Das “humilhações” nacionais: ainda a respeito da X Cimeira da CPLP

Das “humilhações” nacionais: ainda a respeito da X Cimeira da CPLP

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RENATO EPIFÂNIO

Ainda a respeito da X Cimeira da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, realizada em Julho deste ano na capital timorense, Díli, onde se ratificou o ingresso da Guiné-Equatorial, anda meio país a falar de uma “humilhação nacional”.

Sendo (muito) sensível à questão do orgulho pátrio, não consigo vislumbrar aqui, porém, qualquer espécie de “humilhação”. Nem sequer um indício.

Atenhamo-nos aos factos: o ingresso da Guiné-Equatorial havia já sido equacionado em duas cimeiras: em 2010, em Lisboa, e em 2012, em Maputo. Em ambas, a decisão foi adiada por pressão portuguesa. Ou seja, durante quatro anos Portugal conseguiu contrariar a vontade expressa de todos os restantes membros da CPLP.

Alguém me consegue nomear qualquer outra entidade de que Portugal faça parte onde isso pudesse ser possível? Na União Europeia, por exemplo: alguém imagina que Portugal pudesse contrariar a vontade expressa de todos os restantes membros durante quatro anos? Nem por quatro meses. Quanto muito, por quatro horas. Na verdade, talvez por quatro minutos…

Não deixa de ser, de resto, insólito que, tendo estado Portugal durante estes últimos três anos sob tutela de uma Troika, surja agora tanta gente tão sensível às “humilhações nacionais”. Sem pretender entrar no domínio da psicanálise, só posso qualificar esta hiper-sensibilidade como um “orgulho recalcado”: durante três anos, engolimos em seco as humilhações diárias dos funcionários dessa Troika, que chegaram, inclusive, a dar conferências de imprensa sobre o modo como Portugal deveria ser governado.

Não falo por mim – aí sim, como português, senti realmente essa humilhação nacional. Por isso mesmo, porém, não transfiro agora esse “recalcamento” para a CPLP. Nesta, Portugal tem sido tratado com uma deferência diplomática que porventura, para não dizer decerto, hoje não merece, só se justificando à luz da nossa longa e insigne história. Pelos vistos, ainda há quem, por esse mundo fora, se curve perante ela.

Uma coisa é, porém, deferência diplomática – que neste caso houve. Outra, bem diferente, seria outorgar a Portugal um poder de tutela sobre a CPLP, que lhe permitisse contrariar interminavelmente a vontade expressa de todos os restantes membros. Escusado será dizer que, no século XXI, esse é um cenário que não é sequer equacionável. A convergência lusófona a cumprir-se – no plano cultural, desde logo, mas também social, económico e político – não é compatível com nenhuma espécie de tutela, portuguesa ou outra. E não há aqui qualquer “humilhação nacional”.