JOÃO FILIPE PEREIRA

Os portugueses deram oportunidade à classe política de, em conjunto, tomar decisões em prol dos portugueses e não em prol dos interesses partidários. Vivemos dias de verdadeira democracia em que os agentes políticos poderiam recuperar a confiança dos eleitores, mas, findas as contas, mais valia termos estado quietos. Eles continuam a ser uma nódoa.

Cavaco pode puxar para si a esperteza de ter dito que já tinha todos os cenários ponderados ainda antes das eleições. Mas eu – assim como muitos outros portugueses – puxo para mim a inteligência de ter previsto um só cenário: aquele em que nenhum partido político conseguiria maioria absoluta e em que o voto no PS seria como um tiro no porta-aviões. Ou seja, um verdadeiro tiro nos interesses portugueses.

Passos e Portas são uns incapazes enquanto governantes. São maus. Mas António Costa é pior. É do tipo de político que trai os amigos e camaradas quando cheira a poder. António Costa joga agora com a vida dos portugueses a sua vida política. É um fraco líder que nem coragem teve para se demitir após as eleições. É tão fraco que nem conseguiu unir a Esquerda após as eleições, apresentando a Cavaco uma proposta de Governo viável.

Vai custar escrever isto, mas tem de ser: Cavaco esteve bem ao decidir-se por Passos e Portas para a formar Governo – sabendo que isso implica novas eleições a curto prazo. Esteve tremendamente mal ao justificar a decisão com o facto de PCP e BE serem partidos eurocépticos. Cavaco sabe que essa não é a verdadeira justificação, até porque não foi o PS a rumar à Esquerda. De facto, após as eleições, foram o BE e o PCP a rumar ao centro. Obviamente, em nome da Nação.

No meio de tamanha confusão – criada por um povo sádico que atirou uma faca para o meio de uma luta de cegos e ficou a assistir – ninguém saiu bem na fotografia. Os portugueses colocaram a classe política a exame e todos chumbaram com notas miseráveis. Nem as equivalências os salvaram.

Entretanto, os portugueses já perceberam (há muito) que o País não é para ser levado a sério. O PAN, aliás, vai ter que lutar duramente para ser levado a sério. As propostas para o fim da disciplina de voto podem ajudar nesse passo. Enquanto as coisas sérias não chegam, não há nada como criar um golpe de Estado em Portugal… virtual, entenda-se.

No Twitter (uma rede social muito usada por jornalistas e políticos para saber quais os temas mais debatidos em cada momento) criou-se a ‘hashtag’ (tema) #PortugalCoup, ou seja, Golpe de Estado em Portugal. A receita já tinha sido criada no passado e voltou-se a repetir. As fotos publicadas eram completamente descontextualizadas, mas houve quem por essa Europa fora acreditasse que era o fim do mundo estava a nascer em Portugal.

Os portugueses continuam a sorrir. O País está a arder, mas este povo põe sempre mais um pau na fogueira. A esperança é que as labaredas aqueçam o espírito lusitano que ainda vive em nós e ao mesmo tempo queimem as bruxas e, diria Garcia Pereira, os próprios traidores.