Henrique Medina Carreira – a voz que perdemos

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A voz que se apagou de Henrique Medina Carreira, neste tempo de um Portugal conturbado, sem direcção e sem objectivos claros, deixa-nos a todos nós portugueses mais desprotegidos e mais pobres, porque era uma voz que no panorama político e económico nacional faz muita falta, porque voz verdadeira, sem concessões ou interesses, e cuja fidelidade era apenas para com o que considerava ser o interesse colectivo dos portugueses. Por isso não transigia, não dava nem permitia favores, fiel às suas convicções que resultavam do trabalho e do estudo, convicções que iam muito para além do pobre debate político nacional, para se tornarem num farol para muitos de nós, cansados de ideologias sem sentido e do jogo dos medos e dos interesses individuais e de grupo.

Conheci o Henrique Medina Carreira quando foi meu professor na escola industrial da Marinha Grande, no curso da noite, e a partir daí ficámos amigos. Era ele então um jovem engenheiro, pouco mais velho do que eu, mas que mostrava já muitas das suas qualidades de estudioso, de rigor e de isenção, qualidades que transportou para a sua longa carreira de advogado, de político, de governante, de economista e de grande português. Recordo que nos incentivava a fazer perguntas, não apenas sobre a matéria dada, mas sobre tudo aquilo que nos rodeava num regime político odiado por todos. Nesse tempo, a Marinha Grande era uma escola de vida, com as Conferências do Sindicato Vidreiro, o Sport Operário Marinhense, o teatro e inúmeras actividades políticas e culturais, que sempre sobreviveram aos ataques da polícia política.

Deixou a Marinha Grande e encontrámo-nos mais tarde na Sedes, onde com o João Salgueiro e o Luís Campos e Cunha assumimos, já em democracia, inúmeras posições políticas críticas dos diferentes governos e dos caminhos errados da democracia portuguesa. Os textos escritos resultavam de um debate prolongado em que nem sempre era fácil satisfazer a exigência de rigor e as fortes convicções que eram a marca de Henrique Medina Carreira. Foi o meu primeiro, o mais antigo e, porventura, o mais convicto apoiante que tive quando me candidatei na última eleição para a Presidência da República e não hesitou em participar em acções de campanha, sabendo bem que aquilo que se pretendia não era mais do que denunciar os erros da governação e esclarecer os portugueses sobre as alternativas à nossa frente, o que correspondia ao que ele sempre fizera ao longo da vida.

Convidou-me várias vezes para os seus programas nas televisões, debatíamos antes os temas que ele propunha e quando lhe sugeria que pudéssemos dar um pouco mais de esperança a quem nos ouvia, sempre me repetiu que não estava disponível para enganar os portugueses. O Henrique tinha uma percepção clara da realidade e dos resultados das diferentes políticas e nunca hesitou em usar a linguagem mais directa e mais violenta para fazer passar a sua mensagem, porque era portador de uma grande angústia sobre o futuro de Portugal e aquilo que pretendia era, acima de tudo, esclarecer as pessoas e para isso usava todos os meios. As suas sempre presentes séries longas de números, quadros e curvas, eram a sua forma de demonstrar a realidade de um País mal governado e mal pensado e de que ele previa o destino. As acusações frequentes que lhe eram feitas de pessimista, de miserabilista e de apóstolo da desgraça nunca o perturbaram, limitava-se a lamentar a mediocridade reinante, a falta de estudo das questões e as decisões erradas, mas para prosseguir o seu trabalho de esclarecimento, sem cedências ou especulações de qualquer espécie.

Durante muitos anos Henrique Medina Carreira tudo previu e em tudo acertou. A sua voz foi a mais consistente das poucas vozes que se mantiveram fiéis à verdade e à realidade de um país permanentemente adiado e enganado. Tudo fez durante décadas para inverter o rumo dos acontecimentos, sempre disponível para servir Portugal e os portugueses na senda de outros portugueses antigos. Sempre denunciou o pântano, mas nunca fugiu a confrontar as suas consequências e essa foi, é, a sua grandeza.

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