Muita gente em Portugal ainda não percebeu as razões e o alcance da saída da Inglaterra da União Europeia, provavelmente porque tomam o Reino Unido por Londres. Fazem mal, porque o povo inglês representa uma velha Nação que sempre esteve na linha da frente da civilização europeia e desde a Carta Magna lidera o conceito de regime democrático com uma notável continuidade e discernimento. Sabendo isso, dou por vezes comigo a pensar o que fariam hoje os burocratas de Bruxelas se confrontados com a invasão da Polónia por um qualquer Hitler, quando os ingleses não vacilaram e afirmaram que com “sangue suor e lágrimas o Reino Unido prevalecerá” – e prevaleceu. Com muitas ajudas, é certo, nomeadamente dos Estados Unidos, mas não esperaram por ninguém para manter vivo o espírito britânico de coragem, independência e respeito pelas instituições democráticas, mesmo nas mais difíceis circunstâncias. O mesmo respeito que os leva agora a negociar a saída da União Europeia.

Não admira portanto que os ingleses não se dêem bem com a actual governação da Europa, que coloca diariamente em causa séculos de história e de princípios que marcam a natureza do povo inglês e, já agora, da própria Europa. E muitos ingleses consideram, provavelmente com razão, que muitas das decisões de Bruxelas são contrárias a esse espírito britânico que os fez sobreviver por entre as incidências da história e das guerras; e, não vendo o seu futuro na União Europeia com clareza, desesperaram. Porque aquilo que muitos consideram um país com um pé dentro e outro fora das instituições europeias, resulta da vontade de serem europeus, mas não à custa das suas tradições e dos seus valores. Que outros, como Portugal, vejam nisso uma mera questão de mais ou menos solidariedade e de mais ou menos fundos e nisso empenhem a alma, a história e a independência, não influencia os ingleses, que acabaram por não aceitar a irrelevância a que se sentem remetidos nas tarefas do mundo global.

Não sei prever o futuro do Brexit, nem sei se os ingleses ganham ou perdem com a saída da União Europeia, o futuro dirá, mas tenho uma grande admiração pelo povo inglês, por esse país generoso de prados verdejantes e de belos jardins, cuidados diariamente pelas famílias, numa tradição de séculos de devoção à natureza e à sua paisagem rural e urbana. Gosto o suficiente dos ingleses para desejar ao meu País a mesma clareza e independência de propósitos e o mesmo respeito pelas tradições e valores, que são britânicos mas também europeus.

Infelizmente, Portugal não pode escolher sair da União Europeia, o que não desejo, mas pela simples razão de que os governos nacionais, sem grandeza e sem sentido de Estado, se deixaram enredar na teia do dinheiro fácil e da dependência do canto da sereia de Bruxelas. Infelizmente, no momento histórico da adesão à União Europeia não percebemos que, como os ingleses de 1939, precisávamos de algum sangue suor e lágrimas para cumprir o objectivo de nos aproximarmos dos países mais avançados e felizes da Europa. Nesse processo, feito de enganos e de falsas promessas, os governantes portugueses traíram o povo cujas qualidades de trabalho e de sacrifício menosprezaram, em troca de facilidades, de vazio estratégico e da corrupção, de que o País não precisava.

Compreender hoje a decisão do povo britânico ajudará a compreender os dilemas em que se fundamenta a União Europeia, com a ideia, se ainda for tempo, de salvar o sonho europeu de paz e de progresso, o que implica aceitar as diferenças como um valor e não como um problema.