A recuperação de um arquétipo

A recuperação de um arquétipo

0 957
LUÍSA VENTURINI

Quer se queira quer não, a própria história de Portugal fundamenta-se numa certa soteriologia, que se reflecte na tentação sempre presente da crença milagreira do povo. Mas, não é esta a vertente que pretendo abordar. É mais a outra, a que nos esclarece as ideias, eleva o pensamento e arredonda o espírito.

Por um acaso, daqueles que parecem provocados pelo conjuro de umas quantas bruxas, tive a oportunidade de uns minutos de conversa amena e fácil com o Dr. Joaquim Eusébio, historiador de arte e agora doutorando que, dentro de dias, defenderá a sua tese sobre Santo António na Azulejaria Portuguesa dos sécs. XVII e XVIII em Portugal e no Brasil.

O padroeiro dos pobres, oprimidos e doentes, dos náufragos e das famílias, o santo casamenteiro que sempre atende o responso para que se encontre o que se perdeu e que, perdida a nacionalidade, também é venerado como padroeiro dos combatentes, passa a ter lugar no coração português como Santo António de Lisboa, relegando-se Pádua mais para os domínios da teologia do que da fé popular. É, na altura certa, recuperado pelo nosso excelso filósofo seiscentista, o bom Padre Vieira, que a ele recorre para a grande metáfora de justiça social e que nele vê a referência para a sua intrínseca necessidade de pensamento humanista.

Entre a vocação jesuítica de António Vieira e a franciscana de Fernando de Bulhões criou-se uma ponte tão extraordinariamente estreita que quase vejo (permita-se-me a extrapolação) na figura do Papa Francisco uma emulação desse ideal maior: a íntima relação entre o conhecimento dos homens, a filosofia e a demanda do Sagrado.

Nestes tempos em que a moral se instrui de leituras mercantilistas e que a dignidade do ser humano se vê restringida a definições tão espaventosas que se me afigura urgente uma sua reperspectivação, a recuperação deste arquétipo – através da figura de Santo António, tão pedagógica e iluminantemente cantada por Vieira – na mente das gentes, ergue-se no meu horizonte como algo necessário.

O Dr. Joaquim Eusébio, homem bom e sábio, irá dissertar sobre azulejos, é certo. Não tenho dúvida que, com a sua sapiência de estudo feita e com a sua sabedoria conquistada na filosofia filadélfica de quem constantemente se quer vivo, nos devolverá, entre linhas, entre letras, entre espaços, o grande paradigma de que a nossa nação tanto precisa.

Aguardo, não sem ansiedade, a publicação deste seu trabalho. Aguardo, portuguesa, a recuperação deste nosso arquétipo.

ARTIGOS SIMILARES

0 186

0 184