Bomba Atómica Sobre a Democracia ou uma Lição de Autismo?

Bomba Atómica Sobre a Democracia ou uma Lição de Autismo?

0 1013
MANUEL SILVEIRA DA CUNHAO histórico dirigente do PS António Campos, um numa interminável procissão de nulidades, foi visitar Sócrates à cadeia. Veio o referido senhor afirmar que o eng. Sócrates tinha sido eleito por milhões de portugueses e era um símbolo da democracia, que a justiça não provou ainda nada e que o eng. Sócrates estaria preso sem saber do que seria acusado.

Em suma, a justiça tinha lançado uma bomba atómica sobre a democracia.

Esta invectiva esquece uma série de factos e radica em numerosas contradições lógicas insanáveis, aliás apanágio de muitos políticos e de defensores do regime que, infelizmente, não devem nada ao raciocínio lógico, cometendo destes erros com facilidade. Infelizmente, o povo português, do qual os políticos são o natural espelho, e falo em termos meramente estatísticos, pois haverá alguns que ainda têm capacidade analítica, não tem capacidade para discernir as contradições inerentes ao discurso demagógico e falso, muitas vezes feito de forma ingénua, por falta de capacidade intelectual dos emissores, mas nunca inocente dos defensores do regime.

Porque razão não é inocente o discurso dos defensores do regime? Por uma razão muito simples: porque o regime é dissoluto, corrupto e decadente e quem o defende, consciente ou inconscientemente, tem também culpas no status quo. Aliás, todos os portugueses têm a sua culpa neste regime.

Feliz ou infelizmente, Portugal nunca se fez por acção da populaça, da ralé, que hoje governa através dos seus pares, mas pelo acaso de, em alguns passos felizes da sua história, ter sido governado por uma elite intelectual que a democracia de hoje não permite que chegue ao poder e às grandes decisões.

Onde antes tivemos D. Afonso Henriques, temos hoje Cavaco Silva; onde antes tivemos o Marquês de Pombal, apesar de ter sido um facínora, temos hoje Passos Coelho; em lugar do infante D. Henrique, D. João II ou Duarte Pacheco Pereira, tivemos Mário Soares, Guterres ou Mariano Gago; onde antes tivemos Fontes Pereira de Melo temos hoje Pires de Lima e Paulo Portas.

Em vez do professor catedrático de matemática e major do exército português Sidónio Pais, tivemos Jorge Sampaio; e em lugar do Doutor Oliveira Salazar, com todos os seus defeitos, tivemos José Sócrates, exemplos opostos de probidade na causa pública.

Enquanto esperamos, com paciência, uma aclaração do possível estatuto criminal de Sócrates e do PS, que lhe deu apoio político e parlamentar e lhe deu os “colegas” que levaram à destruição do país, afirmamos que não será apenas Sócrates o julgado: todo o sistema político português, com o PS à cabeça, alinharam com as acções do homem que está preso numa cadeia de Évora.

Vamos às contradições do discurso de António Campos: as leis que permitiram prender Sócrates foram elaboradas pela democracia para defesa da sociedade dos criminosos; se houve distorções por parte do poder judicial é porque essa mesma democracia lhes deu esses poderes, muitas vezes com a assinatura do próprio Sócrates e do PS de António Campos.

Logo, se a bomba foi lançada contra a democracia pela justiça, é porque fez ricochete. A bomba já lá estaria, lançada pelo poder legislativo.

Pelo contrário, as leis do regime defendem a corrupção e é um milagre que alguém possa ser acusado pela justiça portuguesa por crimes praticados durante os actos de governação. Sendo assim, os indícios que impendem sobre Sócrates deverão ser suficientemente fortes para decretar essa mesma prisão preventiva e devemos acreditar na justiça, a única instituição independente que ainda sobra.

Diz António Campos que Sócrates é um símbolo da democracia portuguesa. Talvez o seja, e isso é tristemente sintomático, mas o cidadão José Pinto de Sousa não é símbolo nenhum e é igual, perante a lei, a qualquer outro cidadão.

É uma subversão dos princípios que invoca, a tal democracia, que por ter sido alguma vez eleito primeiro-ministro, a enganar os eleitores com promessas falsas, que hoje em dia possa ter um estatuto de privilégio, como se de um monarca hereditário se tratasse.

Se existe uma democracia, apesar de podre, o poder judicial deve tratar de igual forma todos os suspeitos de actos criminosos e Sócrates não deve ser excepção. O facto de Sócrates estar preso é o único sinal de que a doença de Portugal ainda poderá ter uma cura e que o poder judicial está entregue a pessoas, uma ínfima minoria, que não se deixam impressionar por falsos estatutos adquiridos enquanto pretores de um regime nefando e putrefacto.

ARTIGOS SIMILARES