A Revolução Nacional de D. João I e do Povo

A Revolução Nacional de D. João I e do Povo

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A capacidade de liderança do Mestre de Avis levou os representantes do clero e da nobreza a imitarem o povo e escolhê-lo como rei

Faz esta semana 631 anos que D. João, Mestre de Avis, matou o conde Andeiro e pôs em marcha uma revolução nacional que confirmou Portugal como país independente. Um assassínio patriótico, contado por Fernão Lopes de tal maneira que, lendo a sua crónica, parece que todos estivemos lá, nesse dia 6 de Dezembro de 1383.

Quando subiu ao trono, em 1367, o rei D. Fernando herdou uma grande fortuna que lhe foi deixada pelo pai, D. Pedro I. Mas as três guerras perdidas com Castela e as sequelas da Peste Negra tiveram graves consequências económicas, obrigando o monarca a desvalorizar várias vezes a moeda nacional.

Tomou medidas que ficaram para a história, como a Lei das Sesmarias, em 1375, e a criou a Companhia das Naus, mas que tiveram poucos resultados no curto prazo. O carácter do rei cognominado “o Formoso” também influenciou a política. A paixão por Leonor Teles, mulher casada, levou-o a violar um tratado que o obrigava a casar com uma princesa espanhola, criou má vizinhança que culminou com uma nova guerra com Castela, lançou as bases para a sucessão de tratados que deixaram Portugal na dependência de Inglaterra e reforçou a influência de um sector da nobreza, encabeçado pela família da nova rainha.

Os desaires que sofreu como chefe militar permitiram que Lisboa fosse ocupada pelos exércitos de Henrique II de Castela, em 1373, e cercada por Juan I, em 1382. Camões sintetizou assim o reinado de D. Fernando: “Um fraco rei faz fraca a forte gente”.

O último soberano da primeira dinastia morreu em Outubro de 1383 e dias depois já D. Leonor Teles assumia abertamente a sua condição de amante (“barregã”, como lhe chamava o povo) do nobre galego João Fernandes Andeiro.

Galego morto à cutilada

unnamed-1No dia 6 de Dezembro de 1383, o Mestre da Ordem Militar de Avis, D. João (filho ilegítimo de D. Pedro I e, como tal, meio-irmão do defunto D. Fernando) dirigiu-se ao palácio real – o Limoeiro (Paço de a-par de São Martinho), em Lisboa, onde hoje funciona o Centro de Estudos Judiciários – com um grupo de amigos armados.

Depois de apresentar cumprimentos à rainha D. Leonor Teles e aos nobres que a acompanhavam, D. João pediu ao conde de Ourém, o galego João Fernandes Andeiro, que o acompanhasse porque precisava de falar-lhe a sós. O conde desconfiou, fez sinal aos seus homens para que fossem buscar armas, mas acompanhou, sozinho, o Mestre de Avis.

Num recanto do salão, junto à janela, trocaram umas palavras em voz baixa. De repente, o filho bastardo de D. Pedro I empunhou um cutelo comprido e desferiu um golpe na cabeça do amante da rainha. O conde Andeiro não morreu logo e ainda tentou chegar aos aposentos de D. Leonor Teles, mas um dos companheiros do Mestre de Avis, Rui Pereira, acabou com ele a golpes de espada.

Embora fosse filho de rei, D. João, na altura com 26 anos, não sonhava com a coroa. Assassinou o conde Andeiro porque temia pela própria vida: fora avisado de que a viúva do seu meio-irmão e o amante desta conspiravam para matá-lo. Foi por medo que o Mestre de Avis apunhalou o galego.

Insurreição

Depois, limitou-se a montar o cavalo do poder, estribado no conselho que o cronista Fernão Lopes atribuiu ao mentor do golpe, Álvaro Pais, um político experiente e muito popular em Lisboa, que tinha sido chanceler-mor de D. Pedro I e de D. Fernando: “Dai o que não é vosso, prometei o que não tendes e perdoai a quem não vos errou.”

Quando os lisboetas souberam do sucedido, a capital do reino entrou em alvoroço. O povo acorria, alarmado com os gritos de Gomes Freire, o pajem de D. João, que cavalgava a galope pelas ruas: “Matam o Mestre! Matam o Mestre nos paços da rainha! Acudi ao mestre que o matam!” O pajem dirigiu-se a casa de Álvaro Pais, que congeminara a intriga patriótica que culminou na morte do Andeiro, a quem odiava. Ao ouvir o clamor, Álvaro Pais montou a cavalo e começou a gritar: “Acudamos ao mestre, amigos, acudamos ao Mestre, que é filho de el-rei D. Pedro!”

Juntou-se uma multidão às portas do palácio, ameaçando invadi-lo. Para evitar que a situação descambasse numa revolta popular descontrolada, o próprio Mestre D. João, veio à janela principal do Limoeiro tentar acalmar os ânimos: “Amigos, sossegai, que eu estou vivo e são, a Deus graças.”

Mas não sossegaram: indignados com recusa do bispo de Lisboa em mandar tocar os sinos, os populares desceram à Sé, quase paredes-meias do palácio, e, lembrando que o bispo, D. Martinho, era castelhano, atiraram-no da torre, juntamente com dois clérigos do seu séquito. Os revoltosos dirigiram-se então à judiaria para matar e saquear as casas e lojas dos moradores. Os judeus foram salvos ‘in extremis’ por um magistrado que invocou o nome do Mestre de Avis.

Apoio da ‘arraia-miúda’

D. João ficou receoso com o alcance do motim. Sabia que o rei de Castela não tardaria a invadir Portugal e temia pela sua vida. Pensou em fugir para Inglaterra, mas desistiu. Enviou emissários a Alenquer, para onde se retirara D. Leonor Teles, pedindo em casamento a viúva do seu meio-irmão, cujo amante assassinara. Mas a rainha, compreensivelmente, recusou.

Quando os proprietários e mercadores, pressionados pelos mesteirais (homens dos ofícios) e pela arraia-miúda da capital lhe declararam o apoio e prometeram pegar em armas e combater por ele e pela independência de Portugal, o Mestre de Avis assumiu o compromisso de encabeçar a revolução. Aceitou o título de Regedor e Defensor do Reino e preparou a resistência ao invasor.

Nos dois anos seguintes, Portugal foi palco de duras batalhas entre os defensores de um rei português e os castelhanos e os apoiantes de um monarca estrangeiro.

O assassínio do conde Andeiro e a sublevação de Lisboa agudizaram o clima de tensão em que o país vivia desde a morte de D. Fernando. As derrotas deste rei nas três guerras que travou com Castela levaram à assinatura do Tratado de Salvaterra de Magos, que impôs o casamento da sua filha única, D. Beatriz, com o rei castelhano Juan I. Quando D. Fernando morreu, o soberano de Castela quis receber a herança da mulher.

A maioria dos nobres portugueses, com a rainha viúva D. Leonor Teles à cabeça, seguiu o direito feudal e reconheceu a soberania de D. Beatriz. Mas outros membros da fidalguia, tal como a maior parte “homens bons” dos concelhos – proprietários de terras e mercadores -, além do povo pobre, opôs-se a que a coroa de Portugal fosse enfeitar a cabeça de um estrangeiro.

A revolta de Lisboa foi seguida por sublevações em Beja, em Portalegre, em Estremoz, no Porto. Muitas cidades e vilas tomaram voz pelo Mestre de Avis, que conseguiu fazer-se reconhecer como o rosto da independência, num processo decisivo para a formação da identidade nacional.

Eleito em Coimbra, legitimado em Aljubarrota

A sua capacidade de liderança durante o cerco de Lisboa, em 1384, e a resistência à invasão castelhana levou os representantes do clero e da nobreza a imitarem o povo e escolhê-lo como rei. O processo que formalizou essa eleição culminou com as cortes de Coimbra, em Abril de 1385.

Aí, a argumentação patriótica do legista (perito em leis) João das Regras seguiu uma estratégia explicada de forma brilhante na crónica de Fernão Lopes. Primeiro, convenceu os presentes de que D. Beatriz e o seu marido Juan I de Castela não tinham direito a herdar a coroa de Portugal.

A seguir, afastou também da sucessão os filhos de D. Pedro e D. Inês, infantes D. Dinis e D. João – que entretanto tinham declarado o seu apoio ao rei castelhano. Reconhecendo que o trono estava vago, João das Regras concluiu que a responsabilidade dos procuradores às cortes era… escolher um novo rei. E não era muito difícil encontrar o único candidato que já tinha provas dadas de ser capaz de lutar pela independência nacional e defender o povo, sendo, além do mais, filho de rei.

unnamedApesar da argúcia da exposição do doutor João das Regras, ainda havia alguns membros da nobreza e do clero renitentes em aceitar como rei o Mestre de Avis. Aí entrou outro tipo de persuasão, protagonizado pelo condestável D. Nuno Álvares Pereira, que embora hoje seja venerado nos altares como São Nuno de Santa Maria, não hesitou em apelar ao ‘argumentum baculinum’ para convencer os recalcitrantes. E D. João, Mestre de Avis, acabou mesmo por ser aclamado nas cortes de Coimbra D. João I, rei de Portugal.

A legitimação definitiva, essa, teve-a o novo rei quatro meses depois: a batalha de Aljubarrota.