Solidariedade e disciplina

Solidariedade e disciplina

0 1206

Comemoram-se os sessenta anos do Tratado de Roma e fazem-se as mais diversas avaliações sobre o futuro da União Europeia, por vezes as mais delirantes. Pessoalmente, interessa-me principalmente o caso português e, nele, o mal-entendido que resulta de os Governos portugueses explicarem as suas incompetências e mal-aventurança com as falhas da União Europeia. O contexto das declarações parvalhonas de Jeroen Dijsselbloem, que tanto têm excitado os governantes e os mal governados portugueses, serve-me de deixa.

Aparentemente, não compreendemos ainda que existe um mal-entendido entre Bruxelas e Lisboa que urge esclarecer: os países do Norte da Europa não acreditam que nós nos saibamos governar e nós tudo fazemos para lhes dar razão e batemo-nos galhardamente para que eles nos ponham por conta, que é como quem diz que nos paguem as dívidas e não nos peçam nada em troca. Tudo em nome da solidariedade.

A Alemanha, país que depois da última guerra europeia se tem sabido governar bem e está em forma economicamente, representa para governantes e cronistas portugueses o mau da fita e a senhora Merkel o vilão a abater. As críticas têm como base o conceito de solidariedade dos países mais ricos para com os mais pobres, ideia defensável, não se desse o caso de já termos espatifado uns larguíssimos milhares de milhões de euros de ajudas ao desenvolvimento com o resultado que está a vista. Ou seja, enquanto nós pretendemos mais solidariedade, os alemães querem mais disciplina e por isso não nos entendemos, uma situação semelhante à que existiu entre Mário Centeno e António Domingues – trata-se aqui também de um erro de percepção mútua.

Se não nos tivéssemos endividado até ao tutano, se não tivéssemos feito investimentos ruinosos, se não tivéssemos deixado que os corruptos e os incompetentes dessem cabo do sistema financeiro e se os partidos políticos se tivessem entendido sobre a melhor estratégia para o desenvolvimento do País, teríamos certamente todas as razões para falar grosso na União Europeia. Infelizmente, apenas sabemos justificar as nossas desgraças com a crise internacional de 2008, fazendo por esquecer o pequeno problema de que a maioria dos outros países europeus soube ultrapassar a crise e, ao mesmo tempo, melhorar a vida dos seus cidadãos. A Irlanda, cuja economia cresce na casa dos 6% e onde o salário mínimo é o dobro do nosso, é disso o exemplo mais à mão.

A governação em Portugal é atrabiliária, a geringonça não se entende quanto ao futuro do País, os partidos têm entre si ideias diferentes quanto à União Europeia e à NATO, consomem-se a dialogar se é melhor nacionalizar ou privatizar, se devem aumentar os salários e o consumo ou fazer crescer o investimento e as exportações, ou tudo isso e o seu contrário ao mesmo tempo. Mas numa coisa há acordo: insultar o senhor holandês tanto quanto ele nos insultou, além de reivindicar que alguém nos perdoe as dívidas, com a probabilidade de nos continuarmos a endividar no futuro próximo.

Finalmente, e para que conste: os portugueses são tão ou mais trabalhadores do que os cidadãos dos outros países europeus; também é verdade que têm feito enormes sacrifícios para sobreviver; obviamente não são gastadores, o que seria difícil dada a média dos salários nacionais; e quanto ao álcool e a sexo, não são nem mais nem menos do que os holandeses, suponho. Por isso, o problema de Portugal, a razão dos nossos problemas e dos atrasos de muitos anos, reside na indisciplina e na má governação, nos interesses ilegítimos criados e sustentados no interior dos partidos políticos e na promiscuidade entre os negócios e a política. Porventura, tal como os gregos e os italianos.

Claro que podemos negar esta realidade, podemos mesmo continuar a diabolizar a União Europeia, mas o resultado será apenas o de esconder a incompetência e a venalidade dos responsáveis políticos e não porque essa seja a via adequada a melhorar Portugal e a construir um futuro melhor para os portugueses.

ARTIGOS SIMILARES

0 248

1 1941