HUGO NAVARRO

Falta fazer em Portugal um estudo sério sobre a linguagem agressiva dos partidos de esquerda, em especial do PCP e dos grupelhos mais extremistas. Esse estudo comprovaria, necessariamente, duas coisas: que a esquerda continua a usar chavões do tempo de Estaline; e que, por isso e não só, se encontra completamente divorciada da maioria dos portugueses.

Um exemplo recorrente, nos últimos tempos, tem sido a expressão “destruição de postos de trabalho”, habitualmente usada por pcpistas e bloquistas, mas também adoptada por tolos úteis que não vêem a esparrela em que estão a cair. O que será “destruir” um posto de trabalho? “Destruir” é um verbo forte, que implica a ideia de demolir, arrasar, aniquilar, exterminar. É um verbo de guerra sem quartel. Neste caso, seria como se um posto de trabalho estivesse muito bem no seu cantinho, e viesse alguém matá-lo impiedosamente à marretada ou à paulada.

Sucede que um posto de trabalho é uma circunstância conjuntural que não tem, em si mesma, existência física: o que existe fisicamente é a pessoa que o ocupa. Assim, ao aplicar-se o conceito de “destruição” a um termo conceptual, o que se faz é transferir a ambiência violenta de um acto físico terminal para a pessoa pressuposta a que ele corresponde.

O resultado é este: com um truque semântico, passa a atribuir-se à extinção (também conjuntural) de um dado posto de trabalho uma carga demolidora que, em última análise, condena quem procedeu a essa extinção (como se, na realidade, tivesse pegado no martelo para matar alguém) e transforma em vítima de holocausto o simples desempregado. Este é apenas um exemplo, entre muitos, da linguagem corrente da esquerda portuguesa.

Quem sabe um pouco de História não pode deixar de detectar nesta violência verbal o estilo da propaganda dos tempos estalinistas, que serviu para “justificar” a aniquilação física real de milhões de pessoas e para atribuir a terceiros a responsabilidade pela ruína e devastação do Leste europeu durante grande parte do século XX. É interessante notar que o erro em que a esquerda portuguesa incorre ao usar este tipo de linguagem é igualmente estalinista: pressupõe que o código da nomenklatura é assimilado pelas massas, quando na verdade estas apenas se conformam à circunstância, aguardando melhores dias.

Os portugueses, seres de uma plasticidade especial (como Orlando Ribeiro, Jorge Dias e muitos outros demonstraram), não se revêem no abuso verbal na esfera pública. Daí que, por mais que gritem, os extremistas da esquerda são sistematicamente derrotados nas urnas eleitorais.

Melhor dito: é precisamente devido a esse abuso verbal que são derrotados, pois ele opõe os seus agentes à sensibilidade dominante.

De certa maneira, ainda bem que assim é, pois radicais esquerdistas de falinhas mansas seriam incomensuravelmente mais perigosos. Há, na esquerda radical, quem se aperceba deste fenómeno. É o caso de Manuel Loff, um professor do ensino universitário cujo sectarismo empedernido alterna com brevíssimos instantes de lucidez táctica. Num desses instantes, Loff defendeu há dias que “só a esquerda pode salvar Portugal”. Esta apropriação da linguagem salvífica dos patriotas (“salvar Portugal”) pode pecar por um enorme exagero hiperbólico, mas não revela estupidez. Pelo contrário: na sua habilidade semântica, que abandona a violência primária para abraçar um projecto proto-religioso (“salvar”), encontramos uma “nuance” que também importa estudar.

A Filosofia da Linguagem vem dos tempos de Aristóteles. Mas parece que ainda não chegou a Portugal.

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