Ter “canudo” ainda compensa… se for para emigrar

Ter “canudo” ainda compensa… se for para emigrar

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Com um novo ano lectivo a arrancar e com mais uma fornada de 38 mil caloiros a chegar ao Ensino Superior, O DIABO fez contas: quanto custa hoje obter um grau universitário e que futuro podem esperar os licenciados de amanhã?


Os dados são dos últimos três anos, e são os de referência para o ano lectivo que agora começa. Para iniciar a história, fique o leitor a saber que na Europa a 21 só quatro países cobravam aos estudantes universitários propinas anuais acima dos 920 euros: Portugal, Itália, Holanda e Reino Unido. A isto junta-se o facto de o acesso à acção social escolar estar mais dificultado e o abandono por dificuldades económicas ser cada vez mais visível.

Ora, contas feitas, um estudante gasta em média 6.624 euros por ano no Ensino Superior: 5.942 euros no sistema universitário público, 5.719 euros no politécnico público, 8.843 euros no universitário privado e 10.408 euros no politécnico privado.

Estes valores foram apurados com base nas respostas dos alunos aos inquéritos sobre os custos de educação e os custos de vida. De acordo com o estudo “Quanto Custa Estudar no Ensino Superior Português”, coordenado por Luísa Cerdeira, um estudante português apresentava em 2010/2011 um custo anual médio de 6.624 euros, sendo os custos de educação de 1.935 euros e os de vida de 4.690 euros.

Numa instituição privada, o estudante revela um custo anual superior ao público em 60 por cento (mais 250% nos custos de educação e mais 9 % nos de vida).

Os estudantes que frequentam uma instituição pública, no litoral, e vivem em casa dos pais (32%), têm um custo anual total de 4.465 euros.

Nas mesmas condições, mas numa instituição privada, os custos elevam-se a 8.248 euros por ano.

Seguem-se, no sistema público, os que têm um quarto ou apartamento alugado também no litoral (20%) e aqui os custos são de 7.187 euros.

O estudo baseou-se em investigações anteriores e em inquéritos feitos a uma amostra representativa de estudantes para identificar a sua situação socioeconómica.

Empréstimo bancário aumentou

Mas há mais dados preocupantes. A análise efectuada pela docente conclui que são os estudantes com mais de 30 anos quem mais recorre ao empréstimo para fazer face aos gastos com o ensino (11%).

Os resultados revelam também serem os estudantes de Artes, Humanidades e Línguas quem mais recorre a empréstimos bancários.

O número de alunos do Ensino Superior que pediu empréstimo bancário aumentou 1,6 por cento, em 2004/2005, para 4,9 por cento no ano lectivo de 2011, sendo os estudantes do sistema privado aqueles que pedem mais empréstimos: 9,3 por cento no politécnico e 5,7 por cento no universitário.

Os bancos com maior número de empréstimos concedidos são a Caixa Geral de Depósitos (47,1%), o Santander (13,7%) e o BCP (7,8%).

Os dados indicados pelos estudantes apontam também para empréstimos de familiares e amigos (7,8%).

Em média, o valor do empréstimo é de 9.851 euros.

Famílias são o garante

Há oito anos, o Estado despendia, do seu orçamento, 4.151 euros por cada aluno, ao passo que no ano lectivo de 2010/11 essa verba foi reduzida para 3.601 euros, isto é, menos 13,3%.

Se o Estado gasta menos, alguém tem de contribuir mais. O estudo mostra que os custos directos da educação, em 2010, representavam 21,9% do orçamento familiar. Os sinais não são os melhores para quem tem de pagar a universidade aos filhos, pois o número de alunos com bolsa atribuída baixou de 34,8%, em 2004, para 28,6%, em 2010, com a maior queda de bolseiros a registar-se no ensino politécnico público. Mas do universo total de bolseiros, 37% não recebem mais que 100 euros mensais.

Esta é a realidade dos jovens que agora chegam às Universidades. Os resultados, nesta primeira fase de colocações, que foram divulgados este fim-de-semana, demonstram que dos 42.402 candidatos ao Ensino Superior, 89%, ou 37.778 alunos, foram colocados e 54% conseguiram entrar mesmo na sua 1ª opção.

Nesta primeira fase de candidaturas existiam 50.820 vagas de acesso ao Ensino Superior, menos 641 comparativamente ao ano lectivo passado. Contudo, candidataram-se mais alunos.

Houve um crescimento de alunos de cursos profissionais colocados, 18% a mais comparativamente ao ano passado, dos quais 617 foram colocados nas Universidades e 1.074 entraram no Politécnico.

A Universidade do Porto parece ser a instituição mais procurada, sendo o Instituto Politécnico de Bragança o que obteve menor número de candidatos.

Os resultados das candidaturas na segunda fase de acesso (que decorrem até hoje) serão divulgados no próximo dia 25.

Corte na Educação é excepção portuguesa

Não admira que cada vez mais estudantes queiram ingressar no Ensino Superior. Os benefícios públicos de se ter um grau de Ensino Superior são duas a três vezes superiores aos custos públicos com a formação, segundo um relatório da Comissão Europeia.

De acordo com o relatório “Education and Training Monitor 2012”, gastar dinheiro em formação superior é um bom investimento: no caso dos homens, os benefícios públicos são, em média, três vezes superiores aos custos públicos; e, no caso das mulheres, são, em média, o dobro do custo associado.

No entanto, Portugal tem cortado no investimento dirigido ao Ensino Superior: “Em 2009, a maioria dos países europeus encontrava-se em recessão, mas todos eles mantiveram ou aumentaram o investimento em Educação, à excepção de Portugal e da Roménia”, lê-se no relatório.

Uma das metas definidas para a Europa – ter 40% dos jovens entre os 30 e os 34 anos com qualificação superior – foi atingida há dois anos por quase metade dos Estados-membros. Portugal ainda está longe da meta, com apenas 26,1% dos jovens com formação superior, em 2011.

Os autores do relatório acreditam que será possível atingir aquela meta até 2020, apesar de “alguns Estados-membros ainda terem consideráveis progressos a fazer para conseguir atingi-la”.

Desemprego jovem

Ainda assim, os jovens que agora entram nas Universidades têm um cenário negro pela frente. Portugal é o terceiro país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) com a taxa de desemprego jovem mais elevada, depois da Espanha e da Itália. Em Março, 35,4% da população activa entre os 15 e os 24 anos não tinham emprego, um aumento em relação aos meses de Fevereiro e Janeiro.

Em Espanha, 53,9% dos jovens estão nesta situação (a mesma percentagem que em Fevereiro). Já em Itália, o problema afecta 42,7% dos jovens. A taxa de desemprego jovem na OCDE em Março situa-se nos 15,5% (15,4% no primeiro trimestre), enquanto a da União Europeia chega perto dos 23%.

Na OCDE, há 45,9 milhões de pessoas desempregadas, mas a taxa (de 7,5%) mantém-se desde o início do ano. Em Portugal, a organização indica que 15,2% da população activa está no desemprego, o mesmo valor de Janeiro e Fevereiro e um recuo face aos 16,5% registados no ano de 2013. A maior parte dos países manteve os mesmos níveis em Março e Espanha é o país da organização com mais pessoas sem trabalho (25,3% nesse mês).

Há mais mulheres no desemprego que homens (a taxa cresceu 0,1 pontos percentuais em Março), ainda que entre os desempregados do sexo masculino se tenha registado um ligeiro recuo, de 15% em Fevereiro, para 14,9% em Março. A média da OCDE é de 7,7% de desemprego entre as mulheres e de 7,4% entre os homens.

Jovens querem emigrar

Portugal vai investir milhões de euros nos próximos três anos com os jovens que ingressam agora nas Universidades. E daqui a três anos, metade deverá abandonar o País e tentar a sorte na emigração.

Desemprego, a procura de um melhor emprego, a difícil situação financeira pessoal ou do país: vários são os motivos que levam mais de metade dos jovens portugueses (inquiridos num estudo da seguradora Zurich) a admitir sair de Portugal, sendo que a percentagem que junta os que querem emigrar com os que já vivem noutro país ascende aos 57%.

De acordo com o estudo “Emigração: motivos e destinos de eleição”, encomendado pela seguradora Zurich e levado a cabo em 12 países, no total das várias faixas etárias só os russos têm uma vontade maior de emigrar do que os portugueses. Da amostra faziam também parte Alemanha, Áustria, Austrália, Espanha, Itália, Irlanda, Marrocos, México, Reino Unido e Suíça, num total de mais de 7.700 inquiridos por telefone, online e pessoalmente entre Agosto e Setembro deste ano.

A percentagem de jovens diz respeito aos inquiridos com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos, sendo que 4% dos jovens já viviam noutros países e 9% estão a dar passos concretos para realizar a mudança em breve. No entanto, a maioria (32%) reconhece ainda ter medo de o fazer. A segurança no trabalho (62%) é a principal condição que esperam encontrar no país de destino, seguida da estabilidade política (37%).

A baixa taxa de criminalidade é um ponto que também têm em consideração (35%), assim como os regimes de poupança e pensões estáveis (ambos com 20%) — pelo que Alemanha, Áustria e Suíça são o destino apontado como número um por 50% dos jovens que disseram querer deixar Portugal. A América do Norte recolhe apenas 28% das preferências e a Europa do Sul 20%.

Mas olhando para outras faixas etárias, o valor também é elevado. Por exemplo, 50% dos inquiridos entre os 25 e os 34 anos também responderam que ponderam emigrar ou que já o fizeram (representando os que já saíram quase 5,5%). E mesmo entre os 35 e os 44 anos, a taxa ainda se aproxima dos 50%.