio Sousa Pinto foi arrasador ao escrever no Facebook: “Assistimos com horror à demagogia venezuelana do Podemos e o fenómeno político latino-americano apareceu-nos pela porta traseira. Esta não é a minha esquerda”.

O D. Sebastião dos socialistas era António Guterres, mas este pôs-se de fora da corrida a Belém, afirmando: “Não sou candidato a ser candidato. Sempre me interessei pelo serviço público e pretendo continuar a fazê-lo, mas o que gosto mais de fazer é o tipo de função que tenho actualmente, que permite ter uma acção permanente e directa a sobre o que se passa no terreno.” Pelo que se lê nas entrelinhas, o antigo primeiro-ministro socialista pretende mesmo avançar para a liderança da ONU.

E à direita?

Não se esperando grandes resultados das candidaturas de Paulo Morais ou Castanheira de Barros, os dois presidenciáveis à direita são Pedro Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa. O primeiro, remeteu em Fevereiro uma eventual candidatura para Outubro e o segundo, que tem mantido um silêncio ensurdecedor, também aguarda pelo tempo certo para anunciar a sua intenção.

Santana Lopes afirmou recentemente que, no dia 19 de Julho do ano passado, deu uma entrevista ao semanário “Expresso” em que disse que “teria muito gosto em que o candidato da esquerda fosse o engenheiro António Guterres, que o achava mais estimulante e, por isso, neste momento, é com pena que o vejo retirado da corrida presidencial”. Recusou que a ausência de Guterres torne as vitória mais fácil para a direita, afirmando que “aquilo que é óbvio demais é sempre de desconfiar”. Lamentou até que Guterres não se candidate, dizendo: “Se eu pudesse ser candidato adoraria defrontar o engenheiro Guterres.”

Também Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o facto de o antigo primeiro-ministro socialista não se candidatar a Presidente da República é “uma certa perda para o PS, para a esquerda em geral, e, porventura, para uma parte significativa dos portugueses, que gostaria que ele fosse candidato presidencial e, porventura, até que fosse Presidente da República”. Em relação sua candidatura, disse que nunca ponderou tal até agora e que “quem tiver de ponderar pondera a partir de Outubro”.

Marcelo Rebelo de Sousa, mostrando que sabe o que está em causa e a razão da sua cautela perante a precipitação de uma exposição mediática prematura, afirmou que “quem governa é o Governo, não é o Presidente da República e a grande escolha dos portugueses este ano é a escolha de quem vai governar o país nos próximos anos, numa situação difícil, à saída da crise, com a Europa também numa situação ainda de arranque, mas complicada, mas não se sabendo o que se vai passar com a Grécia”.

Para o professor, “essa é a grande questão deste ano. As presidenciais são a questão do ano que vem, não a deste ano”, reforçando: “Ainda hoje ouvi Pinto Balsemão dizer, muito prudentemente, que não há razão para haver uma fuga para a frente em relação a candidaturas presidenciais. Vai haver eleições legislativas e depois haverá tempo para as presidenciais”.

Concluindo, à direita continua a vazio, pelo menos até Outubro. No entanto, se ao que tudo indica, Marcelo Rebelo de Sousa avançar, chegará a Belém sem grandes dificuldades.

Paródia popular

Os candidatos à Presidência da República têm motivado uma paródia nas redes sociais da Internet, ou não estivéssemos em Portugal… Muitos anunciam as suas candidaturas fictícias e ironizam o facto de haver já vários candidatos. Mas será esta atitude apenas boa disposição? De facto, há a ideia generalizada que o Presidente deve ser uma figura consensual e não uma reprodução do combate partidário a outro nível. Mas não estaremos também perante uma perspectiva de que o Presidente é um órgão que pura e simplesmente “não interessa” e que “nada decide”?

Seja como for, é nestas eleições que habitualmente se mostra a grande divisão entre esquerda e direita, mesmo que os candidatos não o admitam – até por conveniência eleitoralista. É por isso que, fora de ironias, os socialistas andam nervosos. A “vitória garantida” de António Costa nas próximas eleições legislativas não passa de um desejo que já se percebeu que está longe de ser tão óbvio e voltar a ter um Governo de centro-direita e um Presidente saído do PSD é o pesadelo político do PS.

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