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JOÃO FILIPE PEREIRA

A Guerra Colonial não pode ser olhada com os olhos de hoje. Há um mundo que só quem por lá passou poderá explicar. É o caso dos filhos mulatos em África, fruto do relacionamento entre os militares portugueses e nativas. Se alguns destes relacionamentos eram fugazes, outros eram até bem sólidos, mas com data de fim anunciada desde o princípio.

Vem isto a propósito da magnífica reportagem “Quem é o filho que António deixou na Guerra” do jornal Público. Um trabalho assinado por Catarina Gomes e que contou com a fotografia de Manuel Roberto. A história de um furriel português que foi viver para a sanzala e que foi feliz na guerra. De um filho angolano que ficou para trás sem pai. Uma história de reencontro que merece ser lida. Pela história, pela História e pelo uso correcto do português. A língua que os portugueses também deixaram meio perdida em África.

Mas não foi só em África que deixámos a nossa língua, os nossos costumes e tradições. Há dias uma indiana falava comigo e referia-se a Goa como uma terra de Portugal, um local de visita quase obrigatório. Em Timor, o septuagenário Mau Pelo – que veste fato monárquico português do século XIX, azul-escuro cruzado por duas faixas rosa – é o cuidador da bandeira de D. Maria I em Estado. Notícia da Agência Lusa publicada, curiosamente, no passado dia 10 de Junho.

Em nove séculos cometemos o que hoje consideramos “excessos”, mas enriquecemos também culturas e desbravámos mentalidades. O povo português levou consigo o bem maior de um povo: a sua língua. Hoje em dia tão mal tratada.

São poucos os que ainda se esforçam por ser os curadores das palavras. Os que com “As emoções de uma encomenda” nos levam a viajar pelo mundo das letras, como fez Luísa Venturini, neste mesmo jornal, na passada semana.

Infelizmente, sempre houve e sempre haverá em todo o mundo a “legião de imbecis”. Aqueles que irão destruir todo este património sem entender que o estão a fazer. Umberto Eco queixou-se há dias que as redes sociais deram voz a estes imbecis – aqueles que antes eram logo silenciados. As redes sociais foram um fenómeno que nos permitiu ter acesso a conteúdos que, de outra forma, seria muito difícil de ter conhecimento. Mas… nem tudo são rosas. Segundo Umberto Eco, “normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel”.

Frase do escritor e professor italiano proferida no mesmo dia em que Cavaco fez o último discurso do 10 de Junho como Presidente da República.