183189_192161620808568_6202532_n

Afirmam-se os paladinos do povo, mas na hora de agir quem sai prejudicado pelas suas políticas é… o povo. Há uma grande diferença entre aquilo que o PS diz e aquilo que o PS faz.

No passado dia 24 de Junho, os verdadeiros protectores do povo, os bombeiros, foram despejados do quartel mais moderno do País. Despejados pela classe política, neste caso pelos políticos da Câmara Municipal de Lisboa, controlada pelo Partido Socialista.

O despejo decorreu quase como um ‘raid’ militar. Sem aviso, para que os Media não aparecessem (e, de facto, apenas O DIABO marcou presença), os bens pessoais e os camiões históricos dos bombeiros, porque era aqui que funcionava o Museu do Bombeiro, foram colocados na rua sem cerimónia nem honra.

A bandeira nacional foi arriada apressadamente, quase como se de uma descolonização apressada se tratasse, e provavelmente atirada para um qualquer caixote cheio de mofo, se não mesmo para o caixote do lixo. O letreiro que dizia “Regimento de Sapadores de Bombeiros” foi arrancado, e numa das portas do quartel, aquela que dava para o museu, uma folha A4 avisava: “Museu do Bombeiro de Lisboa está encerrado ao público neste espaço” – não referindo que era um encerro (até talvez um enterro) permanente.

O edificio foi ra_pidamente vedado
O edifício foi rápidamente vedado

Pela tardinha, conforme o sol caía e a noite se impunha, camiões do exército transportaram os veículos históricos, que no seu tempo tantas vidas salvaram, para parte incerta. Talvez lhes seja construído um armazém sem história nem classe, como o novo Museu dos Coches, ou talvez sejam atirados para a sucata. Os bombeiros, esses, ficam esquecidos, apenas relembrados pela classe política quando, tragicamente, morrem ao serviço da Pátria a combater incêndios.

Este era o quartel mais moderno da cidade de Lisboa, bem equipado e localizado numa posição estratégica, onde funcionam importantes serviços de protecção civil. Em caso de terramoto ou outra calamidade, seriam os primeiros a acudir aos grandes aglomerados da zona, como o Centro Comercial Colombo ou o complexo do Estádio da Luz. Era também aqui que estava localizado o “Siresp, Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal”, centro nevrálgico da protecção civil. Porque é que um quartel com apenas 10 anos vai agora ser demolido?

Camião histórico dos bombeiros à frente do ex-quartel.
Camião histórico dos bombeiros à frente do ex-quartel.

Porque há necessidade de se expandir o Hospital da Luz, assim o diz, preto no branco, o plano intitulado “Extensão do Hospital da Luz (lote 40)”. Apesar de ter sido vendido em hasta pública, o único concorrente era a empresa Espírito Santo Saúde. Os terrenos foram alienados por uns meros 16 milhões de Euros, apesar de o quartel ter custado 12 milhões a construir, não contando com o valor do equipamento.

Não deixa de ser curioso que um dos envolvidos neste plano seja o vereador Manuel Salgado, arquitecto que desenhou o hospital, primo de Ricardo Salgado e actual responsável pelo pelouro do Urbanismo e do Planeamento Estratégico.

Fúria privatizadora

Manuel Salgado é também o autor da recente proposta de desmantelamento da histórica Estação de Santa Apolónia. Talvez o estilo arquitectónico seja demasiado “passé” para a nova geração de socialistas: afinal, este belo edifício já data de 1865, símbolo de um período de prosperidade e fomento em que Portugal começou, com enormes dificuldades, a entrar na modernidade europeia. Apesar de ser um “ex libris” da nossa capital, e um importante centro de transportes, os socialistas querem transformar todo o complexo num… jardim. Nas palavras do vereador, “não faz sentido” existir uma estação de comboios no centro da cidade. Mais um local para futuramente privatizar?

O próximo alvo a abater?
O próximo alvo a abater?

Privatizar parece ser a palavra de ordem, que também já vitimou o espaço dedicado à actividade desportiva no Moinho do Penedo, em Monsanto. Construído durante a liderança de Pedro Santana Lopes, que restituiu Monsanto à sua velha glória, o local tinha um espaço de basquetebol onde os cidadãos da capital se podiam exercitar ao mesmo tempo que respiravam algum ar puro. Ser o “pulmão da cidade” fora uma das razões para a existência de Monsanto, cujo ordenamento foi determinado por Salazar nos anos 30.

Mas, para os socialistas, um restaurante de luxo é, pelos vistos, mais importante do que o bem-estar da população – e o espaço foi privatizado, existindo já um aviso no local a informar os cidadãos de que perderam o direito a mais um espaço, por decreto da CML.

Não deixa de ser sintomático que a Edilidade não concessione o Miradouro de Monsanto, onde já existe um restaurante completamente decrépito, abandonado há mais de uma década. Esta privatização é da autoria do Vereador Sá Fernandes, que também tentou apagar uma página da história de Portugal ao propor retirar os símbolos do Império da… Praça do Império (talvez o próximo passo fosse renomear o local).

Pagar a dívida

Estes são apenas alguns dos muitos casos que estão a deixar perplexos os lisboetas, enquanto a autarquia afirma que as privatizações são necessárias para pagar a enorme dívida municipal.

“Eu reduzi a dívida que herdei em 40%, o senhor primeiro-ministro aumentou em 18% a dívida que herdou. Esta é a diferença entre nós e esta é a diferença entre quem gere bem e quem gere mal”, comentou recentemente António Costa, o ex-autarca da capital e hoje líder do PS. Omitiu “apenas” que uma enorme fatia da diminuição de dívida se deve ao facto de o Governo de Pedro Passos Coelho ter procedido a um verdadeiro resgate financeiro da CML, assumindo centenas de milhões de euros de défice. Curiosamente, uma das formas adoptadas por Costa para diminuir a divida foi o aumento das taxas camarárias – nada de diferente do agravamento de impostos decidido pelo Governo no início do seu mandato, e que o PS tão duramente criticou.

Similarmente, os socialistas continuam a criticar as privatizações decididas pela actual coligação no poder. Mas o precedente mostra que não hesitam em fazer exactamente o mesmo, pelas mesmas razões. Aliás, como já noticiado por O DIABO, a maioria das privatizações feitas pela coligação estava expressamente inscrita nos planos do PS.

Faz o que digo, não o que faço…

COMPARTILHAR