A proposta libertação condicional do ex-primeiro-ministro lança de novo uma sombra sobre a pré-campanha dos socialistas: agora que Sócrates estava quase esquecido, o Ministério Público retirou o fantasma do baú e pô-lo de novo no centro das atenções. Não se vai falar de outra coisa…

À hora de fecho desta edição não se sabia ainda como e quando seriam aplicadas novas medidas de coacção ao antigo primeiro-ministro José Sócrates, a quem o Ministério Público pretende levantar o regime de detenção. Seja qual for a modalidade escolhida, com pulseira electrónica no tornozelo ou sem ela, Sócrates voltou a ganhar lugar cativo na ribalta nacional, perturbando a unanimidade sossegada com que o líder do PS, António Costa, contava para se lançar na campanha eleitoral. A partir de agora, congressos e propostas, programas e medidas económicas vão ser ofuscados pela omnipresença do homem que nos últimos meses tem ocupado a cela 44 da cadeia de Évora.

Sintomaticamente, foi logo à saída da Convenção do PS, sábado passado, que António Costa voltou a ser confrontado com a fatal questão. A decisão do Procurador do Ministério Público de propor novas medidas de coacção para José Sócrates tinha sido conhecida pouco antes, em Évora, e o batalhão de jornalistas que aguardava o líder do PS à porta do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, já não quis saber de propostas para diminuir o desemprego ou medidas para estimular a economia. O tema era só um: Sócrates.

Conformado com a força dos factos, Costa lá ensaiou um sorriso amarelo e limitou-se a dizer: “Sabem que eu, decisões judiciárias, não comento”. Mas naquele sorriso amarelo havia o reconhecimento de que, de agora em diante, o tema Sócrates lhe sairá na rifa ao longo de toda a campanha eleitoral.

“Andar com uma anilha?”

Foi o próprio advogado de José Sócrates quem deu a conhecer à imprensa a proposta do Procurador Rosário Teixeira, ao terminar a visita que no sábado fez ao seu cliente no Estabelecimento Prisional de Évora. Segundo João Araújo, o Ministério Público entende que o antigo primeiro-ministro pode aguardar em casa a formulação da acusação e o julgamento, mas sob condição de trazer uma pulseira electrónica à volta do tornozelo.

Mas a vontade de Rosário Teixeira não vale tudo, neste caso. Tudo indica que o próprio Sócrates estará pouco disposto a aceitar a pulseira – aceitação que equivaleria a dar razão ao Ministério Público, que na sua proposta invoca o risco de fuga e de perturbação do processo. A defesa de Sócrates, que está em prisão preventiva há quase 200 dias, deverá fazer saber até hoje, terça-feira, a posição do ex-líder socialista. Mas o falador João Araújo já comentou, em Fevereiro, a hipótese de detenção domiciliária com pulseira electrónica que agora foi proposta: “Não vejo que o senhor engenheiro Sócrates se sujeitasse a uma coisa dessas”, disse então Araújo. “Andar com uma anilha? Nem os pombos… Não acredito, mas isso é uma questão dele. Eu, pessoalmente, nunca toleraria uma coisa dessas”.

Em cima das eleições

Independentemente do que possa suceder na frente judicial, é na frente política que José Sócrates ameaça fazer mais “estragos”: no caso de regressar a casa, é certo e sabido que os telejornais terão garantidas aberturas que ofuscarão qualquer outro tema que António Costa queira chamar à ordem do dia; no caso de permanecer detido em Évora, o risco para o actual líder do PS será ainda maior, pois os processos referentes a arguidos em prisão preventiva correm com maior celeridade, o que significaria que uma acusação formal com vista a julgamento poderia “cair” mesmo em cima da data das eleições.

A curto prazo, o regresso de José Sócrates ao seu luxuoso domicílio da Rua Braancamp, no centro de Lisboa, a dois minutos da sede socialista do Largo do Rato, poderá ter efeitos inesperados. Embora o ex-primeiro-ministro estivesse, em tal eventualidade, impedido de contactar “qualquer dos intervenientes no processo ou qualquer pessoa que possa perturbar o inquérito”, e ainda proibido de sair do espaço que fosse delimitado pelo juiz Carlos Alexandre (em princípio, o espaço do seu apartamento), a verdade é que nada impediria Sócrates de agarrar no telefone e matar saudades dos seus velhos camaradas de partido.

Cenários loucos

Há muito que os mais fiéis seguidores de Sócrates no PS aguardam o seu “regresso em glória” – não já para disputar a liderança do partido e candidatar-se de novo a governante, mas para cumprir aquilo que consideram “um destino”: chegar à Presidência da República.

Assim, ao mesmo tempo que está indiciado pelos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção, José Sócrates poderia ser levado pelos seus seguidores a acreditar na viabilidade daquilo a que um informador socialista d’O DIABO define como “cenário louco”: a sua eventual candidatura a Belém.

Do ponto de vista formal, nada obstaria a que Sócrates se candidatasse, já que se encontra no pleno uso dos seus direitos políticos. E ainda que muitos socialistas acreditem que a “ala socratista” “não teria o atrevimento” de avançar com a ideia, o certo é que o passado mostrou já que, em matéria de atrevimento, a política portuguesa não conhece limites.

Este “cenário louco”, que poderia ser impulsionado por manifestações “de desagravo” à porta de Sócrates, jantares “de apoio” e entrevistas do próprio em reacção a uma “vaga de fundo”, ver-se-ia ainda reforçado se, como tudo indica, o putativo candidato actual dos socialistas a Belém, Sampaio da Nóvoa, mantiver o discurso “empastelado” e errático que tem caracterizado as suas mais recentes aparições públicas. A última das quais, por sinal, na Convenção do PS de sábado passado – um conclave socialista que só ficará na pequena história política nacional por ter assinalado o regresso de José Sócrates à ribalta…

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