JOÃO FILIPE PEREIRA

Ouve-se por aí que esta nova geração de portugueses é a mais bem formada (academicamente falando) de sempre. Há quem o repita sentido-se até um pouco mais inteligente por pertencer a uma sociedade tão bem formada.

Utilizam o plural do verbo ser para integrarem um grupo que está longe de ter mérito, cuja essência está no direito a ser inteligente. Ou melhor, no direito a que se lhe seja reconhecida alguma inteligência, por menor que seja.

Com a internet, os portugueses parecem ser todos dotados de espírito crítico, verdadeiros arautos da retórica ‘on-line’. Mas, na verdade, pouco mais vemos – geralmente – do que verdadeiras faltas de educação e demonstrações vias de falta de formação pessoal e cívica.

A Democracia não vive com a maledicência, a falta de educação ou com os ataques feitos cobardemente em caixas de comentários de ‘sites’ da internet. Ainda que a Democracia seja a favor de que os cidadãos tenham direito a ser como desejam – algo que os imbecis não se cansam de relembrar: o seu direito a ser imbecil.

Somos, enquanto sociedade, mais inteligentes do que era a sociedade portuguesa há quarenta anos?

A resposta rápida é “sim”. Temos um conhecimento mais alargado sobre o mundo é sobre tecnologias. Só isso chega para provar que somos/estamos mais inteligentes, certo? Errado.

De facto, temos mais acesso a informação mas isso não quer dizer que saibamos utilizá-la da melhor forma. Aliás, isso nem quer dizer que lemos ou ouvimos a informação que temos ao nosso dispor. Já agora, o facto de ter acesso à internet não significa que saibamos verdadeiramente como usá-la ou como tirar proveito dela.

O número de leitores de jornais decresce todos os anos. A rádio é cada vez mais entretenimento e menos informação. A televisão é cada vez mais ‘reality shows’, mais futebol e menos informação .

Estamos realmente melhor preparados para a sociedade de hoje do que os nossos avós e pais estavam quando tinham a nossa idade?

Antes havia pessoas que queriam construir um mundo melhor. Nasceu a NATO, a ONU, a CEE e até a União Europeia. Havia um projecto, uma ideia, para o Mundo. A sociedade sabia o que não queria e qual o caminho que poderia ser trilhado. Se foram tomadas as melhor decisões é discutível, mas alguém lutou por um mundo que se queria melhor. O que sabemos hoje sobre o nosso futuro? Para onde caminhamos enquanto portugueses, enquanto europeus ou enquanto ocidentais?

Não podemos ser mais espertos e melhor formados quando sabemos tanto sobre o mundo e tão pouco sobre os nossos vizinhos. Quando temos tantas certezas e tão poucas dúvidas. Quando o nosso direito a opinar se sobrepõe ao nosso dever de escutar.