HUGO NAVARRO

O empate pode parecer um resultado equilibrado, mas em política não há nada pior do que a indefinição. Se, como as últimas sondagens indicam, o PS e a coligação de centro-direita obtiverem resultados muito semelhantes nas próximas eleições, a economia nacional pode ficar bloqueada.

O que distingue, em termos programáticos, o PS da actual coligação de centro-direita no poder? Na verdade, muito pouco: o “centrão” propõe, basicamente, o mesmo tipo de sociedade, de economia e de rumo social, embora com ‘nuances’ que são mais retóricas do que reais.

Aquilo em que eles realmente diferem resume-se nisto: quando um está no Governo, o outro está na oposição. E vice-versa.

Não surpreende, assim, que o “centrão” da própria sociedade, essa maioria quase-silenciosa que faz e desfaz Governos nas eleições, sentando lá ora um ora outro, reflicta essa tendência comum – e se divida entre os dois grandes blocos afins na hora de escolher.

A cinco meses das próximas eleições legislativas, as sondagens de opinião reflectem precisamente esse “empate técnico” a que chegou a política portuguesa.

Se fôssemos hoje a votos – indica o último estudo da Eurosondagem, com data do passado dia 15 – a coligação PSD/CDS ficar-se-ia pelos 33,6 por cento, mas o PS não conseguiria mais do que 38,1 por cento.

Mas uma outra sondagem, esta da Aximage e divulgada também na semana passada, deu resultados ainda mais paritários: 37,3 por cento para o PS, 37,2 por cento para a coligação de centro-direita: uma diferença de apenas 0,1 por cento, isto é, o empate puro e simples.

Estas pequeníssimas diferenças flutuantes (no máximo, quatro e meio por cento, equivalentes a seis deputados), que podem ainda ser invertidas para um lado ou para outro sem grande alteração prática, significam que nenhum dos dois blocos em disputa estaria em condições de obter uma maioria absoluta para governar sem sobressaltos.

E é aqui que começam os problemas.

Água choca

Esta potencial paridade de voto nos “dois grandes” indicia um aparente equilíbrio na sociedade portuguesa. Mas os equilíbrios, sobretudo em política, nem sempre são desejáveis. Não porque, ao vencer um dos blocos, o outro tenha para oferecer uma alternativa radicalmente diferente, mas apenas porque o derrotado não descansará enquanto não substituir o vencedor. E se essa ânsia de poder é capaz de desestabilizar um Governo eleito com maioria absoluta, muito mais será capaz de infernizar a vida a um Executivo assente numa frágil maioria relativa.

Qualquer que fosse o vencedor relativo das próximas eleições, é certo e sabido que dificilmente conseguiria fazer passar no Parlamento a legislação prometida no seu programa. Estaríamos, pois, em presença de uma situação que António Guterres um dia definiu como “pântano” – uma “água choca” que nada pode fertilizar. A guerrilha parlamentar e a impotência governativa instalar-se-iam. E as consequências afectariam todos os portugueses, pois o resultado imediato dos impasses “pantanosos” é o bloqueio da própria economia.

Que empresário investiria fortemente numa situação de instabilidade e sob a permanente ameaça de novas eleições (antecipadas)? Como definir a estratégia nacional no quadro da União Europeia, com a retaguarda parlamentar a anular qualquer caminho que se escolhesse? Tudo seria diferente, claro, se em São Bento cada deputado votasse pela sua cabeça e apenas de acordo com a sua consciência. Mas a política não se faz com sonhos: a realidade mostra-nos dois grandes blocos em luta pelo poder, um PCP com um peso variando entre os 7 e os 10 por cento e uma infinidade de pequenos grupelhos esquerdistas sem qualquer expressão considerável. Tudo terá de ser definido, portanto, entre o PS e a coligação PSD/CDS.

A própria experiência do passado mostra a impraticabilidade de um Governo assente numa maioria relativa. Nos últimos quarenta anos, o único Executivo a completar o mandato nestas condições foi aquele que António Guterres chefiou entre 1995 e 1999. E a experiência parece ter-lhe bastado: reeleito de novo com escassa vantagem, Guterres acabou por desistir dois anos depois, amaldiçoando o tal “pântano” e rumando a uma carreira internacional como funcionário da ONU.

Conversa acabada

Os “dois grandes” têm consciência da inutilidade de uma vitória relativa. Por isso, mesmo perante a óbvia semelhança de programas eleitorais, os seus líderes esforçam-se por dramatizar as diferenças.

“Os programas económicos são divergentes, os modelos económicos são diferentes, a forma como o PS vem colocando o problema político e económico não é conciliável com os objectivos que temos”, afirma Passos Coelho. “Os portugueses vão ter a possibilidade de escolher dois caminhos absolutamente distintos nas suas prioridades e forma de governação”, afirma António Costa.

Nada mais falacioso: o que ambos querem dizer é que, por mais pequenas que sejam as diferenças, nenhum deles conseguirá governar sem uma maioria clara.

Os observadores mais experientes encaram, contudo, a actual tendência para o empate com algum relativismo: falta ainda muito tempo para o acto eleitoral (que acontecerá em Outubro) e, em cinco meses de campanha eleitoral, (quase) tudo pode acontecer.

O que, pelos vistos, não acontecerá é um mirífico “encontro de vontades” capaz de juntar o PS e a coligação PSD/CDS num Governo de “unidade nacional”. Possivelmente, nem um mero acordo pré-eleitoral de boas intenções será alcançado entre os dois blocos – uma “missão impossível” que, com obstinação, o Presidente Cavaco Silva atribuiu à ponta final do seu mandato, contra tudo e contra todos.

Passos Coelho já o afirmou: “Não há, no actual contexto, nenhuma hipótese de um governo juntando CDS, PSD e PS”. António Costa já o repetiu: “Não há nenhuma possibilidade de entendimento entre o PS e esta coligação de direita”.

Só falta ouvir o veredicto do eleitorado.

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