JOÃO FILIPE PEREIRA

“Do justo e duro Pedro nasce o brando/(Vede da natureza o desconcerto!),/Remisso e sem cuidado algum, Fernando,/Que todo o Reino pôs em muito aperto;/Que, vindo o Castelhano devastando/As terras sem defesa, esteve perto/De destruir-se o Reino totalmente,/Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.”

O verso anterior finaliza a estrofe cento e trinta e oito do terceiro canto da grande epopeia de Camões. Nele, o poeta alude a D. Fernando I, o Inconsciente ou Inconstante, filho de D. Pedro I e que pela sua fraqueza enquanto líder fez de Portugal um país fraco e submisso, mergulhado em frívolas guerras com Castela.

Talvez inspirado pela história da Escócia e de Edimburgo – que visitei pela primeira vez por estes dias – dei por mim a pensar como foi viver em Portugal há 500 anos. Como era o dia-a-dia, como eram as cidades e vilas, como era a língua portuguesa daqueles tempos tão similar ao galego e até ao castelhano. E foi assim que cheguei a Camões e a este verso.

A História nacional já nos ensinou bastante. Mas continuamos a cometer os mesmos erros. Ou, pelo menos, erros bem semelhantes aos do passado. Da perda de independência a uma fraca sociedade: um fraco governante, um fraco líder, faz fraca a forte gente… Não será tão verdade o contrário. Que uma fraca gente faz fraco o forte líder.

José Pacheco Pereira escreveu há umas semanas e eu subscrevo. Se há um aspecto do comportamento dos portugueses que muito me desagrada, esse comportamento é a tendência para ser subserviente face ao poder, ter muito respeitinho face aos poderosos, nalguns casos ter medo, e, depois de estes caírem do seu pedestal, ir lá a correr atirar a enésima pedra.

Também António Guterres frisou por estes dias que as elites portuguesas não estão ao nível do País que somos.

Falta a Portugal um líder. Temos tudo o resto.

Não podemos esperar que a liderança venha de fora. E sabemos que não é o Presidente da República – seja ele quem for – que vai mudar as elites nacionais nos próximos anos. É a sociedade como um todo que pode eleger quem quer que seja o líder. Mas para isso tem que aparecer alguém com verdadeiras características de liderança.

Seguimos esperando um Dom Sebastião que não aparece e estamos cada vez mais fracos.