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Trabalhamos mais do que a maioria dos europeus, mas recebemos e produzimos menos. Desengane-se, porém, quem pensa que os portugueses são “preguiçosos”: a má gestão por parte dos quadros executivos continua a ser uma das principais razões para o nosso atraso. Agora, até os académicos de Harvard nos avisam: o excesso de trabalho desordenado e caótico dá sempre mau resultado, tanto para os trabalhadores como para as empresas. 

Por vezes diz-se que Portugal tem de evoluir para o século XXI, mas olhando para o panorama empresarial nacional conclui-se que muitos dos patrões portugueses ainda precisam de avançar para a segunda metade do século XIX antes de darem o passo seguinte.

Somos, actualmente, dos países do mundo desenvolvido onde se trabalha mais horas por dia e, no entanto, a nossa produtividade é das mais baixas. Em média, cada trabalhador português produz uma riqueza de 35 euros por hora de trabalho, muito abaixo dos 56 euros da média da Zona Euro e dos 49 euros da média da OCDE. Para fins de comparação, note-se que um grego produz 36 euros, um espanhol 51 euros, um irlandês 63 euros, um norte-americano 67 euros. Países como a Turquia ou a Hungria estão perto de nos ultrapassar.

E, no entanto, trabalhamos em média quase 1.857 horas por ano, muito mais do que os alemães, que trabalham 1.371 horas, os britânicos, que se ficam pelas 1.677 horas, e até mesmo os espanhóis, que trabalham em média 1.689 horas por ano. Para toda esta “trabalheira”, o PIB ‘per capita’ de Portugal é o mais baixo da Europa Ocidental, e temos o sexto pior poder de compra da Zona Euro. Nota histórica que não pode ficar esquecida: os portugueses trabalham hoje quase tantas horas como durante os últimos anos do Estado Novo. Em 1973, um trabalhador nacional dava ao patrão, em média, 2.000 horas por ano, um valor que estava quase na média da OCDE de 1.997 horas.

Desde então, muitos países do Ocidente diminuíram consideravelmente a sua carga laboral enquanto aumentavam a sua produtividade. Mas Portugal ficou para trás. Hoje, a média europeia é de 1.770 horas anuais, e países como o Reino Unido e a Suécia conseguiram cortar entre 200 e 400 horas de trabalho ao mesmo tempo que aumentaram várias vezes a produtividade. Em 1973, cada trabalhador produzia 3,7 euros por hora de trabalho, 75% do valor espanhol. Em 2014, a relação baixou para 68%. Em comparação, a Irlanda partiu de uma situação ainda pior em 1973, e tem hoje o dobro da produtividade.

Outros modernizaram-se, mas Portugal preferiu consagrar leis laborais de inspiração ideológica que acabaram por ser letra morta. Os “amanhãs que cantam” foram apenas para alguns, nomeadamente o sector público altamente sindicalizado.

Crise social

Em termos sociais, este excesso de horas de trabalho tem um impacto severo a vários níveis. Segundo recentes índices de avaliação social, os portugueses são dos povos com uma das taxas de ‘stress’ mais elevadas entre os países desenvolvidos. Por outro lado, a taxa de natalidade atingiu níveis baixíssimos, e não são poucas as associações e instituições que alegam que uma das principais causas é a falta de horário para criar os filhos com a necessária dedicação.

Todos os anos as associações de pais defendem ainda mais tempo de permanência das crianças nas escolas, simplesmente porque os pais não têm disponibilidade no seu dia-a-dia para cuidar delas. Felizmente, a família portuguesa ainda é uma das “forças vivas” da nação que não sucumbiu totalmente às forças da “pseudo-modernidade” que nos querem impingir, mas há um limite para a ajuda que os avós conseguem dar.

Resultado final: um trabalhador de outro país mais modernizado consegue conciliar todos os aspectos da sua vida social, familiar e laboral, ao mesmo tempo que produz bastante mais por dia do que um português.

Este estado de coisas é também negativo em termos de produção nacional, reflectindo-se na saúde das próprias empresas, em muitas das quais os administradores pensam usar “esperteza” ao imporem longas horas de trabalho aos seus funcionários. Mas essa “esperteza” acaba por revelar-se apenas saloia.

Um dos centros académicos do capitalismo mundial (logo, isento de qualquer conotação à esquerda reivindicativa), a famosa Universidade de Harvard, analisou a questão e, reunindo toda a pesquisa feita na área ao longo de décadas, chegou a uma conclusão central: “horas longas de trabalho dão maus resultados para as pessoas e para as empresas”.

Os académicos de Harvard não descobriram a pólvora: como eles próprios recordam, “isto é algo que o mundo empresarial aprendeu há muito tempo. No século XIX, quando os trabalhadores conseguiram que os donos das fábricas limitassem o dia de trabalho a 10 (e eventualmente 8) horas, os administradores descobriram, para sua grande surpresa, que a produção aumentou em vez de diminuir, e que os erros e acidentes, que geralmente tinham custos elevados, diminuíram”.

Infelizmente, esta constatação aplica-se mais aos outros países ocidentais do que ao nosso. Em Portugal, até muito tarde, a gestão não era, na generalidade, uma tarefa científica e baseada em factos, como no resto do mundo. Aliás, como indicam os dados da baixíssima produtividade nacional, a gestão de recursos humanos portuguesa foi sempre medíocre. Mesmo nos anos 80 e na primeira metade dos anos 90, o crescimento baseou-se em mão-de-obra barata e horas prolongadas, muitas vezes em incumprimento das leis laborais então vigentes.

Enorme disparate

Algum trabalho tinha sido feito no sentido da modernização, no período da abertura do País aos mercados internacionais, nomeadamente entre o final dos anos 60 e 1974, mas a revolução de Abril travou esses esforços. Face ao ardor revolucionário, Portugal enfrentou a primeira (e infelizmente não última) fuga de cérebros. Milhares de novos gestores de qualidade, formados nas universidades portuguesas, fugiram, muitos deles para o Brasil, onde abriram negócios e empresas de sucesso. Alguns nunca voltaram.

Nos anos seguintes, as empresas públicas foram, como a recente bancarrota mostrou, continuamente mal geeridas, e as empresas privadas não andaram muito longe. Muitas operaram como complexos semi-públicos, sendo nominalmente privadas mas dependendo do Estado para rendas e contratos lucrativos. As infames “derrapagens orçamentais” encheram os bolsos de muitos “gestores” da nossa praça. A palavra ‘gestor’ ganhou até, popularmente, uma conotação negativa, indicativa de alguém que trabalhava pouco, tinha ainda menos conhecimentos sobre como gerir a empresa do que os funcionários e era socialmente irresponsável e cruel. “Gestor público”, por sua vez, tornou-se quase um insulto entre os portugueses que ficaram de fora deste esquema.

Este paradigma continua hoje. Grande parte do trabalho criado nos nossos dias ainda é de baixa qualidade, mesmo quando se trata de posições de responsabilidade ou criatividade. Não é raro encontrar-se no portal de emprego procura de consultores, engenheiros e enfermeiros aos quais são oferecidos o ordenado mínimo e muitas horas de trabalho. Para a maioria dos jovens, horários de trabalho conforme estabelecido na lei de trabalho são uma ficção: muitos trabalham 10 a 12 horas por dia, outros ainda mais.

A conclusão de Harvard é que este é um enorme disparate, especialmente em posições que exigem “comunicação interpessoal, decisões críticas, ler as reacções das outras pessoas, ou mesmo gerir as nossas próprias emoções” – sublinha o estudo académico, que ressalva serem estas “características exigidas pelo local de trabalho moderno”.

Segundo os investigadores de Harvard, apenas 1 a 3 por cento da população mundial conseguem não perder produtividade quando dormem 5 a 6 horas por dia. Os portugueses são dos povos que menos horas dormem por noite na Europa Ocidental, e o elevado nível de ‘stress’ em que a nossa sociedade vive conduziu a uma situação em que a insónia já afecta 15% dos nossos trabalhadores.

Oportunidades desperdiçadas

Numa época em que é necessário procurar a competitividade, como muitas empresas de qualidade em Portugal fizeram, outras simplesmente esbanjam o excelente capital de qualificações que foi construído, com muito suor, por gerações de portugueses.

A esquerda, também ela culpada em grande parte pela nossa falta de competitividade e práticas de negócio modernas, atira as culpas da recente “fuga de cérebros” para o Governo. Segundo o estudo “Fuga de Cérebros: a Mobilidade Académica e a Emigração Portuguesa Qualificada”, mais de metade dos inquiridos saíram não por estarem desempregados, mas sim por não terem direito a um ordenado condigno às suas funções, condições de trabalho decentes e horas de trabalho adequadas.

O custo total da perda destes portugueses é equivalente a 8,8 mil milhões de euros: “o montante oferecido a custo zero aos países que receberam estes diplomados representa o que o Estado Português gastaria com o ensino superior público em dez anos”.

Ou seja, Portugal entrega de bandeja este velor a outros países, e muitos dos “cérebros” nacionais já estão a desenvolver novas tecnologias e a criar riqueza para os seus novos países de adopção. Contrariando a tirada de campanha de um certo secretário-geral de um determinado partido que tem por emblema a mais bela das flores, segundo o qual os jovens regressarão se lhes forem criadas as condições, a maioria indica que já não tem qualquer desejo de voltar. Dinheiro gasto em universidades que acabou por ser a fundo perdido.

Portugal arrisca-se a roubar ao Brasil o título de “país do futuro, que sempre o será”.

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  • Valmar

    Os portugueses no estrangeiro têm uma produtividade superior ao das outras populações. O que acontece em Portugal è que se contabilizam as horas de trabalho efetivadas mas uma grande parte da produção não é declarada. Deixemos de nos considerar um paìs de coitadinhos

  • MadaFoca

    Salário mínimo, serviços mínimos. Por cerca de três euros à hora estão à espera de milagres, não?