RODOLFO DE JESUS CORDEIRO 

Li com muito interesse a carta do leitor Virgílio Pinto, incluída na última edição d’O DIABO, e partilho a sua opinião de que os (muitos, imensos, por vezes delirantes) textos publicados recentemente sobre o poeta Herberto Helder omitem, inexplicavelmente, o seu percurso como pessoa. Sob o pretexto de que era um ser “inacessível”, “misterioso”, quase sagrado ou divino, as notas biográficas ultimamente publicadas só referem coisas vagas, por vezes com hiatos de alguns anos. Dir-se-ia que não foi possível encontrar um único jornalista capaz de escrever uma simples biografia de um poeta que faleceu.

É verdade que Herberto Helder se recolhia e protegia da curiosidade mundana e social dos jornalistas, sobretudo evitando ser fotografado ou filmado. Mas creio que isso tinha em vista manter a sua paz de espírito, a sua tranquilidade. Presumo que ele apenas não queria atrás de si a chusma dos “jornalistas culturais”, os mesmos que, afinal, se apossaram dele logo que fechou os olhos. Ao contrário deles, Herberto (é uma frase sua) “não andava no comércio”.

No trato pessoal, Herberto Helder era uma pessoa normal, nada inacessível, nada “sagrado”, e posso afirmá-lo porque o conheci em Luanda em finais de 1971 e vim a reencontrá-lo em Lisboa depois do 25 de Abril. Eu trabalhava então numa firma que desejava implantar-se em Angola, e fui mandado a Luanda auscultar o mercado e estudar a possibilidade de abrir ali uma delegação. Como tinha um amigo que o conhecia, acabei por cruzar-me com Herberto Helder e ser-lhe apresentado. Herberto trabalhava então na revista ‘Notícia’ e era uma simpatia de pessoa. Modesto, calmo, de conversa fluente, apreciador de um bom petisco e de uma cerveja bem tirada, não se vangloriava da sua fama literária. Tanto, que só depois vim a saber que aquele modesto redactor de uma revista era também um grande poeta.

Quando me dei conta da importância de Herberto Helder no panorama da literatura portuguesa, já de regresso à Metrópole, passei a prestar atenção a tudo o que se escrevia sobre ele e a comprar, sempre que possível, os seus livros. É assim que posso hoje adiantar algo sobre a sua passagem por Angola, referida recentemente na Imprensa de uma forma fugidia e misteriosa. Não há qualquer mistério.

Herberto Helder foi trabalhar para Luanda em Abril de 1971 e por lá se manteve cerca de um ano. Não sei se seria jornalista profissional, mas foi redactor da revista ‘Notícia’. Esta publicação, cujo êxito se devia a Charula de Azevedo, era então a mais moderna e a mais prestigiada de Angola. Foi dirigida por João Fernandes (creio que o mesmo jornalista que, anos mais tarde, escreveu n’O DIABO) e teve como redactores, entre outros, António Gonçalves, Carlos Ventura Martins, Maria Virgínia de Aguiar, José Sebag e Moutinho Pereira. Tinha ao seu serviço grandes fotógrafos, como Eduardo Baião, Fernando Farinha e Eduardo Guimarães. Tinha também uma delegação em Lisboa, de onde escreviam Edite Soeiro e Fernando Dacosta. Entre os vários colunistas regulares destacava-se Natália Correia. Um dos ‘cartoonistas’ era Carlos Fernandes.

Sendo uma publicação moderna, escrita por pessoas ligadas ao mundo da cultura, a ‘Notícia’ não era uma revista da oposição. Lembro-me de ter lido na ‘Notícia’ alguns textos altamente elogiosos sobre Marcello Caetano, por exemplo. Aliás, entre os accionistas da ‘Notícia’ contavam-se destacados capitalistas do sistema, como Manuel Vinhas e Cupertino de Miranda. Creio poder afirmar que a ‘Notícia’ seguia a linha de muitas outras publicações do seu tempo, nem bajuladora do regime nem oposicionista, suficientemente acomodada para sobreviver sem dramas no Estado Novo e suficientemente arejada para não ignorar uma ou outra tendência mais reformista.

A ida de Herberto Helder para Luanda parece ter ficado a dever-se a João Fernandes, que o tinha conhecido em Lisboa, no célebre grupo surrealista do Café Gelo. Na ‘Notícia’, Herberto Helder escreveu sempre num tom muito pessoal, um compromisso entre o jornalístico e o literário. Publicou crónicas, reportagens, entrevistas e crítica de livros, assinando ora como “Herberto Helder” ora como “Luís Bernardes” (os seus nomes do meio). Escreveu sobre a seca em Novo Redondo, ocasião que aproveitou para entrar em contacto com os mucubais, sobre os bares de Luanda, sobre o Museu do Café, sobre o Mercado de São Paulo, sobre futebol, etc., etc. Entrevistou figuras da música ligeira, como Carlos do Carmo e o brasileiro Nelson Ned (de quem ficou admirador). Em Luanda, era um homem pacato que gostava de conviver e não se punha nos bicos dos pés. Terá sido também em Luanda que Herberto conheceu aquela que viria ser a sua segunda mulher, a assistente social Olga Ferreira Lima.

Em Março de 1972, quando regressava de uma reportagem sobre o Festival da Chita, no Lobito, com o fotógrafo Eduardo Guimarães, o Volkswagen em que viajavam despistou-se e ficaram ambos bastante feridos. Herberto passou longas semanas no hospital, após o que regressou a Lisboa. Suponho que foi depois que decidiu viajar pelos Estados Unidos, onde possivelmente estaria aquando do 25 de Abril.

Curiosamente, também não vi, nos muitos elogios fúnebres publicados recentemente, qualquer referência à sua passagem pela Emissora Nacional, no tempo do anterior regime, já não recordo se antes se depois do seu período em Angola.

Só voltei a encontrar Herberto Helder alguns anos depois do 25 de Abril, numa esplanada da Rua Passos Manuel, em Lisboa. Reconheceu-me amavelmente e cumprimentou-me com a mesma afabilidade. Falámos brevemente de Angola e do seu terrível acidente de viação, que na altura tinha sido muito falado. Continuava a ser o mesmo homem simples e simpático, nada do retrato de misantropo “divinizado” e mitificado que agora se faz dele.

Foi com surpresa que, há dias, soube que se tinha filiado no Partido Comunista a seguir ao 25 de Abril, embora a sua “militância” tenha sido, segundo li, muito breve.

Todos estes aspectos biográficos que refiro, e muitos outros de interesse entre os anos 50 (quando se estreou como poeta) e 2015 (quando faleceu), escaparam porém aos “jornalistas culturais” que agora se acotovelam para debitar a sua douta opinião sobre Herberto Helder, os quais nem se deram ao trabalho de consultar os trabalhos de Maria Estela Guedes sobre a pessoa que foi este grande poeta. E bem valeria a pena investigar com seriedade e serenidade a vida de um homem cuja obra poética é eminentemente autobiográfica.

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  • Alcântara

    Ainda bem que li este artigo.