Lá de longe, alguém espreita

Lá de longe, alguém espreita

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LUÍSA VENTURINILá de longe, alguém espreita.

Sou eu a tentar espreitar-me do futuro e a tentar perceber-me nestes agoras, então bem-aventuradamente passados, torcidos nos bilros da memória e ungidos pelo alívio daquilo que já não é. Claro que isto tem todo o suspense da incerteza – não posso saber se chego ao futuro, não posso saber se, chegando, me apetecerá espreitar-me ou se poderei brincar saudavelmente às volições, ou mesmo se as lentes desses outros tempos tisnarão mais ou menos as paisagens que retive.

Pode sempre dar-se o caso, como de facto se dá (gostei de usar o termo “facto” em relação a isto), de espreitar sempre por uma janela que me confunde, de tal maneira estão urdidas as imagens na trama das sensações. É como se sempre recordasse o ponto intermédio entre o que foi vivido e o que julgo ter vivido. É muito engraçado.

Pelo que do longe de hoje espreito tantos ontens, não me custa entender que a sinfonia se baseará no mesmo compasso e, portanto, acabo por perceber a minha vida como um somatório de várias, múltiplas, multifacetadas vidas, todas elas verdadeiras, todas elas falsas, todas elas completamente vividas e sempre incompletamente percebidas.

Como me espreitarei dali de longe, não faço ideia. O olhar envelhecido pode emprestar cambiantes de doçuras ou agruras aos pormenores que agora mal me mereceram cinco gramas de atenção e pura e simplesmente anular com a desfaçatez dos sábios aquelas coisinhas endemoninhadas que agora me roubam o apetite, espantam o sono e envenenam os dias.

Poderá mesmo acontecer que me detenha numa qualquer esquina destes dias esconsos para ficar a regalar-me na esplanada de uma cumplicidade solarenga, benfazeja e breve, como se essa sim tivesse sido a sílaba tónica deste corredor de tecto baixo e sem janelas, como se tivesse mesmo acontecido – irrelevante se sim ou não ou se talvez: se o recordo, que é como quem diz, se o trago de volta ao coração, é porque a alguma das minhas vidas deve pertencer, nem que seja a essa que nunca foi efectivamente vivida.

Para já e por enquanto, o processo é mais esse outro: cá de longe, alguém espreita. E é como ter tempo para perceber o casulo, já sem a ocupação de ter de tecê-lo.

Se é mesmo esse o casulo, nunca poderei sabê-lo, mas interpretar aquele enquanto construo este, sem nunca deixar de ser ambígua a clarividente nitidez da espreitadela, é um balancé delicioso.

Qualquer coisa um bocadinho ao jeito do Mário de Sá Carneiro, quando resmungava: “Eu não sou eu nem sou o outro.

Sou qualquer coisa de intermédio”, mas… convenhamos, sem abdicar da Stein, obviamente!

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