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JORGE MORAIS

O DIABO pediu ao escritor e antigo jornalista Jorge de Morais um depoimento sobre a sua passagem pela Redacção d’O DIABO, nos anos 70, e as suas lembranças do tempo em que trabalhou com Vera Lagoa. Eis o testemunho que nos enviou. 

A persona pública de Vera Lagoa estava construída desde muito tempo antes de O Diabo existir, quando nem Vera Lagoa existia ainda. No final dos anos 40, Maria Armanda Falcão era já o ícone lunar de uma Lisboa bem comportada, cujos salões ela tomara de surpresa, com a cumplicidade faiscante de Natália Correia, pela sua elegância inigualável, a sua raça fidalga, o seu puro atrevimento. Muito antes de a nascente RTP a ter procurado, em 1956, para surgir nas emissões experimentais de Palhavã, já Maria Armanda Falcão era senhora de um destino público independente – algo que nem sempre lhe foi perdoado, nesses dias acanhados. Não escrevia ainda nos jornais, é certo, mas os jornais já escreviam sobre ela.

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Maria Armanda Falcão (de sari claro) e Natália Correia (de sari escuro) num jantar social em Lisboa, em 13 de Abril de 1951. Entre ambas está o dramaturgo e ensaísta Armando d’Aguiar. À esquerda na foto vê-se o anfitrião, o empresário Tayob Adam Katchi, em cuja casa (na Rua dos Anjos, 13) o jantar decorreu. Importante homem de negócios de origem indiana, Katchi era uma figura do ‘jet set’ português dos anos 50 e um ‘entertainer’ da intelectualidade lisboeta.

Tenho à minha frente algumas fotografias desse tempo, sobretudo dos anos 50, em que ela surge luminosa e terrivelmente bela, com uma determinação no olhar que ainda lhe conheci bem, duas décadas depois, quando nos encontrámos. Entre esses registos fotográficos e o tempo da minha memória correu a vida de uma geração, durante a qual a Maria Armanda se tornou célebre nos écrans dos televisores, temida nas crónicas de sociedade, amada e odiada na encruzilhada ambígua em que uma primeira encarnação como secretária do general Humberto Delgado, em 1958, se prolongava noite fora, em Alcoitão, ao som do fim da festa de Antenor Patiño, em 1968.

Com os seus pergaminhos oposicionistas, viveu o 25 de Abril em festa, o 26 em dúvida e o 27 em angústia. A filha dilecta do major reviralhista Pires Falcão, herói da revolta da Madeira, sonhara acordada anos a fio, e despertava agora num país com a alma virada do avesso: a ansiada democracia espezinhada na rua por gente com ódio nas entranhas, os capitães subservientes de ontem entregues às libações da traição, a demência colectiva negando tudo o que era precioso para ela, nascida em 1917 na Ilha de Moçambique, filha da República, busto de inteireza.

Conheci Vera Lagoa no final de 1974, na sede do Partido Socialista, a São Pedro de Alcântara, numa reunião de jornalistas que se opunham à crescente dominação esquerdista sobre a imprensa. Perante os que gostariam de vê-la reduzida à etiqueta rósea da crónica de costumes, que aliás praticara com mestria, revelava-se ali uma combatente de fôlego e estrutura, que porventura estaria destinada a embaraçar o funcionalismo partidário. Seguiu pois o seu caminho independente, como mais lhe calhava ao feitio, mas alguns de nós não mais perdemos o seu rasto. A luta que então tomou a peito haveria de falar por si.

Não estive na fundação d’O Diabo, em Fevereiro de 1976. Nessa fase, de resto, o título só se manteve em publicação durante duas semanas, sendo logo despoticamente suspenso pelo Conselho da Revolução. Uma bomba que lhe plantaram na Redacção, em vez de desanimá-la, só mais a convenceu a publicar O Sol, título substituto que foi a sua trincheira até os tribunais anularem a iníqua suspensão d’O Diabo. O jornal voltou às bancas em 1977. E só então eu me juntei à equipa, que anteriormente contara com Martinho Simões, Rui Romano, Rui Tovar, Mateus Boaventura, Navarro de Andrade, o fotógrafo Fernando Ricardo, o cartoonista Augusto Cid, os estagiários Miguel Alvarenga e Valdemar Paradela de Abreu (sobrinho do editor) e, last but not least, o capitão António Ramos, que fora ajudante de campo do general Spínola e entretanto regressara às lides jornalísticas.

Foi o bom, o raro, o querido e saudoso Ramitos quem congeminou a minha ida para O Diabo. Vera Lagoa não acreditava que eu conseguisse libertar-me do compromisso que então tinha com outro jornal, e só se convenceu quando me viu entrar no seu gabinete, num prédio da Baixa, perto de São Julião, para acertar os pormenores com o administrador, Sr. Gomes. Como ela e eu estávamos felizes! A incansável Lígia Baltazar, secretária da Maria Armanda e amiga até hoje, tratou da logística e eu fui despachado para a sede do jornal, no Porto, onde tomei posse como adjunto do Chefe da Redacção, José Rebordão Esteves Pinto.

O Diabo ficava na Rua Mouzinho da Silveira, na vizinhança noctívaga e boémia da Ribeira, onde tinha uma pequena Redacção central, enquanto em Lisboa funcionava uma “delegação”, com Fonseca Bastos à frente. Ao todo, entre repórteres, redactores e editores, no Porto e em Lisboa, seríamos uma dezena. A Maria Armanda tinha de voar entre as duas cidades e a conta telefónica seria alta – mas, enquanto pôde, manteve no Porto a sede do jornal, em homenagem de gratidão aos homens de negócios, comerciantes e simples amigos da Invicta que, nos dias mais difíceis, com os seus anúncios e boas relações, haviam mantido O Diabo e O Sol em publicação.

A linha editorial do jornal era genuinamente romântica, e ninguém saberia interpretá-la melhor, por liminar intuição, do que o Zé Esteves Pinto, marido da Maria Armanda, um camarada excepcional, lutador firme como rocha, rigoroso no seu ofício, cultor especioso da Língua – tudo aspectos em que a exigente Directora gostava de caprichar, orgulhando-se justamente do redactor-chefe e da sua condução do jornal. Como outras pessoas geniais do seu tempo, Vera Lagoa tinha a loucura das grandes causas, um sentido agudíssimo de justiça e a consciência do lugar próprio que ocupava na vida portuguesa. O jornal limitava-se singelamente a reflecti-la. À Redacção (nem de outra forma podia ser, atendendo às características de quase todos nós) estava concedida a mais ampla liberdade de acção e decisão. Mas com frequência a Maria Armanda rompia o dia com uma ideia nunca pensada, uma indignação sem limites, uma denúncia imperiosa. Era uma força da natureza – um furacão de vontade e coragem, um vulcão de talento e imaginação, em proporções que estávamos habituados a associar apenas a homens excepcionais. A sua energia sentia-se à distância, magnética, irresistível. E quando sossegava, rendida, parecia ter-se exaurido nas causas a que entregava a existência.

Os adversários fariam bem em manter-lhe adormecida a ira: a bonomia tornava-se vendaval numa fracção de segundo e o mundo tremia à sua indignação. Mas na roda de amigos era encantadoramente divertida e versátil, a doçura e a generosidade em pessoa. Isso sentia-se na sua voz quente, suavemente baça e sensual. Amava a beleza e a elegância. Um chá ao pôr-do-sol com a Maria Armanda podia, na sua pequena perfeição, transformar-se num momento inesquecível. Guardo muitos.

Quando chegou o dia de ser chamado a outras tarefas, noutros jornais, senti ter de partir-lhe o coração, que na sua benevolência já se habituara à minha presença praticamente descartável. Mas a Maria Armanda era assim: para ela, o calor e a proximidade da amizade davam lugar ao desgosto sem fim no dia da separação. Continuámos amigos pela vida fora, ainda que poucas fossem as oportunidades de convivermos como nesse tempo em que trabalhei para Vera Lagoa na Redacção d’O Diabo. O seu falecimento, em Agosto de 1996, deixou-me triste e destituído. A vida continua, claro, mas ainda não me conformei inteiramente.

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