Isis – a barbárie e o tempo

Isis – a barbárie e o tempo

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHA É extremamente preocupante o que se passa com os extremistas islâmicos que se estabeleceram no Iraque e beneficiaram com a guerra e o voluntariado jihadista na Síria.

A questão principal não é a barbárie, as decapitações, mutilações e os assassinatos em massa. Ainda há duzentos anos se assavam os aristocratas, e os menos aristocratas, devagar e no meio de gritos dilacerantes, na Paris revolucionária. Depois cortavam-se as cabeças com facas de cozinha e passeavam-se espetadas em paus pelas ruas da cidade Luz. Ainda há setenta anos Hitler massacrava deliberadamente milhões de homens e mulheres, Estaline e Mao continuaram a fazê-lo até muito depois. Os Khmers vermelhos assassinaram dois milhões numa população de seis milhões e os indonésios liquidaram mais de duzentos mil timorenses numa população que não chegava a um milhão. Não, o problema não é a crueldade gratuita, própria da selvajaria animal endógena ao bicho homem. O problema é a indecisão ocidental de quem devia ter cérebros preparados para prever e planear uma visão global, estratégica. O pior é a ambiguidade assassina que, sem perspectiva estratégica ou, pior, com uma visão mercantilista e interesseira do equilíbrio de forças mundial e sem conhecimentos ou domínio da história e dos equilíbrios locais, governa as maiores potências económicas, no caso da Europa, e militares, no caso dos Estados Unidos.

O autoproclamado califado, ou estado do levante, ou o que quer que seja, nasce por omissão ocidental, que, se não foi activa no sentido de incentivar e financiar grupos islâmicos anti-xiitas, que teriam de ser sunitas, foi, pelo menos, deliberadamente vaga, deixando a sunita e primitiva Arábia Saudita, ou os seus súbditos, com mãos livres para proceder a esquemas de financiamento tão próprios, e tão subterrâneos, dos regime árabes totalitários. Não protegendo os estados laicos do Médio Oriente, abria-se um vazio estratégico. No caso gritante do Iraque, cuja situação estava estabilizada e cuja intervenção americana, próxima da idiotia, foi seguida de uma retirada ainda mais acéfala, deixou-se um vácuo que foi preenchido pelos terroristas loucos da Jihad. Dando mão livre aos inimigos da Síria, promovendo loucas Primaveras Árabes, afinal palcos para todos os fundamentalismos, substituíram-se regimes ditatoriais por regimes quase feudais, geridos por hordas loucas de sunitas, ainda piores, no que diz respeito ao respeito pelos direitos humanos, do que os ditadores precedentes. Sobraram a Síria e o Egipto por milagre. Os loucos que ocuparam o vácuo dos ditadores depostos são hoje imprevisíveis, absolutamente intolerantes e capazes de uma expansão perigosíssima para a sociedade contemporânea e os valores humanistas que demoraram dois mil anos a construir.

Ostracizar e isolar o Irão, em lugar de conciliar com este país xiita, logo, necessariamente, mais sensato e moderado que os medievos sunitas, foi outro erro crasso, numa política em que o aliado americano, nunca posto em causa, Arábia Saudita, sempre jogou em dois tabuleiros. É evidente que a questão judaica será sempre uma espinha encravada.

Para alcançar uma paz duradoura, a única solução será, hoje em dia, ter uma mão de grande firmeza, intervindo de forma muito dura contra os extremismos que põem em risco o mundo, tal como o conhecemos, e isso exige grandes acções militares que tardam em chegar. É necessário pensar estrategicamente o problema de Israel e repensar fortemente o papel dúbio, criminoso contra os direitos humanos e civilizacionalmente atrasado da Arábia Saudita no contexto regional do Médio Oriente, algo que deverá ser feito através de diplomacia e pressão económica, recorrendo a alternativas ao petróleo saudita. No Iraque, infelizmente, só resta uma repetitiva intervenção musculada, totalmente por culpa americana.

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