Culpar Deus e os eucaliptos pela incompetência e a impreparação dos homens, parece-me uma total irresponsabilidade, nomeadamente porque há muitos mortos e isso pode ser considerado uma fuga às responsabilidades e uma tentativa de salvar a pele de um poder político que ao longo dos anos nada fez daquilo que os estudos e os técnicos aconselharam se fizesse.

Poder político que desde sempre preferiu o negócio do ataque aos fogos e sempre colocou em segundo plano a prevenção e o cumprimento das leis que piedosamente foi promulgando.

Com a agravante de que, perante a morte de famílias inteiras, a única competência visível no terreno foi a do circo mediático que, durante horas, procurou esconder a realidade.

Ou o que dizer de um Presidente da República que a meio do desastre, em vez de chorar silenciosamente a dimensão da tragédia, decide absolver os responsáveis políticos e técnicos, sem ter respostas credíveis às perguntas feitas pelas famílias das vítimas e dos portugueses em geral?

Como parece evidente, as mortes já eram conhecidas quando o Secretário de Estado afirmava nas televisões que havia feridos enviados para o hospital (o contrário seria de uma enorme incompetência). Ou seja, a corrida dos governantes ao local foi uma montagem mediática de “damage control” para poupar os políticos e procurar esconder as suas responsabilidades acumuladas durante anos, com alguns negócios à mistura, que vão desde a compra dos helicópteros Kamov à famosa aquisição do sistema de comunicações SIRESP, que não funcionou quando as famílias saídas da praia fluvial de Castanheira foram aconselhadas a ir pela estrada municipal 236 em direcção ao IP8, estrada supostamente segura, mas com árvores e mato nas bermas, contrariando a lei e o mais elementar bom senso, além de colocar em causa a famosa gestão autárquica. Ali morrerem queimadas 47 pessoas e outras 11 morreram numa pequena aldeia quando ainda ninguém respondia aos apelos para os serviços competentes.

É tempo de dizer basta. E o actual Governo tem duas alternativas: continuar a sustentar que tudo foi feito para evitar a tragédia e defender a pele dos dirigentes escolhidos pelo poder político e as suas decisões tardias, atabalhoadas e pouco compreensíveis, ou nomear imediatamente uma comissão claramente independente de pessoas que os portugueses possam respeitar, para investigar hora a hora, minuto a minuto, o que verdadeiramente se passou. Mas não só, o Governo deve aproveitar a comoção pública para fazer o que deveria ter feito há muito: tornar toda a região queimada numa experiência piloto e criar regras duras e de execução rápida para o emparcelamento das propriedades, com compensações justas para quem não tiver os recursos para a sua exploração, bem com a limpeza imediata das bermas das estradas e das aldeias, conforme a lei, e a criação de aceiros e de zonas de franco acesso para o caso de os incêndios se repetirem. A começar, de imediato, pelos terrenos do Estado.

Como reclamo há anos, nomeadamente em livro que publiquei, deve ser iniciado um debate público, do Governo e da hierarquia das Forças Armadas, para a criação de um corpo militar especializado na defesa da vida dos portugueses, em terra, no mar e no ar, mantendo as regras militares tradicionais da mais elevada disciplina, profissionalismo e prontidão, além  da disponibilidade da própria vida. Corpo militar que, usando os mais modernos meios e equipamentos, possa obter o máximo sucesso nas suas intervenções, em Portugal ou onde existirem portugueses em perigo. Um corpo militar cuja razão de ser é simples: as Forças Armadas são a única instituição portuguesa que, nas actuais circunstâncias, tem a formação, a disciplina e o espírito de serviço que tem faltado ao longo de muitos anos às medidas preparadas pelo sistema político, sempre mais preocupado em promover negócios ruinosos do que em defender a vida dos portugueses.

Finalmente, os acontecimentos trágicos dos últimos dias justificam uma investigação realizada por uma entidade independente e com a formação adequada, para uma avaliação do SIRESP e das condições em que foi feita a sua aquisição, nomeadamente pelo facto de esse negócio ter sido concluído com entidades sem a credibilidade necessária para o efeito e envolvendo pessoas que terão certamente interesse em esclarecer a razão para as suas decisões, tanto técnicas como políticas.

Nos momentos de grande crise nacional, como aconteceu no grande terramoto de Lisboa, há que enterrar os mortos e cuidar dos vivos, mas é também o tempo de repensar o que deve ser feito para limitar a possibilidade de que a tragédia se repita. É isso que se espera nas actuais circunstâncias, sem desculpas e com sentido de responsabilidade.