Carta do leitor publicada na edição de 3 de Fevereiro de 2015

Senhor Director,

O meu nome é José Portugal. Chamam-me Zé. Tenho uma provecta idade e sofri há uns anos uma amputação grave, mas sobrevivi e ainda me sinto com forças para lutar. Vivo remediadamente, apesar de alguns familiares estroinas terem delapidado nas últimas décadas quase tudo o que tinha poupado ao longo da vida.

Moro na rua pobre de um bairro onde há inquilinos de diferentes posses. Umas ruas acima, para Norte, fica a casa de D. Escandinávia, uma senhora rica com três filhas muito trabalhadoras (as meninas Suécia e Dinamarca, para além da menina Noruega, que vive fora).

Perto desta família moram a Alemanha, a Áustria, a Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda e a Inglaterra, todas com posses e boas casas. Nos arrabaldes do nosso bairro vivem famílias que aqui se estabeleceram há pouco tempo – desde a orgulhosa D. Polónia, cujos filhos são operários especializados, à pelintra D. Roménia, cuja prole vive de expedientes. Como disse, há de tudo no nosso bairro.

O quarteirão onde moro tem duas zonas: na de cima vivem a D. Irlanda, a D. França e a D. Itália; na zona de baixo estamos nós, a D. Espanha e a D. Grécia. É precisamente a propósito desta última que lhe escrevo.

O estadão de vida desta família tem intrigado toda a vizinhança. A mãe, D. Grécia Helénica da Kosta, passa o tempo no cabeleireiro, nas compras e na pastelaria. A questão é que ninguém sabe de onde lhe vem o dinheiro, pois o marido nunca teve emprego conhecido e leva os dias deitado no sofá, a ver televisão e a beber vinho. Os filhos não trabalham nem estudam. Passam o dia a bronzear-se na praia e é rara a noite em que não dão uma festa lá em casa, partindo copos à medida que vão ficando mais alegres.

Todos os anos aparecem com carros de último modelo e redecoram a casa com móveis de luxo e electrodomésticos do melhor. Quando alguém lhes diz que a vida está difícil e têm de pensar no futuro, ficam muito ofendidos e respondem que têm todo o direito a isso porque são a família mais antiga das redondezas, com pergaminhos que vêm de há milhares de anos.

Eu também tenho pergaminhos, mas cá em casa não podemos dar-nos a esses luxos. E quando a crise aperta, então, passamos as passas dos Algarves. Foi o que aconteceu há uns tempos, quando toda esta zona do bairro foi afectada pelo ‘crash’ de D. América, uma família emigrada no outro lado do mar mas que mantém aqui muitos negócios. Em pouco tempo, a despensa estava vazia e quase não tínhamos pão para dar aos filhos. Numa aflição destas, e como pedir não é pecado, juntámo-nos e fomos à zona Norte do bairro pedir ajuda.

Fui eu, foi a D. Espanha, a D. Itália, a D. Grécia e até a D. Irlanda, que apesar de ser prima da D. Inglaterra, também estava aflita. Em nome dos vizinhos ricos, a D. Germana decidiu-se a emprestar-nos dinheiro, embora a juros altos.

Eu, D. Irlanda e D. Espanha pedimos com moderação, pois tencionávamos pagar e quanto menos devêssemos, melhor. Já D. Grécia Helénica da Kosta pediu mundos e fundos, argumentando que a família era grande e precisa de manter o nível de vida.

Desde então, tudo tenho feito para pôr as contas em dia. Cortei em tudo que era supérfluo, reduzi a metade as mesadas dos pequenos, dispensei uma das empregadas e só comemos carne duas vezes por semana. Poupando aqui, poupando ali, lá temos vindo a pagar a dívida e, se Deus quiser, em breve voltaremos a respirar fundo. O mesmo têm vindo a fazer D. Espanha e D. Irlanda.

Já na casa de D. Grécia da Kosta continua o farrabodó. O marido ainda não arranjou emprego nem dá mostras de querer trabalhar, mas a vida da família não se alterou. Há dias, os cobradores bateram-lhes à porta, mas a música estava tão alta que eles nem ouviram. E o filho mais novo diz que agora quem manda na família é ele e que não tem nada que pagar a dívida e que os ricos vão para o diabo, que ele não quer saber de nada.

Ainda por cima, querem que os do Norte do bairro continuem a pingar dinheiro, e que se for preciso os mais pobres, como nós, também hão-de contribuir para a família Helénica da Kosta, que não faremos mais do que a nossa obrigação.

O bairro está em polvorosa, como se pode imaginar. Com estas más influências, os filhos mais novos da família de D. Espanha também já dizem que querem passar o dia a cantar flamenco e a tocar castanholas. E até na nossa família há um primo em segundo grau, o Costa, parente dos Kosta por casamento, que diz que devíamos era seguir o exemplo de D. Grécia e mandar os credores à fava.

Faz-me impressão, tudo isto. Sempre me ensinaram que as dívidas são para pagar e que quem não tem dinheiro não tem vícios. Na fábula da cigarra e da formiga, que todos aprendemos na escola, quem fica sempre pior não é a formiga, que trabalhou e amealhou para comer no Inverno: é a cigarra, que tudo quis e nada fez. Mas na casa dos nossos vizinhos Helénicos da Kosta o farrabodó continua – e, nos últimos dias, as festas e as celebrações sucedem-se, sem que a vizinhança perceba o que estarão eles realmente a festejar.

O novo chefe da família já diz que, se for preciso, arrasa o bairro e salve-se quem puder. Parece-me que ainda não percebeu que, se a coisa dá mesmo para o torto, ainda recebem ordem de despejo. E onde vão depois encontrar quem lhes mate a fome?

Uma coisa eu sei: cá de casa não sairá nem mais um cêntimo para alimentar os vícios da família Kosta.

Vão trabalhar, que faz bem à saúde!

José Portugal (mais conhecido por Zé)

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