A histeria em volta dos dados do ‘site’ de traições

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João-Filipe-Pereira_PB-150x150JOÃO FILIPE PEREIRA

A quantidade de notícias que jorrou após um ataque informático a um ‘site’ de internet cujo objectivo é facilitar as relações extraconjugais é a prova que algo de errado se passa com o jornalismo.

Recordei-me por estes dias de várias histórias de ataques informáticos publicados pelo O DIABO e assinadas por mim. Havia sempre algumas questões na minha mente antes de libertar o texto: onde está o privado e o público? Até onde é que é legítimo a divulgação de dados ou até identificar o nome das vítimas? Sim, são vítimas.

Mas antes disso, em Julho de 2011 – era eu um aprendiz de jornalista neste mesmo jornal – caiu-me nas mãos a lista de ‘e-mails’ para onde Anders Behring Breivik tinha enviado o manifesto antes do atentado levado a cabo na Noruega.

Este jornal teve essa informação antes de qualquer outro. Um dia após os atentados, pelas mãos de outro colaborador deste jornal, poderíamos ter noticiado que havia portugueses nessa lista. Uma semana depois estávamos em condições de publicar entrevistas com alguns dos destinatários do referido manifesto. Não aconteceu.

Como jovem inexperiente, a minha vontade era de publicar a informação. Havia portugueses no circulo de contactos de um terrorista. Para mim, naqueles dias, havia legitimidade jornalística para o noticiar. Estava errado. E felizmente tinha bons “professores” – camaradas – que me fizeram ver isso. Parece que esses bons jornalistas andam a desaparecer das redacções dos nossos jornais.

Alguns matutinos e televisões acabariam por, três semanas depois, trazer a público essa informação. São critérios. Quem recebeu o manifesto apenas tinha em comum uma comunidade ‘online’. Um ‘site’ de debate político, onde o terrorismo não era de todo apregoado.

Agora, quatro anos passados, movido pela curiosidade, fui em busca da famosa lista de dados roubada recentemente do ‘site’ de traições – como é conhecido. E o que mais me chamou a atenção não foram os milhares de portugueses registados ou os cinco ‘e-mails’ terminados em “gov.pt” (algumas notícias falam em quatro, eu encontrei cinco na lista). A primeira coisa que reparei foi o “cuidado” com que os piratas informáticos trataram o assunto.

Primeiro, a lista já estava na posse deles há algum tempo e só agora foi tornada pública; segundo, o ficheiro contém uma declaração que avisa que o ‘site’ que foi pirateado não verifica os ‘e-mails’ dos utilizadores, ou seja, ninguém pode garantir que é o proprietário do ‘e-mail’ que está a usar a conta; terceiro, criaram um ‘site’ não com a lista completa, mas onde se pode pesquisar se um determinado ‘e-mail’ foi ou não encontrado; quarto, os ‘hackers’ lembram que 95 por cento dos inscritos no ‘site’ são homens, ou seja, a probabilidade de algum deles ter realmente traído pelo ‘site’ é deveras baixa – “se é que isso vale de atenuante”, escrevem.

Essa é a verdade, ninguém pode assegurar quem é quem. Ninguém pode dizer que é no Porto ou em Lisboa que há mais traidores. Ou que, efectivamente, é São Paulo a cidade com mais traidores em todo o mundo. Simplesmente porque os dados não são fiáveis.

Seria necessário confirmar, um por um, todos os dados tornados públicos: nome, morada, ‘e-mail’, número de cartão de crédito…

Para ser honesto e ético, esse trabalho só tem real interesse jornalístico, em Portugal, para os cinco ‘e-mails’ do Estado que foram divulgados. Tudo o que ultrapasse isso ultrapassa igualmente o interesse público (ainda que muitos jornais se rejam pelo interesse do público, o que é escandalosamente diferente).

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