dbDUARTE BRANQUINHO

Os ventos não correm de feição ao Partido Socialista nesta campanha eleitoral. Passada a polémica dos cartazes, surge de novo Sócrates no caminho e uma sondagem interna do PSD põe pela primeira vez a coligação “Portugal à Frente” com seis pontos de vantagem sobre os socialistas. Críticos afirmam que o PS não percebeu que o País mudou.

Se continuar assim, o que não mudam são as cores partidárias do próximo Governo.

A chuva caiu forte no passado domingo em Lisboa, apesar de estarmos em pleno Agosto, mas politicamente parece que se concentrou no Largo do Rato. A vitória anunciada por António Costa parece cada vez mais difícil, mas como nas vindimas temos que esperar até ao lavar dos cestos.

De Évora, sem amor

Fosse Sócrates um “preso político”, como pretende, e não poderia escrever a quantidade de cartas e de fazer as declarações que faz à Imprensa. Mas, como é apenas um político preso, continua a escrever de Évora para o mundo – o seu mundo. O que acontece é que, cá fora, as coisas mudaram, por muito que isso custe ao antigo primeiro-ministro socialista.

Numa carta enviada à SIC e ao “Jornal de Notícias”, datada de 15 de Agosto, mas revelada no dia 20, José Sócrates repete uma acusação já feita em Junho, escrevendo: “À medida que o tempo passa cresce a legítima suspeita de que este processo tem como verdadeira motivação condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS”.

O que à primeira vista parece um apoio ao seu partido, talvez seja afinal mais uma farpa numa guerra pessoal contra o actual secretário-geral do PS. Pelo menos, foi que deu a entender Luís Marques Mendes quando comentou a mais recente carta de Sócrates durante o “Jornal da Noite” da SIC.

Primeiro, considerou as declarações como “mais do mesmo” e, no que respeita à acusação de que o processo serve para “impedir a vitória do PS”, uma “ilusão”.

Já sobre a decisão de António Costa em não visitar Sócrates na prisão, Marques Mendes disse que as relações entre ambos “nunca foram boas” e clarificou, “é preciso que o povo saiba que as relações entre Sócrates e Costa são péssimas”. Sem papas na língua, Marques Mendes afirmou que “Sócrates diz cobras e lagartos de António Costa”. Talvez esta inimizade explique certas atitudes que surgem camufladas como luta política…

Sondagens há muitas

Para agravar o estado da já debilitada campanha socialista, foi revelada uma sondagem interna que dá pela primeira vez uma vantagem de seis pontos percentuais à actual maioria de governo. A sondagem sobre intenções de voto, que a empresa Pitagórica realiza semanalmente para o PSD, deu desta vez um resultado diferente do empate técnico entre PS e coligação.

A euforia dos partidos da coligação “Portugal à Frente” não foi contida, apesar de esta ser uma sondagem “da casa”. E, como todos sabemos, santos da casa não fazem milagres. Ainda assim, este resultado pode antecipar um resultado nas sondagens feitas para a Imprensa, já que a coligação tinha vindo a subir nas intenções de voto registadas nas sondagens publicadas.

Seja como for, esta notícia deu naturalmente ânimo ao PSD e ao CDS-PP e obriga o PS a repensar a sua estratégia, que claramente não está a funcionar.

Promessas

António Costa habituou-se a fazer muitas promessas nesta campanha e continua a insistir na mesma táctica. Depois de o PS admitir que podem ser criados 207 mil empregos até 2017, o secretário-geral dos socialistas viu-se forçado a esclarecer, em Viana do Castelo, à margem das festas da Senhora da Agonia, explicando: “Eu não prometo 207 mil postos de trabalho, eu comprometo-me com um conjunto de medidas de política, que tendo por prioridade a criação de emprego, têm um estudo técnico a suportá-lo, que estima um con- junto de resultados, na dívida, no crescimento, na redução do défice e também no emprego.”

Apesar de António Costa ter afirmado que “convém não confundir promessas com aquilo que são estimativas de resultados das promessas”, a coligação reagiu, como esperado, e Paulo Portas recordou que, em 2005, José Sócrates prometeu criar 150 mil postos de trabalho que “depois não existiram”.

Outro país

Mas será que o problema do PS é continuar agarrado a um Portugal refém da ‘troika’? Helena Matos, no jornal digital “Observador”, es- creveu que “o maior problema dos socialistas nesta campanha não são os cartazes trapaceiros. Ou o facto de Sócrates estar preso. O maior problema do PS nesta campanha resulta de não perceber que o país mudou”.

O diário “Público” falou com figuras do PS que “exigem” a António Costa que “lidere agenda mediática”. Mas será possível? Neste momento só tem “liderado” pela negativa. Em relação a esta exigência, Helena Matos questiona, no artigo citado: “Exigem o quê? Esta gente não percebeu nada. Não percebeu que as eleições de 2009 foram as últimas (espero que por muito e muito tempo!) em que os eleitores votavam como se fossem clientes num hiper em promoções: mesmo que metade daquilo fosse mentira só os parvos é que iam desperdiçar tanta oferta.” Mas afirma ainda que, “não quer isto dizer que os portugueses estejam menos disponíveis para votar PS do que estavam em 2009”. Pois não. O comportamento do eleitorado não é tão previsível como se possa pensar.

Impasse

Apesar de tudo, o cenário de empate entre a coligação e o PS é o mais provável e aí surge a questão do papel a desempenhar pelos novos partidos que podem alcançar representação parlamentar. A elegerem deputados, será que o Livre, de Rui Tavares, ou o Partido Democrático Republicano, do antigo Bastonário da Ordem dos Advogados Marinho e Pinto, possibilitarão a formação de um governo socialista? Tudo continua em aberto até dia 4 de Outubro.

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