Desde Afonso Henriques a Salazar que a questão ibérica foi um dos mais bem cuidados e importantes temas da governação em Portugal, razão porque nos mantivemos como Nação razoavelmente independente durante quase nove séculos. Agora, nomeadamente durante o último quarto de século, o tema deixou de ser tratado com a seriedade que merece e gerou-se a ideia, a meu ver errada, de que a participação de ambos os países na União Europeia alterou os interesses estratégicos e as razões históricas de ambos os países. Assim, a atenção dada à questão ibérica enfraqueceu bastante do lado português, ao mesmo tempo que os objectivos estratégicos de Castela se mantiveram iguais ao que sempre foram: o alargamento do poder político, económico, logístico e cultural de Madrid a toda a península.

Vem isto a propósito da Cimeira Ibérica que agora terminou e que, como as anteriores, teve como resultado que a delegação de Madrid acordou com tudo aquilo que reforça os seus objectivos estratégicos e discordou, ou adiou, tudo aquilo que são os seus interesses, desde a questão de Almaraz à energia. Isto é, desde a Cimeira da Figueira da Foz que a Espanha mostra uma competência e uma coerência estratégicas completamente inexistentes do lado português, razão porque o Governo dá saltos de contente por ter alienado uma parte do nosso poder de negociação independente em Bruxelas a favor de uma negociação conjunta dos nossos interesses fronteiriços.

Suponho que António Costa não sabe, ou tem razões para desconhecer, que durante séculos sempre evitámos negociar os nossos interesses com Madrid, preferindo a negociação multilateral, fazendo intervir no processo as autonomias espanholas, o Papa, a Inglaterra, ou a França, pela razão simples de que sempre tivemos a consciência de sermos vizinhos de um poder superior ao nosso. Em termos meramente tauromáquicos, digamos que sempre tratámos Castela de cernelha e nunca de frente, sendo que apenas agora descobrimos que a reclamada amizade ibérica suplanta os interesses nacionais, razão porque cedemos no passado recente o Mibel-Mercado Ibérico de Electricidade, sem obter, ao menos, a garantia de ligação a França, como acordámos na cimeira desta semana a ligação ferroviária a Salamanca em bitola ibérica, o que coloca  os interesses espanhóis no controlo das exportações portuguesas para a Europa.  Razão porque, entre outras razões, a Espanha tem custos energéticos muito inferiores aos nossos e uma das mais modernas redes ferroviárias do mundo, cujos comboios chegam à Europa enquanto os nossos não passarão de Salamanca.

Confesso que fico sempre arrepiado quando ouço alguns dirigentes portugueses, frequentemente sem os anos necessários para a tarefa, pela forma simultaneamente simplória e pretensiosa com que se auto-elogiam sobre os resultados fulgurantes da última cimeira, sem nunca se preocuparem, ou avaliarem, os resultados das cimeiras anteriores.

Não menos arrepiante é a ligeireza com que tratam alguns dos interesses estratégicos nacionais, seja no Atlântico, nos rios, nas vias férreas, no transporte aéreo, nas pescas e na energia, para citar apenas alguns. Em que a parte mais grave implica subestimar a elevada competência profissional dos espanhóis e a sua determinação estratégica, da mesma forma que não levam em conta o poder que a Espanha construiu em Bruxelas ao longo dos anos.

O domínio de uma grande parte do sistema financeiro nacional pela banca espanhola é apenas um pequeno exemplo da dimensão do problema que temos pela frente, que resulta essencialmente da fraca competência dos governantes nacionais no tratamento da questão ibérica e em que a propaganda destinada a fins eleitorais se sobrepõe à verdade e à avaliação fria dos resultados.

Há dias, os jornais portugueses anunciavam que os espanhóis de Algeciras teriam ficado muito preocupados com a concorrência de Sines, devido à propalada linha férrea de Sines a Badajoz em bitola ibérica. Mas como, se o porto de Algeciras estará em breve ligado por via férrea e em bitola europeia aos portos de Valência e de Barcelona e daí a França, enquanto nós, mesmo que a linha existente seja remendada, ficaremos, finalmente, com uma ligação a Badajoz e sem continuidade para a Europa?

Houve uma vez em que Portugal ganhou a Castela pela via da negociação bilateral, de que resultou o Tratado de Tordesilhas, mas isso foi no século XV, quando o rei D. João II ainda era vivo e Portugal tinha ao seu dispor algumas das mais sábias cabeças da Europa. Era o tempo em que o saber contava e era procurado e valorizado pelo poder político.

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