Advento

Advento

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LUÍSA VENTURINIChega o mês de Dezembro em catadupas. Catadupas de antecipação, de expectativas de amores-abraços que aguardam por cumprir-se. De invernias e lareiras, de frios e dores tremendas de ossos a atazanar os que passaram a ser velhos antes de o serem, por falta do cobertor quentinho das lãs e dos afectos, dos lenhos em cuja roda se canta para espantar belzebus e sombras e mortos e outros vícios de sofrimentos que o fado e o cante nos colam à pele.

Chega o mês de Dezembro – o tal que já foi décimo e que agora é décimo segundo – com toda a sua panóplia de sentimentos refugados e de ansiedades renovadas pelo voto de epifanias genuínas.

Cheira a Advento pelos caminhos, pelos tremeluzires das luzes, cada vez mais pardacentas e funéreas (e, no entanto, luzes), pela mascarada consumista e consumível das urbes que se afastaram há tantos tempos da sua própria, humana e primordial origem, em que rotinas cíclicas levavam as gentes a saltar fogos, brindar solstícios e criar em si o casulo da primavera.

Chega o mês de Dezembro e traz escarlates de azevinhos colados aos dias e um tear fabril, febril, de boas vontades notificadas para se irem fazendo presentes daqui até algures lá mais adiante.

No vazio da minha casa, chega também o mês de Dezembro. Ázimos os meus dias, azedos os sítios onde estou, temerariamente aventurosa a história dos tempos que vivo. Nas tormentas circulares que os mares conhecem, Dezembro toma um protagonismo insólito – é o mês do entre-tempos. Ainda nada acabou. Ainda nada recomeçou. O mês, o trágico, o quente, o ambíguo mês de Dezembro.

Há uns que dizem que Dezembro traz com ele a convocação individual de um íntimo Nicodemos.

Para já estou só à beirinha de uma estreitíssima fronteira – Dezembro está mesmo a começar. Trará Natal? Sei lá! E o que mais me perturba é que não sei exactamente se me importa que seja Dezembro, que traga ou não Natal ou se vou continuar na ruminação dos dias alheios aos ciclos, às natividades, aos renascimentos. Pergunto-me seriamente se o meu apetecido Nicodemos já terá morrido em mim.

(Mas, meio a dormir, meio acordada, respondo-me: escolho ser o meu próprio advento.

Chega o mês de Dezembro, porque sim, e, por muito que me roubem símbolos e valores, eu vou viver Natal cá dentro. Porque quero. Porque existo. Porque sou.)

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