É preciso lata

É preciso lata

Manuel Silveira da Cunha

Pedro Passos Coelho veio fingir-se preocupado com a natalidade de Portugal, a pior da Europa e a segunda pior do Mundo. Sabendo que o CDS já tinha um estudo, veio pedir um outro; era conveniente mostrar-se preocupado com o assunto que ameaça a existência do país, como repetidamente temos escrito aqui neste espaço ao longo de vários anos. Provavelmente, o problema da natalidade é a maior ameaça a Portugal, à soberania nacional, ao bem-estar das escassas gerações vindouras e ameaçando severamente a economia e a existência dos mais velhos que não terão ninguém que os sustente nas suas miseráveis e solitárias reformas.

Este estudo avança com a proposta de incentivos fiscais e de apoios à natalidade, muitos destes com dinheiros europeus que o governo nunca usou nesse domínio. Os custos directos seriam de 300 milhões de euros. Uma quantia insignificante face a qualquer parceria público-privada, basta ver que o custo do Magalhães, que agora apodrece nas lixeiras, foi muito superior.

A hipocrisia é gigantesca, o governo de Portugal nos últimos anos desenvolveu políticas de verdadeira exclusão social sobre os casais mais jovens e mais férteis, retirou o sonho a Portugal, mandou os jovens emigrar, reduziu deliberadamente os salários, tornou todos os novos empregos em lugares extremamente precários ou temporários, não dando as menores condições para planificar famílias. Por outro lado não há política de habitação para os casais jovens, muitos dos quais ficam limitados a partilhar a existência com os pais, atrasando o casamento e os filhos. O governo de Portugal fechou os olhos a crimes contra a maternidade, a despedimentos por gravidez, a patrões obrigando jovens a não engravidar com receio do desemprego, e chegou ao extremo de cortar o salário às funcionárias públicas que tenham de cuidar de filhos doentes durante os primeiros três dias da baixa, reduzindo fortemente o salário no resto da ausência (é precisamente três dias que duram as mais frequentes viroses infantis), naquilo que parece ser puro sadismo e sanha contra a vida e a natalidade. Finalmente, não houve qualquer investimento deste governo em redes pré-escolares e o aborto é incentivado, pago pelo Estado na totalidade, ao contrário do acompanhamento da gravidez, e tem mesmo prioridade sobre os cuidados às grávidas no serviço nacional de saúde.

Afirma Pedro Passos Coelho, num sinal da sua típica e cada vez mais evidente estupidez, que “é preciso avaliar”, que “há pouco dinheiro”. Senhor Coelho, veja lá qual é a avaliação que tem a fazer – dar umas migalhas de trezentos milhões aos jovens deste país para ajudar a mitigar o maior problema que o país enfrenta e que o ameaça na mais profunda raiz ou gastá-los no poço sem fundo das vigarices da anafada banca. É tempo de ir aos bens de quem delapidou o país e o arruinou com negociatas, não de regatear uns miseráveis trezentos milhões de euros para salvar Portugal.

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