João-Filipe-Pereira_PB-150x150JOÃO FILIPE PEREIRA

Há muitos séculos que quem se debruça sobre os comportamentos sociais fala na perda de valores. De facto, não há perda, mas sim alteração. Uma sociedade regida pelo mérito foi durante milénios a matriz para a ascensão.

Os Jogos Olímpicos da Antiguidade serão o caso mais concreto para demonstrar a importância do mérito. Este festival religioso e atlético da Grécia Antiga, em honra de Zeus, servia para idolatrar os homens mais valentes, mais fortes, os que por mérito do seu esforço conseguiam ser melhor que os demais. E isto foi verdade milenar de uma forma transversal na sociedade. Porém, isso está a mudar.

Não temos nos governos os melhores oradores ou os políticos mais competentes. Nem sequer os que mais trabalharam em prol da sociedade. Estão na liderança dos partidos, das máquinas partidárias, das empresas públicas, das empresas privadas na esfera do estado os ‘boys’, os amigos e aqueles a quem alguém deve favores. O pior é que eles têm “direito” a ocupar esses cargos porque há um diploma, um contrato ou um papel que assim o diz.

Entramos então no campo dos direitos. Construímos uma sociedade de aficionados dos “direitos”. Não interessa mais o mérito de cada um dos indivíduos. A relevância de hoje está no direito desses indivíduos a ocupar legalmente um cargo. Preferimos a mediocridade para todos – por direito – do que a meritocracia.

Essa ideia foi implementada na base da sociedade. Hoje, em Portugal, todos têm o direito a, por exemplo, concorrer ao Ensino Superior (sim, eu sei. Se conseguirem, pelo menos, um “honroso” 10 nos exames nacionais!). Não interessa o mérito, interessa o direito pelo “ensino universal”, como se todos devêssemos ter o direito de ir para a Universidade. É isso que muitos fazem: vão para lá. Outros arrastam-se por lá. E o pior é que têm direito a isso. No mínimo, porque pagam propinas. Direitos que se alugam…

Esta ideia dos direitos já chegou aos mais novos. O caso mais recente de um jovem de 17 anos que matou um jovem de 14 anos simplesmente porque queria ter o direito de ter a roupa de marca da vítima e o seu telemóvel.

Criámos uma sociedade com direito ao mérito. Não pode haver falhados ou quem falhe. Criámos uma sociedade de pessoas que não sabem lidar com o falhanço. De cidadãos que têm os mesmos direitos que os outros, mesmo que não façam nada para os merecer.